O Herói de Mil Faces
“O Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell, publicado em 1949, é um dos livros mais influentes do século XX no campo da mitologia comparada e da narrativa literária. A premissa central de Campbell reside na existência do “Monomito”. E o que vem a ser esse conceito? Campbell observou que existe um padrão estrutural universal nas tradições heroicas de diversas culturas e épocas, desde os mitos da Antiguidade Clássica até as lendas orientais e ameríndias. Campbell cruza a análise mitológica com os conceitos da psicologia profunda de Sigmund Freud e de Carl Jung. Ele argumenta que a jornada do herói não é apenas uma sucessão de eventos externos, mas uma representação simbólica do processo de maturação psíquica do indivíduo. Essa resenha propõe-se a analisar os elementos constituintes desse ciclo, ou seja, a partida, a iniciação e o retorno, discutindo como o autor interpreta os símbolos míticos como chaves para a compreensão da experiência humana universal.
Campbell inicia sua análise fazendo uma distinção entre mito e sonho: o mito é o sonho despersonalizado. Para sustentar essa comparação, o autor recorre às teorias de Freud e Jung. O sonho é a manifestação do inconsciente de uma única pessoa. É, por assim dizer, o mito do indivíduo. O sonho lida com medos e desejos específicos — como um trauma de infância —, mantendo as energias psíquicas vinculadas a questões biográficas e, muitas vezes, neuróticas.
O mito, por sua vez, é diferente: trata-se do sonho da humanidade. Surge quando os símbolos do inconsciente são depurados das excentricidades individuais e passar a ser compartilhados por uma cultura ou por toda a humanidade. O mito não fala apenas de um homem ou de uma mulher, mas dos dilemas da condição humana. Enquanto o sonho pode ser confuso e apenas o reflexo do cansaço e da ansiedade, o mito funciona como um mapa simbólico. Lapidado ao longo de gerações, ele orienta o ser humano na travessia das fases fundamentais da vida.
Segundo Campbell, o drama do homem moderno reside na perda desse repertório mítico, restando-lhe apenas os sonhos individuais. Antigamente, em momentos de crise, o mito dizia que era o chamado à aventura, indicando o caminho a seguir. Hoje, desprovido dos mitos, o indivíduo experimenta essas mesmas energias apenas em sonhos ou neuroses, sem reconhecer que vive um processo heroico de dimensão universal.
Resumindo: tanto o sonho como o mito bebem da mesma fonte: o inconsciente. No entanto, o sonho é o mito personalizado — uma manifestação das energias psíquicas distorcidas pelas questões privadas do indivíduo. O mito, por sua vez, é um sonho cujas imagens arquetípicas são elevadas a um patamar universal, servindo de guia para a coletividade. Segundo Campbell, o papel do mitólogo consiste em interpretar esses “sonhos da humanidade”, permitindo-nos compreender nossos dramas íntimos como parte de uma jornada maior, compartilhada por toda a espécie humana.
Partida
O chamado à aventura
Campbell recorre à simplicidade dos contos de fadas para ilustrar o “chamado à aventura”. Para isso, utiliza a narrativa de O Príncipe Sapo, dos Irmãos Grimm.
Na história, uma princesa deixa cair sua bola de ouro num lago profundo, onde ela afunda. Um sapo oferece ajuda e, em troca, pede que ela lhe prometa companhia caso consiga recuperar o objeto. O sapo mergulha e recupera a bola, mas exige o cumprimento da promessa: deseja tornar-se seu companheiro. A princesa, tomada pelo nojo, tenta esquivar-se do acordo.
Para Campbell, esse episódio simboliza o chamado à aventura. O chamado envolve risco, perigo e a travessia de zonas obscuras — como o lago escuro onde a bola desaparece. A bola de ouro representa o estado de perfeição e integridade juvenil, abruptamente interrompido pela queda nas águas profundas, símbolo clássico do inconsciente.
Quando o sapo surge — figura que a princesa considera repulsiva —, ele assume a papel do “arauto”. Segundo Campbell, o arauto costuma apresentar-se como uma figura sombria, desagradável, pois um conteúdo psíquico que a consciência ainda não está pronta para aceitar. Após o encontro com o sapo, a princesa tenta fugir: recupera a bola de ouro e corre, acreditando poder ignorar a promessa feita ao asqueroso réptil.
