Livros > Resenhas

Redes de Indignação e Esperança. Movimentos Sociais na Era da Internet

Começo o livro “Redes de Indignação e Esperança. Movimentos Sociais na era da Internet” com uma citação de Manuel Castells:

“Ninguém esperava. Num mundo turvado por aflição econômica, cinismo político, vazio cultural e desesperança pessoal, aquilo apenas aconteceu. Subitamente, ditaduras podiam ser derrubadas pelas mãos desarmadas do povo, mesmo que essas mãos estivessem ensanguentadas pelo sacrifício dos que tombaram. Os mágicos das finanças passaram de objetos de uma inveja pública a alvos de desprezo universal. Políticos viram-se expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A mídia se tornou suspeita. A confiança desapareceu... (pg 7)”

O livro “Redes de indignação e esperança. Movimentos sociais na era da internet”, de Manuel Castells, levanta algumas questões políticas mais surpreendentes e fascinantes ocorridas em todo o mundo, as revoltas em massa, a variedade cultural dessas revoltas e um projeto ambicioso. Os movimentos da Islândia e da Tunísia, da Revolução egípcia à Primavera Árabe, dos movimentos dos indignados na Espanha a Occupy Wall Street até a revolta pela melhoria dos transportes no Brasil em 2013. Este é um livro oportuno e importante, pois nos fornece um retrato bem interessante sobre esse período.

O livro mapeia as atividades práticas dos diferentes movimentos. E para isso Manuel Castells vai responder a algumas perguntas, como: o que desencadeou as mobilizações de massa de 2011 em todo o mundo? Como dar sentido a essas novas formas de participação política?

Foi na segurança do ciberespaço que muitas pessoas se encontraram e começaram, através desse meio, a marcar presença no espaço público, dando origem aos movimentos sociais. Um “blind date” em direção ao destino que todos desejavam forjar. Um encontro autoconsciente, numa manifestação que sempre caracterizou os grandes movimentos sociais.

Através do ciberespaço os movimentos espalharam-se por contágio em um mundo ligado pela Internet. Começaram na Islândia e na Tunísia, e de lá a centelha acendeu o fogo numa paisagem social diversificada e devastada pela ambição e manipulação. Quais foram os motivos que geraram essa crise? A pobreza? A crise econômica? A falta de democracia?

Não existe apenas um motivo, mas uma série de eventos. Mas um conjunto de motivos e, entre eles, podemos destacar o cinismo, a arrogância das pessoas no poder. No poder, entende-se o poder financeiro, político, cultural, que uniram aqueles que transformaram medo em indignação. E da indignação a esperança de uma humanidade melhor em meio ao sofrimento da humilhação – temas recorrentes a maioria de todos os movimentos.

Movimentos estes conectados em rede que se espalharam pelo mundo árabe e foram confrontados com violência assassina pelas ditaduras locais. Os destinos desses movimentos foram diferentes. Alguns se ergueram contra as ditaduras assassinas locais. Outros ergueram-se contra o gerenciamento equivocado da crise econômica na Europa e nos Estados Unidos por governos que se colocaram ao lado das elites financeiras, contra os seus cidadãos, como aconteceu na Espanha, Grécia, Portugal, Itália, Grã-Bretanha, Israel, Brasil.

Nos Estados Unidos, o movimento Occupy Wall Street foi tão espontâneo quantos os outros e igualmente conectado, a ponto de a revista Time atribuir ao “Manifestante” o título de personalidade do ano.

“Unidos pela Mudança Global” mobilizou centenas de milhares de pessoas em 95 cidades de 82 países, reivindicando justiça social e uma democracia verdadeira. Em todos os casos, partidos políticos foram ignorados, a mídia também foi rejeitada. Foram substituídos pela internet, por assembleias, em coletivos, para a tomada de decisões.

“Redes de Indignação e Esperança. Movimentos Sociais na era da Internet”, de Manuel Castells, analisa esses movimentos sociais, sua formação, seus valores e perspectivas de transformação social. É uma investigação da sociedade em redes que já fazem parte do século XXI ao se engajarem em práticas conflitivas enraizadas nas contradições fundamentais de nosso mundo. As redes de poder em vários domínios da atividade humana. O poder das redes financeiras e as multimídias globais ligadas a metarredes em particular possuem um poder extraordinário.