Campbell utiliza esse comportamento para discutir nossa resistência à mudança. No desenrolar do conto, quando a princesa finalmente aceita a presença do sapo — em algumas versões, beijando-o —, ele se transforma em príncipe. A transformação ocorre apenas após a aceitação do elemento rejeitado.
Através desse exemplo, Campbell demonstra que o chamado à transformação raramente assume a forma de um convite glorioso. Ele costuma surgir como erro, perda ou encontro indesejado — algo que nos obriga a cruzar o limiar de nossa existência protegida.
Recusa ao Chamado
Muitas vezes, o herói recusa o chamado ou hesita em assumir a tarefa que lhe é destinada. Essa recusa conduz à estagnação: ao evitar a transformação, o indivíduo interrompe seu processo de crescimento. A energia que o convoca — simbolizada por uma figura divina ou por uma força interior — passa então a atormentá-lo, aprisionando-o num labirinto simbólico.
A história de Dafne ilustra esse movimento. Quando Apolo é atingido pela flecha de Cupido, apaixona-se perdidamente por uma jovem ninfa chamada Dafne. Quando o Cupido flecha um coração, nenhum conselho é capaz de impedir a união.
Contudo, Dafne fora atingida por uma flecha de chumbo, que lhe provoca repulsa absoluta por Apolo. Apolo a persegue; ela foge desesperadamente para manter sua liberdade. Exausta e sem saída, implora ajuda ao pai, o deus-rio Peneu, e é transformada em um loureiro (árvore de louro). Apolo, inconformado, abraça a árvore e declara que o loureiro será sua planta sagrada, coroando com suas folhas vencedores e poetas, eternizando a ninfa que jamais pôde possuir.
Para Campbell, Dafne permanece congelada no tempo. Ao recusar a transformação exigida pela vida — o encontro com o outro, o amadurecimento —, regride simbolicamente a um estado vegetal.
Campbell aproxima essa leitura das formulações de Carl Jung, que identificava na psicanálise padrões semelhantes de fixação. Ele menciona contos como A Bela Adormecida e a narrativa de Har Al Zaman, de As Mil e Uma Noites, para mostrar o que ocorre quando o herói se recusa a atender ao chamado.
“O dr.Jung relatou um sonho que se assemelha muito estreitamente à imagem de Dafne. O sonhador é o mesmo jovem que esteve na terra dos carneiros, isto é, na terra da dependência. Uma voz dentro dele diz: “ Primeiro devo afastar-me do pai”; e, algumas noites depois: uma cobra traça um círculo em torno do sonhador e ele permanece como uma árvore, preso à terra”. Trata-se de uma imagem do círculo mágico traçado pelo poder do dragão em torno da personalidade do pai objeto da fixação Brunhilda, da mesma forma, teve uma virgindade protegida aprisionada em sua condição de filha durante anos, pelo círculo de fogo do superpai, Wotan. Ela dormiu, alijada do tempo, até a chegada de Siegfried” (pág. 69)
Campbell apresenta o mito de Psiquê como exemplo de aceitação de desafios. Psiquê, princesa de extraordinária beleza, desperta o ciúme de Vênus (Afrodite), deusa do amor e da beleza. Vênus ordena a Cupido (Eros), seu filho, que a faça apaixonar-se pela criatura mais horrível da Terra. No entanto, ao contemplá-la dormindo, o próprio Cupido apaixona-se por ela, ferindo-se acidentalmente com sua própria flecha. Ele a leva para um palácio secreto, visitando-a apenas na escuridão para esconder sua identidade. Movida pela dúvida, Psiquê ilumina o rosto do amado; ao reconhecê-lo, deixa cair óleo quente sobre ele, que foge ferido.
Desesperada, Psiquê procura Vênus, que lhe impõe quatro tarefas aparentemente impossíveis — entre elas, buscar uma caixa de beleza no submundo. Auxiliada por elementos da natureza, ela cumpre as tarefas, mas cai em sono mortal ao abrir a caixa.
Recuperado da queimadura, Cupido a salva, e Zeus concede-lhe a imortalidade, permitindo a união do casal no Olimpo, simbolizando a união da alma com o amor.
Se Dafne simboliza a paralisação pela recusa, Psiquê representa o movimento oposto: a coragem de atravessar provações.
Auxílio Sobrenatural
Para os heróis que não recusam o chamado, o primeiro contato com o mundo exterior e com os desafios que precisam enfrentar ocorre por meio de um mentor. Trata-se de um mago, anão ou figura similar, que oferece proteção ao herói na etapa inicial da jornada.
Essa figura pode assumir múltiplas formas simbólicas: a Virgem Maria nas narrativas cristãs; a Mulher Aranha nos mitos dos povos Navajo e Hopi; um mago; um deus como Hermes, ou outros. O mentor representa a força do destino e oferece ao herói segurança em suas aventuras. Em alguns casos, é o próprio o mentor quem desencadeia o chamado da aventura.
A Mulher Aranha ilustra o estágio do auxílio sobrenatural. Após aceitar o chamado, o herói encontra essa figura protetora, que lhe fornece as ferramentas ou o conhecimento necessário. A Mulher Aranha personifica o destino e a proteção benevolente do cosmo.
Campbell explica que, quando o herói se coloca em movimento em direção ao seu destino, forças benignas surgem para apoiá-lo. O auxílio sobrenatural expressa a confiança de que, ao dar o primeiro passo rumo à transformação, o indivíduo encontra sustentação invisível — como se uma sabedoria antiga, muitas vezes figurada na imagem de uma avó sábia que habita as profundezas da terra, velasse silenciosamente por sua travessia.
A Travessia do Primeiro Limiar
Campbell descreve a travessia do primeiro limiar como a fronteira decisiva entre o mundo conhecido e o reino do perigo e da aventura. Atrás do herói permanecem a segurança da casa, a rotina e as regras da sociedade. À frente, estendem-se a escuridão, o deserto e o oceano – símbolos do inconsciente e do desconhecido. Para Campbell, essa passagem representa a renúncia ao conforto e um ato de coragem: o ego se dispõe a enfrentar forças que não controla. Caso se recuse a atravessar o limiar, o herói torna-se vítima da própria estagnação.
Um dos exemplos citados por Campbell é o mito de Jonas. O profeta recebe a missão divina de pregar em Nínive, mas tenta fugir, embarcando para Társis, na direção oposta. Como consequência de sua desobediência, uma tempestade atinge o navio; lançado ao mar pelos marinheiros, Jonas é engolido por uma baleia. Permanece três dias em seu ventre, onde ora e se arrepende. Depois, é devolvido à terra firme e cumpre sua missão, levando Nínive ao arrependimento.
Ao sair do ventre do peixe, Jonas emerge transformado. A experiência simboliza a entrada do herói num domínio de forças estranhas e fluidas, onde os antigos métodos já não funcionam. É necessário abandonar a vaidade.
Campbell denomina essa etapa de “ventre da baleia”, que sucede a travessia do limiar. Trata-se de uma morte simbólica: o velho eu é dissolvido para que um novo eu possa nascer. O herói não atravessa o desconhecido sem antes ser, de algum modo, engolido por ele.
O Caminho das Provações
O caminho das provações é uma das etapas mais longas e dinâmicas da jornada descrita por Campbell. Ela se inicia após a travessia do primeiro limiar e a experiência de ter sido engolido pelo desconhecido (“ventre da baleia”). Se o limiar marca a entrada no desconhecido, o caminho de provações constitui o processo de transformação propriamente dito.
O herói agora enfrenta um mundo de forças estranhas e fluidas. Surgem obstáculos, monstros, armadilhas e dilemas morais. Campbell ressalta que esses testes não são apenas físicos, mas também psicológicos. O objetivo é quebrar a resistência do ego do herói. Cada prova vencida representa a morte de um aspecto da sua antiga personalidade. O herói é gradualmente despojado de suas ideias preconcebidas sobre o mundo e sobre si mesmo — trata-se de um processo de purificação.