Para isso o autor parte de algumas premissas. Uma delas é a de que as relações de poder são constitutivas da sociedade onde as instituições são moldadas segundo os seus valores e interesses. O poder é exercido por meio da coerção (o monopólio da violência, legítima ou não, pelo controle do Estado) e pela construção de significado na mente das pessoas, mediante mecanismos de manipulação simbólica.

Nos últimos anos, a mudança fundamental no domínio da comunicação foi a emergência que Manoel Castells chama de autocomunicação – o uso da internet e das redes sem fio como plataformas de comunicação digital. É comunicação de massa porque processa mensagens de muitos para muitos, com o potencial de alcançar uma multiplicidade de receptores e de se conectar a um número infindável de redes que transmitem informações digitalizadas pela vizinhança ou pelo mundo.

É autocomunicação porque a produção da mensagem é decidida de modo autônomo pelo remetente, a designação do receptor é autosselecionada. A comunicação de massa baseia-se nas redes horizontais de comunicação interativa que, geralmente, são difíceis de controlar por parte de governos e empresas. Além disso, a comunicação digital é multimodal e permite a referência constante a um hipertexto global de informações cujos componentes podem ser remixados pelo ator comunicativo segundo projetos de comunicação específicos.

A autocomunicação de massa fornece a plataforma tecnológica para a construção da autonomia do ator social, seja ele individual ou coletivo, em relação às instituições. É por isso que os governos têm medo da internet, e é por isso que as grandes empresas têm com ela uma relação de amor e ódio, e tentam obter lucros com ela, ao mesmo tempo que limitam seu potencial de liberdade (por exemplo, controlando o compartilhamento de arquivos ou as redes com fontes aberta).

Em nossa sociedade, que Manuel Castells conceitua como uma sociedade em rede, o poder é multidimensional e se organiza em torno de redes programadas em cada domínio da atividade humana, de acordo com os interesses e valores de atores habilitados.

As redes de poder o exercem sobretudo influenciando a mente humana mediante as redes multimídias de comunicação de massa. Assim, as redes de comunicação são fontes decisivas de construção de poder.

Quem detém o poder da sociedade em rede?

Segundo Manuel Castells, os programadores com a capacidade de elaborar cada uma de suas principais redes de que dependem a vida das pessoas (governo, parlamento, estabelecimento militar e segurança, finanças, instituições de ciência e tecnologia.

Em segundo lugar, os comutadores que operam as conexões entre diferentes redes (barões da mídia introduzidos na classe política, elites financeiras que bancam as elites políticas, e elites políticas que se socorrem de instituições acadêmicas financiadas por empresas).

Os movimentos sociais encontram nas redes sociais um espaço próprio. Uma vez que o espaço público institucional está ocupado pelos interesses das elites dominantes, os movimentos sociais precisam abrir um novo espaço público que não se limite à internet.

No capítulo chamado “Prelúdio à revolução: Onde tudo começou”, Castells nos desafia fazendo a seguinte pergunta:  “O que há em comum entre a Islândia e a Tunísia?”. Bem, do ponto de vista cultural, político e social não existe nada em comum. Mas, no entanto, existe algo que ligam esses dois países. As insurgências políticas transformaram as instituições desses dois países no período entre 2009 e 2011, sacudindo a ordem política no mundo árabe e desafiaram as instituições políticas da Islândia. E o fio condutor que uniu esses dois países apesar de contextos diversos em termos econômicos e institucionais foi o empoderamento, que nasceu do desprezo por seus governos e pela classe política, fossem eles ditatoriais ou pseudodemocráticos.

Tanto na Tunísia como na Islândia houve transformações políticas bem claras, novas formas culturais emergiram dos movimentos num intervalo muito curto de tempo.

Revolução na Tunísia

Na Tunísia tudo começou em Sidi Bouzid, uma pequena cidade empobrecida com apenas 40 mil habitantes. Um vendedor ambulante chamado Mohamed Bouazizi, de 26 anos, numa manhã de 17 de dezembro de 2010, diante de um prédio do governo, após se recusar a pagar propina à polícia, viu o confisco de sua banca de frutas e verduras. Em um gesto de protesto, se imolou na frente da prefeitura da cidade. Seu primo registrou o protesto, o seu martírio e distribuiu o vídeo pela internet. Protestos começaram a ocorrer, seguidos de uma repressão selvagem da polícia, que matou 147 pessoas e feriu centenas. Foi quando aconteceu o impensável: em 12 de janeiro de 2011, o general Rachid Ammar, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas tunisianas, recusou-se a abrir fogo contra os manifestantes. Foi exonerado, mas o ditador Bem Ali e sua família deixaram a Tunísia para se refugiar na Arábia Saudita.

Era preciso encontrar um substituto na elite política, mas os manifestantes não queriam essa mesma elite. Eles queriam mais. Liberdade política e de imprensa. Eleições livres e democráticas sob nova lei eleitoral para os poderes constituídos. Pediam para os políticos corruptos, especuladores financeiros, policiais violentos e a mídia subserviente ficassem fora do processo decisório. A conexão livre pelo Facebook, YouTube e Twitter e a ocupação do espaço urbano criaram um híbrido espaço público de liberdade que se tornou uma das características da rebelião tunisiana, prenunciando os movimentos que surgiriam em outros países.

Os partidos políticos tradicionais não tiveram presença. A liderança surgiu de uma forma espontânea em momentos e lugares específicos. A idade média dos manifestantes era entre vinte a trinta anos. Outros fatores tornaram possíveis as revoltas tunisianas de 2011. Entre eles, se destacam a Al Jazeera em amplificar as vozes dos indignados contra as condições econômicas e políticas, tais como desemprego, carestia, desigualdade, pobreza, brutalidade policial, censura, corrupção como um modo de vida do Estado.

Manuel Catells faz as seguintes considerações para que a Revolução tunisiana desse certo:

Desempregados de nível superior lideraram a Revolta ignorando qualquer outra liderança formal tradicional. A presença de um ciberativismo forte que criticava o regime abertamente. Uma taxa de pessoas que usam a internet em escolas e cibercafés. Essa combinação foi fundamental para o protesto retroalimentasse o movimento social na Tunísia.

A revolução das panelas na Islândia.

Ao contrário da Tunísia, a Islândia é uma democracia estável com um alto padrão de vida e com uma dívida governamental baixa. Mas foi em 2000 que o governo da Islândia deu início a uma ampla política de desregulamentação que trouxe consequências desastrosas primeiro para o meio ambiente e depois para a economia.

 O governo privatizou os três maiores bancos da Islândia, o Kaupthing, Landsbanki e Glitnir. O resultado foi que, em um período de cinco anos, esses três pequenos bancos que nunca operaram fora da Ilha, emprestaram $120 bilhões, dez vezes o tamanho da economia da Islândia. Os banqueiros despejaram dinheiro uns nos outros e para os amigos. Essa operação ficou conhecida como “cartas de amor.”

A estratégia que seguiram para atingir seu surpreendente crescimento foi semelhante a muitas entidades financeiras nos Estados Unidos e no Reino Unido. Usaram suas ações como cauções para tomar empréstimos em grande escala uns dos outros e depois empregaram esses empréstimos para financiar a compra de outras ações dos três bancos elevando o preço das ações e turbinando balanços. Além disso, tramaram juntos para ampliar o escopo de suas operações especulativas em escala global.

Os 330 mil habitantes da ilha haviam trocado durante os anos 1990 a tradicional pesca do arenque pelo mercado financeiro, incentivados por uma política de privatizações. Os bancos ofereciam àquela época empréstimos mais experimentais do que as canções da cantora Byork. O resultado foi o endividamento em moeda estrangeira, como iene japonês, e investiam em operações de riscos – comprando times de futebol, carros.

Bem, vamos resumir essa história? Os três bancos entraram em colapso, deixando uma dívida de US$ 25 bilhões de dólares. A crise financeira islandesa provocou perdas, na Islândia e no estrangeiro, equivalentes a sete vezes o PIB islandês. Foi um desastre que até hoje a Islândia tenta se recuperar. A renda pessoal dos islandeses sofreu uma queda e seus ativos foram desvalorizados. PIB islandês caiu 6,8% em 2009 e 3,4% no ano seguinte. Foi a partir daí que surge a “Revolução das Panelas”.