Peguemos como exemplo o mito de Odisseu. Após passar anos no caminho das provações, ele enfrenta os Lotófagos, que testam sua determinação de voltar para a casa; o ciclope Polifemo, que põe à prova sua inteligência e astúcia; e as sereias, que desafiam sua resistência à sedução e ao orgulho. Cada desafio ensina-lhe uma lição diferente, transformando o guerreiro orgulhoso num homem mais sábio e humilde.
Na literatura contemporânea, a estrutura se repete. Em Harry Porter e a Pedra Filosofal, de J. K. Rowling, a sequência de obstáculos para alcançar a Pedra Filosofal — o visgo do diabo, as chaves voadoras, o xadrez gigante — constitui um caminho de provações clássico, no qual cada desafio exige uma habilidade específica.
Campbell diz que o herói frequentemente falha ou sofre provações. O fracasso faz parte do processo formativo. Sem passar por essas provações, o herói não adquire a substância necessária para suportar a revelação final da sua aventura.
O Encontro com a Deusa
Quem é a Deusa? Campbell esclarece que a “Deusa” não é uma divindade específica, mas um símbolo da totalidade do conhecimento. Ela representa o mundo inteiro, tanto em seu lado belo quanto em seu lado terrível. Trata-se do momento mais profundo da psique humana.
O encontro com a Deusa costuma ocorrer num ponto extremo da jornada, quando não há mais para onde avançar. Para ilustrar essa etapa, Campbell recorre ao conto folclórico inglês da Rainha de Tubber Tintye. Na narrativa, o filho mais novo de um rei irlandês recebe a missão de buscar a “Água da Vida” (ou a água do poço de fogo) para curar a cegueira do pai.
Antes de chegar ao castelo da rainha, o príncipe encontra três irmãs sucessivamente, cada qual mais velha que a anterior. Vivendo em casas isoladas, elas desempenham o papel de auxiliares sobrenaturais — à semelhança da Mulher Aranha — oferecendo alimento, abrigo e instruções mágicas para que ele possa atravessar os perigos adiante. A terceira lhe concede um cavalo mágico capaz de saltar o rio de fogo que protege o castelo.
O príncipe transpõe o rio e os portões guardados por feras terríveis, conseguindo entrar enquanto todos dormem — estado de suspensão temporal característico do “outro mundo” mítico. No interior do castelo, atravessa seis câmaras, cada qual habitada por uma mulher mais bela que a anterior. Ele, porém, não se detém. Busca a sétima câmara — o centro. Ali encontra a Rainha de Tubber Tintye adormecida em um leito de ouro. O príncipe e a rainha se unem. E o ato físico simboliza a integração espiritual com a fonte da vida. Somente após esse encontro ele obtém a água do poço de fogo: o elixir só é acessível depois da união com a Deusa.
Mas qual a razão desse exemplo? Para Campbell, as seis mulheres representam a alma subindo degraus de consciência até chegar à verdade suprema. O castelo adormecido indica que o herói entrou em uma dimensão fora do tempo comum. Ele não conquista apenas a cura para o pai, mas também uma transformação identitária: de príncipe errante passa a consorte da Rainha do Mundo.
Campbell usa essa história para mostrar que, se o herói se mantém fiel aos conselhos sobrenaturais, o encontro com a Deusa é uma bênção. Se ele estivesse movido apenas pela luxúria ou medo, teria sido destruído pelo.
No entanto, Campbell adverte para um perigo: a Deusa pode revelar-se terrível caso o herói não tenha purificado o coração. Para ilustrar essa dimensão, ele evoca a trajetória de Siddhartha Gautama.
Príncipe protegido do sofrimento pelo pai, Siddhartha recebe o “chamado” ao confrontar-se com quatro visões: um velho, um doente, um cadáver e um asceta. Esses encontros rompem a ilusão do mundo protegido.
Ele abandona a esposa, o filho e o trono. Troca suas roupas por trapos e retira-se para a floresta, reino do desconhecido e da busca espiritual. Por seis anos, jejua até quase morrer, buscando a verdade através do castigo do corpo. Campbell chama isso de provações, nas quais o herói tenta dominar o ego. Mas logo ele percebe que o caminho não reside na autotortura nem no luxo, mas no “caminho do meio”.
O momento culminante ocorre sob a árvore Bodhi, o eixo do mundo. Ali, ele enfrenta o seu maior adversário: Mara, o senhor da ilusão, que desempenha o papel de “pai terrível” ou guardião final.
Mara o desafia por meio do desejo (enviando suas filhas para seduzi-lo), do medo (com exércitos demoníacos e tempestades) e do dever social (argumentando que deveria retornar ao papel de príncipe). Siddhartha permanece imóvel e toca a terra, invocando-a como testemunha de seu direito de estar ali. Nesse instante, o ego se dissolve e ele se torna o Buda.
Esse é o momento da apoteose: a transcendência dos opostos — vida e morte, prazer e dor — e a percepção da unidade entre o eu e o universo. Após a iluminação, o Buda hesita em ensinar, julgando que poucos compreenderiam a verdade alcançada. Porém, motivado pela compaixão, ele retorna ao mundo dos homens para compartilhar a “doutrina”, trazendo o “elixir” da sabedoria à humanidade.
Resumindo: se Siddhartha tivesse cedido às tentações ou ao medo, jamais teria alcançado a sabedoria.
A Mulher como Tentação
A história de São Pedro e sua filha Petronilha é um dos exemplos que Campbell utiliza no capítulo “A Mulher como Tentação”.
“Quando São Pedro observou que sua filha, Petronilha, erra uma muito bonita, obteve de Deus o favor por ser ela tomada por uma febre. Ora, estando um dia com ele seus discípulos, eis que Tito lhe disse: “ Tu podes curar todas as moléstias; por que não ages de modo a levar Petronilha a erguer-se na cama? E Pedro replicou: Porque estou satisfeito com a condição em que se encontra”. Isso de forma alguma significava não ter ele o poder de curá-la; tanto que imediatamente, disse-lhe ele: “ levanta-te, Petronilha, e te apressa a nos servir. A garota, curada, levantou-se e serviu. Mas tendo ela terminado disse-lhe o pai: “ Petronilha, retorna a tuia cama! Ela retornou e imediatamente foi tomada outra vez pela febre. Mais tarde, quando começou a exibir perfeição em seu amor a Deus, o pai lhe restaurou a perfeita saúde.
“Naquele momento, um nobre cavalheiro chamado Flaccus extasiado pela sua beleza, veio pedir-lhe a mão em casamento. Ela replicou: Se desejas desposar-me, envia um grupo de jovens para me conduzir até a tua casa! Mas quando o grupo chegou. Petronillha imediatamente se pôs a jejuar e a orar. Tendo recebido a comunhão, voltou a ficar na cama e, depois de tres dias entregou a alma a Deus” (pág. 123; pág. 124)
Campbell recorre a essa narrativa para ilustrar a ideia de repulsa pela carne, presente em certas tradições religiosas, nas quais a beleza física e a saúde podiam ser vistas como perigos espirituais. Segundo a lenda, Petronilha preferiu a morte, preservando sua virgindade e santidade.
A sintonia com o pai
Campbell aborda a etapa que denomina “sintonia com o Pai” — momento em que o herói precisa confrontar a autoridade suprema, símbolo do poder criador e destruidor do universo.
Para introduzir essa dimensão, Campbell menciona o célebre sermão “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado”, de Jonathan Edwards, marco do Primeiro Grande Despertar nos Estados Unidos. Com retórica apocalíptica e forte carga emocional, o sermão causou forte impacto emocional nos ouvintes:
“A ira trovejava Jonathan Edward, “A Ira de Deus se assemelha às grandes águas ora represadas; elas aumentam, mais e mais, e se elevam, cada vez mais alto, até alcançar a Saída; e quanto mais contida é a Corrente, tanto mais rápido e poderoso é seu Curso, uma vez liberado....” (pág. 126)
Edwards descreve os pecadores como alguém que caminha sobre terreno escorregadio, prestes a cair a qualquer instante no abismo do inferno.
“Ó Pecador!... Estais preso em um tênue Fio, com as Chamas da Divina Ira, flamejantes, ao seu redor, a qualquer Momento prontas a romper esse tênue fio e a queimar-vos num último átimo; e não podeis Recorrer a nenhum Mediador, e nada pode agir de modo a nos salvar-nos, nada pode conter as Chamas Divinas Ira, nada que que vos pertença, nada que jamais tenhais feito, nada de que possais fazer, para induzir Deus e vos poupar por um só Momento...” (pág. 127)
O sermão enfatiza a justiça divina e a ira contra o pecado. Edwards argumenta que, embora Deus seja misericordioso, a ira divina é infinita e terrível, e nada impede que o pecador vá para o inferno senão a vontade de Deus. O objetivo era despertar o temor e provocar arrependimento imediato.