 Em 2008, o cantor Hordur Torfason passou uma semana em frente ao Parlamento islandês (Alþing) cantando sua revolta contra a situação na Islândia. Na medida em que seu protesto era mostrado pelo YouTube, em pouco tempo a população começou a ocupar a frente do prédio protestando contra os banqueiros e a omissão dos políticos em relação a eles, contra o desemprego gerado por essa crise e ameaças de despejos de todos aqueles que estava sofrendo por causa dos bancos. Os manifestantes exigiam a renúncia do governo. Pressionavam pela refundação da República. Exigiam uma nova Constituição para remover a Carta de 1944, documento que emancipava o país da Dinamarca. As consequências foi uma nova eleição. Os dois partidos conservadores que se alternavam no poder acabaram sendo fragorosamente derrotados pelos partidos social-democrata, o Partido Verde numa ampla coligação, onde elegeram a primeira-ministra Johanna Sigurdardottir, a primeira ministra homossexual assumida a ocupar o cargo.

A primeira ação da primeira-ministra foi nacionalizar os três bancos responsáveis pela crise, sendo que dois deles voltaram a ser geridos por um fundo comum, tendo a participação do Estado. Os islandeses tiveram suas poupanças reparadas pelo governo. E através de uma consulta popular, fizeram uma consulta popular para saber o que fazer com a dívida deixada pelos bancos. 93% dos islandeses votaram pelo não pagamento da dívida para bancos do Reino Unido e da Holanda, o que levou o governo a entrar com processo judicial, levando o primeiro-ministro islandês, Geir Haarde, ao tribunal para responder pela má administração do dinheiro público e favorecimentos ilícitos aos setores culpados pelas adversidades do país. O fato da Constituição de um país poder refletir explicitamente princípios que, no contexto capitalismo global, são revolucionários mostra o elo direto entre um processo de crowdsourcing genuinamente popular e o conteúdo resultante desse processo participativo.

Os islandeses insurgiram-se como pessoas em outros países contra um setor do capitalismo financeiro especulativo que destruiu os meios de sustento do povo. Mas da sua indignação veio a percepção de que as instituições democráticas não representavam os interesses dos cidadãos porque a classe política se tornara uma casta autorreprodutora que favorecia os interesses das elites financeira, assim como a preservação de seu monopólio sobre o Estado.

As duas revoltas se deram contra as consequências de uma crise econômica profunda, embora na Tunísia isso não tenha sido o motivo principal. Nesse país a questão foi outra, pois trata-se de uma pilhagem feita pela camarilha enraizada no Estado predador. Além disso, as pessoas sentiam-se destituídas de poder por causa das oligarquias empresariais, e a classe política foi  ditatorialmente imposta. Não há termos de comparação entre Islândia e Tunísia, e Manuel Castells deixa bem claro isso. A Islândia respeita os direitos civis. Na Tunísia a ditadura de Ben Ali e seus assassinos está associada à tortura. No entanto, na perspectiva dos cidadãos dos dois países, os governos não representavam os interesses e a vontade do povo, mas, sim, da elite financeira. O déficit democrático, embora em proporções amplamente diferentes, estava presente em ambos os países e era uma fonte importante do descontentamento que estava na raiz do protesto. A crise de legitimidade associou-se à crise do capitalismo especulativo.

As similaridades desses dois eventos foram dramáticas (o colapso financeiro da Islândia, a autoimolação de Mohamed Bouazzi na Tunísia). Em ambos os casos os telefones celulares e redes sociais da internet desempenharam papel importante no que se refere a difundir imagens e mensagens que mobilizaram pessoas oferecendo uma plataforma de discussão, convocando à ação, coordenando e organizando os protestos e abastecendo a população em geral de informações e debates.

A Revolução no Egito

A Revolução de 25 de janeiro no Egito destronou em 18 dias o último faraó. Aconteceu por um conjunto de fatores. As primeiras são as básicas, ou seja, a opressão, a injustiça, a pobreza, o desemprego. A segunda já parte da brutalidade policial, sexismo, luta pelo direito das mulheres e eleições fraudulentas de 2005 e 2010, sem contar com as greves das fábricas de tecidos de Al-Mahalla Al-Kubra em 6 de abril de 2008.

Dessa luta nasceu o movimento da juventude 6 de abril, criado no Facebook, que atraiu 70 mil seguidores. Esse movimento teve um papel fundamental na praça Tahrir em 25 de janeiro. Outros grupos surgiram em reuniões de internet.

 A rede “Nós somos Khaled Said” foi criada no Facebook em alusão à memória do jovem ativista espancado até a morte pela polícia em junho de 2010 em um cibercafé, na Alexandria, após mostrar um vídeo sobre a corrupção policial. O grupo foi criado por Wael Ghonim, jovem executivo do Google, e Abdul Rahman Mansour. A convocação da revolta se deu (como já dissemos) no dia 25 de janeiro, que no Egito é o Dia Nacional da Polícia.

Uma outra fundadora do movimento chama-se Asmaa Mahfouz, que acaba de completar 26 anos, publicou um vídeo no Facebook depois da revolução tunisiana com os seguintes dizeres:

“Estou fazendo este vídeo para lhes dar uma simples mensagem. Queremos ir à Praça Tahrir no dia 25 de janeiro. Iremos ali para exigir nossos direitos humanos fundamentais. Simplesmente queremos nossos direitos humanos e nada mais. Eu irei à praça no dia 25 de janeiro e distribuirei panfletos nas ruas. Não vou me autoimolar. Se as forças de segurança quiserem me tacar fogo, que venham e o façam. Se te considera Homem, vem comigo no dia 25 de janeiro.”

Esse dia acabou sendo conhecido como a Sexta-feira da Ira, quando um violento  esforço da central de segurança da polícia para reprimir protestos foi enfrentado com determinação pelos manifestantes que ganharam o controle de áreas da cidade e ocuparam o prédio do governo e delegacias de polícia. Centenas de vidas foram ceifadas naquela noite, e milhares ficaram feridos.

As redes de mídia social desempenharam, assim, um importante papel na revolução egípcia. Manifestantes registraram os eventos com seus telefones celulares e compartilharam seus vídeos com pessoas do país e do mundo via YouTube e Facebook, frequentemente transmitidos ao vivo. Eles deliberavam pelo Facebook, coordenavam-se pelo Twitter, divulgavam pelo SMS, e usavam blogs para transmitir amplamente suas opiniões e se envolver em debates.

Mais uma vez a Al Jazeera foi fundamental em sua cobertura contínua dos levantes contra o regime. Quando o governo fechou a conexão com o satélite, outras redes árabes por satélites ofereceram a Al Jazeera o uso de suas frequências. O meio mais importante para contornar o bloqueio foram os telefones fixos. Eles não foram cortados porque hoje os países não podem funcionar sem algum tipo de telefonia. Através dos aparelhos fixos, militantes egípcios faziam ligações para números de telefones no exterior, que automaticamente repassavam as mensagens para redes de computadores fornecidas por voluntários, tais como a rede The Onion Router (TOR). que de diversas maneiras reenviava as mensagens para o Egito.

A indignação e a luz da esperança atingiram o mundo árabe simultaneamente. Não  eram revolucionários islâmicos nem de esquerda, embora todos aqueles que possuíam projetos para mudar a sociedade tenham acabado por participar do movimento. Em comum, todos esses movimentos tinham origem em uma classe média empobrecida, e muitos eram mulheres.

Os Indignados na Espanha

Manuel Castells explica a revolução dos indignados na Espanha como uma extensão da eurocrise, e do exemplo da Islândia na indignação da população, a deslegitimidade dos partidos políticos causada pela crise de 2008 do sistema financeiro mundial e como consequência a Espanha. Passeatas e manifestações nas Praças espanholas.

As comunidades virtuais, como a “Plataforma de Coordenação de Grupos Pró-Mobilização Cidadã” e a “Democracia Real Ya”, funcionaram como meio para a realização de debates, articulações e a deliberação das ocupações dos espaços públicos.  Tais comunidades congregaram grupos como “Juventud sin Futuro”, “Juventud em Acción”, “Plataforma de Afectados por la Hipoteca” e outros caracterizados pelo descontentamento com a forma como o governo gerenciava a crise.

Durante meses, dezenas de milhares de pessoas participaram de assembleias e manifestações. E tudo feito de forma pacífica, exceto a violência resultante de ações policiais excessivas, que levaram os responsáveis a julgamento.

O movimento se difundiu pelo tecido social, com assembleias de bairro, ações de defesa contra as injustiças – como a oposição a despejos de famílias – e extensão de práticas econômicas alternativas: cooperativas de consumo. Banco ético, redes de intercâmbio e outras formas de viver de maneira diferente para viver com sentido.

Para ele, a principal “raiz” fincada com o movimento foi a autorreflexão da população e reflexão sobre o sistema, sinalizando assim a importância de valorizar todas as etapas da mobilização, não a entendendo, apenas, como um meio para a obtenção de resultados, tal como fazem os de visão produtivista.