Campbell compara diferentes mitos de busca pelo Pai. Na tradição Navajo, os Gêmeos Navajo procuram o Sol para confirmar sua linhagem e obter armas capazes de livrar o mundo dos monstros. Já Faetonte, na mitologia grega, busca Hélio (ou Apolo, em algumas versões) para provar que é seu filho.
Ambas as narrativas compartilham elementos essenciais: a ausência inicial do pai, a travessia do mundo humano ao celestial e a necessidade de provar dignidade. O Pai não acolhe automaticamente; submete os filhos a testes. Os gêmeos Navajo enfrentam perigos mortais no palácio solar e sobrevivem, recebendo as armas sagradas. Faetonte, por outro lado, falha por orgulho (hybris): ao exigir conduzir o carro do Sol, precipita sua própria destruição. Em ambos os casos, o Pai simboliza a autoridade suprema — o criador e simultaneamente o destruidor.
A história de Jó apresenta uma variante ainda mais radical. Diferentemente dos heróis que buscam o Pai para obter herança ou legitimação, Jó é confrontado pelo Pai (Deus) através do sofrimento extremo. Perde bens, filhos e saúde.
Quando Deus responde a Jó, não oferece explicações morais ou justiça humana, mas sim revela-se como força cósmica avassaladora, que cria e destrói sem dar satisfações. Jó acredita que, por ser bom, não deveria sofrer. Ao se defrontar com a voz de Deus, se conforma com a sua pequenez. Morre para sua concepção anterior de justiça e aceita a vontade divina, por mais terrível que pareça.
Posteriormente, ele recupera saúde, família e prosperidade — mas não é mais o mesmo homem. Tornou-se um iniciado: viu o rosto do Pai sem véus.
Quando seus amigos chegam para consolá-lo, declaram, com a fé pela justiça de Deus, que Jó deveria ter feito algum mal para merecer tão dolorosa aflição. Mas o honesto e corajoso sofredor, desejoso de conhecer o que se oculta no horizonte, insiste que agiu bem. Diante disso, o consolador, Eliá, o acusa de blasfemar, dizendo que ele se considera mais justo que Deus.
“Quando o próprio Senhor responde a Jó a partir do vendaval, não faz nenhuma tentativa de defender sua obra em termos éticos; Ele apenas engradece Sua presença, ordenando Jó que faça o mesmo na terra, numa emulação do caminho dos céus.
Cinge agora os teus rins como varão; eu te perguntarei a ti, e tu me responderás. Porventura me condenarás, para te justificares? Tens um braço como Deus? ou podes trovejar com voz como a sua? Orna-te, pois, de excelência e alteza; veste-te de majestade e glória. Derrama os furores de tua ira: e atenta para todo soberbo, e abate-o. Olha para todo o soberbo, e humilha-o; e atropela os ímpios no seu lugar. Esconde-os juntamente no pó, ata-lhes os rostos em oculto. Então também eu de ti confessarei que a tua própria mão pode salvar-te. “
... Não obstante, para o próprio Jó, a revelação parece ter dado um sentido que lhe satisfaz a alma. Ele foi um herói que graças a sua fornalha implacável, sua indisponibilidade para submeter-se e aceitar uma concepção popular do caráter do Altíssimo, mostrou-se capaz de enfrentar uma revelação maior do que aquela que satisfazia os seus amigos...
...São antes , palavras de um homem simplesmente intimidado. São antes palavras de alguém que viu algo que ultrapassa tudo que havia sido dito à guisa de explicação: Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi falar de ti: mas agora meus olhos te veem. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza”. Os pios consoladores são humilhados, Jó é recompensado com uma nova casa, novos servos e novos filhos e filhas.” (pág. 143)
Para o herói imaturo, o Pai pode parecer um monstro. No caso de Jó, a tragédia e a doença assumem essa feição monstruosa do divino: Deus se manifesta como força incompreensível e avassaladora.