Os indignados chegaram a assustar as elites pela possibilidade de contágio, sofreram perseguição midiática, policial e política. Isso criou a impressão de que o movimento se limitou a alguns jovens idealistas. Os partidos de ultraesquerda tentaram pescar em águas turbulentas, para reanimar sua militância minguada. Apesar das hostilidades dos poderosos, o movimento continuou, manteve sua deliberação em assembleias, comissões pela internet, e segue contando com a participação popular quando surgem iniciativas concretas; e aparece à superfície o trabalho cotidiano daqueles que não aceitam que tudo continue igual.

Occupy Wall street

Após a crise de 2008, o capital financeiro e seus altos executivos enfrentaram um sério problema: as pessoas simplesmente desenvolveram uma grande raiva em relação a eles. E essa raiva atinge aos políticos, que são vistos como marionetes dos bancos e que não hesitam em protegê-los com o dinheiro dos contribuintes, sem que as instituições financeiras retribuam o favor quando vão bem e o país vai mal. Afinal, argumentam, o dinheiro pertencem aos acionistas. Alguns poucos acionistas mandam no mercado. Os investimentos entre bancos e o sistema fecham em si mesmo, com essa utilidade social e máxima captação de fundos em benefícios dos banqueiros, com ganhos exorbitantes destinados a eles mesmos, mesmo que os bancos sejam quebrados por esses executivos. E pagar impostos? Para quê? Para isso servem os paraísos fiscais.

Daí o movimento Occupy Wall Street ter se iniciado no coração do capitalismo financeiro, ter conseguido tanto apoio popular nos Estados Unidos e no mundo. A ideia começou na internet em julho de 2011. A proposta de ocupar Wall Street em 17 de setembro, dia da Constituição, para protestar contra o controle da política pelo dinheiro, foi incorporada por diversos grupos em todo os Estados Unidos.

Manuel Castells vê uma grande semelhança entre esses movimentos ocorridos nos países árabes e na Espanha, destacando o apoio vindo das redes virtuais, como Facebook, Twitter e sites como AmpedStatus, entre outros. Ele segue discorrendo sobre a importância de algumas publicações impressa (offline), como Occupied WJS, Occupy! N+1 ou Tidal, e também sobre dinâmica e organização das assembleias – constituídas por um conselho de porta-vozes (Spokes Council) cujas atividades buscavam outra concepção de participação e política.  Tal mobilização realizou-se em ações direcionadas contra aos banqueiros por meio de slogans, como, por exemplo, “Separe-se de seu banco”, “o Dia da Transferência bancária”, valorizando a ideia de cooperativa de crédito, de base comunitária e deixando claro um dos alvos da mobilização. Contou, ainda, com tecnologias de transmissão de imagens na rede, que funcionavam como forma de proteção contra a violência.

Um ponto que chama a atenção foi o silêncio da mídia, e a ausência de apoio organizado pareceu confinar o movimento ao ostracismo. Suas demandas variadas tinham um ponto em comum: era uma forte crítica ao capital financeiro que provocou a crise e que ainda continua exercendo o poder de vida e morte sobre a economia e a política. Se os meios de comunicação não vão à montanha, a internet vai, e é através desse meio de comunicação que a iniciativa conseguiu apoio dos cidadãos fartos do domínio dos bancos.

A repressão foi intensificada, o que aconteceu principalmente nos estados controlados pelos governadores republicanos e das grandes empresas. Foi aí que os sindicatos aparecem, assim como os hackers. Anonymous publicou os nomes e senhas pessoais dos policiais responsáveis por ferir manifestantes.

A reação que o acampamento dos manifestantes provocou no prefeito de Nova York Michel Bloomberg foi na tentativa de impedir que tudo se encaminhasse para um conflito. No dia 1º de outubro, durante a marcha na ponte do Brooklyn, a polícia montou uma armadilha com o pretexto de prender centenas de manifestantes. A brutalidade foi vista e divulgada pela grande mídia, que, mesmo discordando dos propósitos do movimento, divulga.

O resultado acabou acontecendo em diversos lugares, o silêncio foi rompido. Centenas de cidades aderiram. Os manifestantes em diversas partes do país começam a ocupar ruas, bairros. No Estado de Nova York, todos apoiaram as críticas a Wall Street. O movimento se autoproclama representante de 99% dos cidadãos, em oposição a 1% que detém toda a riqueza.

Não sobrou para ninguém, nem para Barack Obama, que se transformou em um prisioneiro de Wall Street.

Alguns acontecimentos viralizaram nas redes sociais por milhares de pessoas, como o sargento dos marines, ex-combatente do Afeganistão, que partiu para cima dos policiais repreendendo-os ao atacar os cidadãos. Surge o movimento chamado Occupy Marines feito pelos próprios fuzileiros navais, que se dispõe a dar apoio logístico e liderança aos manifestantes.

Uma jovem de 22 anos em Washington, Molly Katchpole, reage contra a imposição do Bank of América de cobrar 5 dólares por cada pagamento feito por cartão de débito. Ao publicar seu protesto na internet, 300 mil pessoas se juntaram ao protesto. Os bancos cancelaram a medida com ampla repercussão na mídia. Uma campanha foi feita para retirar o dinheiro de grandes bancos e depositarem em cooperativas de crédito e bancos comunitários. Da internet à rua, à conta bancária. Os executivos escondiam-se do público.

Revolta no Brasil

Castells dedica um posfácio ao Brasil, onde ele analisa as manifestações sem líderes, sem partidos, sem sindicatos. Como aconteceu em diversas partes do mundo. Sem apoio da mídia. Espontaneamente. Uma indignação que atingiu a maioria das cidades brasileiras. E que foi se transformando em projeto de esperança. O movimento Passe Livre surge como uma crítica à imobilidade estrutural das metrópoles brasileiras. E é bom que se diga que não se restringia a 25 centavos. Resultado de um modelo caótico de crescimento urbano, corrupção. Contra uma classe política que vê os votos como seus, não se sentem representando cidadãos, mas a si próprios. A democracia está sendo até hoje sequestrada por profissionais da política, e não pelos cidadãos. A democracia foi reduzida ao mercado de votos, dominado pelo dinheiro, pelo clientelismo e pela manipulação midiática. 

A Copa do Mundo, assim como as Olimpíadas no Brasil, transformou-se em algo mafioso, estádios superfaturados. E a população queria, ao invés de dez estádios, hospitais decentes.

O Movimento Passe Livre passou o clamor pela Liberdade em todas as suas dimensões, um país perturbado por um modelo der crescimento que ignora a dimensão humana e ecológica do desenvolvimento. Um modelo centrado no crescimento a qualquer custo, centrado no consumo.

Um modelo neodesenvolvimentista, como o chinês, que envereda por uma senda autodestrutiva com o objetivo de sair da pobreza. E foi dessa forma confusa e otimista que a consciência de milhares de pessoas, que eram ao mesmo tempo indivíduos e ao mesmo tempo coletivos conectados em rede através de tuítes, posts e imagens, unia-se na rua.  Um mundo que os políticos na época não entendiam, e não se interessavam.

Um Congresso grotesco com burocratas partidários, chefes locais corruptos. Esse mesmo congresso que na época, através de uma PEC, quis tirar do Ministério Público o direito de investigar a corrupção, e que diante da pressão da rua se apressou a votar contra o seu próprio projeto quase por unanimidade.

Mas fico por aqui, dizendo apenas que os méritos desse grande livro residem em nos fazer compreender a dinâmica fluida dos movimentos sociais e seu papel para a política contemporânea. A melhoria da comunicação dos movimentos sociais nos mostra um eleitorado conectado, desencantado e indignado contra esse modelo de democracia. No entanto, até que ponto essa conectividade prospera em meio a uma internet capitalista, voltada ao entretenimento causando déficit de atenção? São perguntas ainda sem resposta. Mas cabe ao tempo responder.

“Redes de Indignação e esperança. Movimentos Sociais na era da Internet”, de Manuel Castells, merece um lugar de destaque na sua estante.


Data: 15 outubro 2021 (Atualizado: 15 de outubro de 2021) | Tags: Sociologia


< Ruptura: A crise da democracia Liberal Meus Amigos >
Redes de Indignação e Esperança. Movimentos Sociais na Era da Internet
autor: Manuel Castells
editora: Jorge Zahar
tradutor: Carlos Alberto Medeiros
gênero: Sociologia;

compartilhe

     

você também pode gostar

Resenhas

Capitalismo Parasitário

Resenhas

Ruptura: A crise da democracia Liberal

Resenhas

Vidas em Fragmentos sobre a Ética pós moderna