Se Fatonte exemplifica o herói que falha por orgulho (hybris) e os Gêmeos Navajo representam aqueles que triunfam com auxílio sobrenatural, Jó encarna o herói purificado pelo fogo do sofrimento. Ele simboliza a transição de uma religiosidade infantil (baseada em recompensa e castigo) para uma espiritualidade heroica (baseada na aceitação total do ser).
O objetivo do herói é servir de ponte entre o mortal e o divino. Por transitar entre ambos os domínios, ele é capaz de uni-los. Nesse sentido, Jesus surge, ao longo do livro, como o exemplo paradigmático: ele representa a união do humano e do divino numa única existência.
Para Campbell, não importa se os fatos de uma história mítica ocorreram historicamente. O importante reside nas verdades contidas nessas histórias: na capacidade de nos ensinar a lidar com conflitos e desafios em pessoais. Campbell cita o cântico hindu “Canção do Senhor” como exemplo.
Os símbolos presentes na Jornada do Herói não constituem a mensagem em si, mas os meios pelos quais ela se comunica. Eles se transformam, adaptam-se a novas culturas e épocas, em vez de permanecerem fixos. Aqueles que se libertam de seus medos, apegos e limitações tornam-se receptáculos da realização espiritual.
O propósito da Jornada do Herói, enquanto narrativa, é reconciliar nossas necessidades individuais com a “vontade universal” – em outras palavras, ajudar-nos a viver de modo mais harmonioso com o fluxo constante da existência, que é eterno e, ao mesmo tempo, sempre mutável.
Campbell observa que os psicólogos reconhecem, nos mitos e contos de fadas, padrões que correspondem aos nossos sonhos e, por extensão, aos nossos pensamentos e emoções. Os mitos dão forma simbólica a medos, desejos e tensões inconscientes, oferecendo imagens às quais podemos nos vincular.
A diferença fundamental entre mito e sonho — já mencionada anteriormente — é que o mito pode ganhar forma através de nossos pensamentos conscientes, enquanto o sonho é vago e nem sempre segue padrões lógicos. Ambos, contudo, obedecem a princípios espirituais — seja o mana, o karma ou o poder divino — e têm a função de despertar a mente humana para uma dimensão mais profunda da experiência.
“O intelectual moderno não encontra dificuldades em admitir que o simbolismo da mitologia se reveste de um significado psicológico. Está fora de dúvidas, especialmente depois do trabalho de psicanalistas, que tanto os mitos compartilham a natureza dos sonhos, quanto os sonhos são sintomáticos da dinâmica da psiquê. Sigmund Freud, Carl G. Jung, Wilhelm Stekel, Otto Rank, Karl Abraham Géza Róheim e muitos outros desenvolveram, nas últimas décadas, um moderno corpo, vastamente documentado, de interpretações de sonhos e mitos; e, embora tenham desenvolvido trabalhos que apresentam amplas divergências entre si esses doutores se unem num grande movimento moderno por meio de um considerável conjunto de princípios comuns.“ (pág. 251)
O ciclo do universo e dos mitos guarda semelhança com o da noite e do dia. A existência pode ser compreendida como um ciclo infinito de despertar, viver e dormir (morrer), enquanto a luz se apaga e renasce a cada amanhecer, reiniciando o processo.
Na bandeira da Índia, a roda simboliza o tempo como ciclo. Para Campbell, trata-se de uma imagem do que ele chama de ciclo cosmogônico. A roda não é a realidade em si, mas um símbolo que aponta para esse eterno movimento de criação, dissolução e renovação.
Nesse ciclo, a consciência transita por três estados de ser. O primeiro é o da vigília, quando nos deparamos com as experiências e lições da vida. O segundo é o sonho, no qual assimilamos e reorganizamos essas vivências. O terceiro é o sono profundo, estado de repouso absoluto, no qual a individualidade parece dissolver-se. Esses três momentos fazem parte de nossa rotina diária.
O famoso cântico “AUM” (frequentemente grafado como OM) é considerado o mantra mais sagrado e importante do hinduísmo, representando o som do universo.
A (Akaar) representa Brahma, o Criador, e simboliza o estado de vigília (consciência desperta).
U (Ukaar) representa Vishnu, o Preservador, associado ao estado de sonho.
M (Makaar) representa Shiva, o Destruidor, ligado ao estado de sono profundo.
O som completo “AUM” representa esses três estados: vigília, sonho e sono profundo. O silêncio que envolve o cântico representa o desconhecido — Deus, o cosmo, ou algum substituto adequado. O mito, nesse sentido, é uma tentativa de dar forma concreta a tudo, especialmente ao silêncio.
À medida que a vida se expande, surge uma crise: o mundo divide-se entre céu e submundo, ordem e caos. A primeira fase do ciclo centra-se no Criador, Deus; a segunda fase centra-se nos seres humanos, ou na vida dentro da Criação, marcada pela passagem do perfeito ao imperfeito. Campbell observa que todo grande ato de criação envolve dor, destruição e divisão. Os mitos reconhecem essa agonia, mas também recordam a harmonia que a transcende. A crucificação de Jesus exemplifica essa ideia: sofrimento e beleza coexistem no mesmo gesto redentor.
As histórias populares, mais simples, são diretas: não buscam explicar profundamente o ciclo cosmogônico, apenas o observam. Muitos mitos de criação descrevem um criador obscuro que dá forma ao mundo lentamente, estabelece a humanidade e define o destino da morte. Campbell observa que muitos desses mitos possuem um caráter lúdico, sugerindo que não eram necessariamente entendidos como verdades literais.
Joseph Campbell conclui que não existe uma interpretação única e definitiva da mitologia. A sociedade moderna interpreta os mitos de inúmeras maneiras, aplicando-a à religião, à metafísica, à psicologia, aos estudos naturais e a outras áreas.
Os indivíduos são limitados por quem são, eles representam uma minúscula parte da sociedade. Os rituais de nascimento, casamento e morte. conectam-nos a algo maior, inserindo-nos numa comunidade e numa continuidade histórica.
Mitos e ritos ligados à morte ou à mudança das estações reconhecem a transição entre fases da existência e, nas culturas antigas, eram celebrados como parte do fluxo natural da vida. Outra via possível é o afastamento contemplativo — como o do monge — para buscar o ser humano universal que habita cada um de nós. O objetivo não é simplesmente ver, mas compreender. Isso elimina qualquer noção de individualidade, pois tudo se torna um só.
O herói contemporâneo encontra-se distante das antigas culturas míticas. Em sociedades democráticas e seculares, que valorizam o indivíduo e o poder pessoal, já não há o mesmo espaço simbólico para deuses e lendas. Se antes o sentido era encontrado no grupo, hoje ele é buscado na individualidade. Por isso, nossas histórias heroicas precisam refletir a sensibilidade moderna.
Obras como Harry Potter, Star Wars e O Senhor dos Anéis, entre outras criações contemporâneas, fazem parte de uma tradição milenar. Ao compreender por que as culturas antigas contavam histórias como as nossas — e por que certas tradições e costumes ainda perduram —, começamos a responder às grandes questões sobre a vida.
No fim das contas, O Herói de Mil Faces trata de espiritualidade — mas não de uma religião específica. Campbell sustenta que as histórias que contamos são formas de simbolizar e conectar nossa alma à unidade cósmica. Não importa se chamamos isso de Deus, Krishna ou zumbido cósmico: a essência é a mesma. Contudo, como somos seres imperfeitos, com um senso inflado de autoimportância, sabotamos nossa própria jornada espiritual.
A jornada do herói funciona como ponto de partida para reflexões mais profundas. Sabedoria é compreender os grandes mistérios e ter humildade diante de nossa pequena individualidade. Conhecimento é compreender os aspectos práticos do mundo. O herói busca ambos: inicialmente como recompensa, mas, em última análise, como meio de encontrar a felicidade cósmica prometida ao final da jornada.
O herói precisa fazer escolhas que determinam o seu destino. O destino não pode ser negado, mas ele pode tomar o caminho errado. Somente escolhendo sabiamente o herói pode alinhar suas energias com o destino e o universo.
E é, essencialmente, disso que trata O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell. Um livro que merece um lugar de HONRA na sua estante.
