Odisseia
Começo o ano de 2026 com a primeira resenha do ano. Odisseia, de Homero. foi uma leitura que durou um mês, não foi fácil, foi uma odisseia, mas valeu muito a pena. Esta resenha levou uma semana e meia para ser escrita. Escrevê-la foi também uma odisseia, mas ao mesmo tempo foi ótimo.
Sem dúvida alguma foi a maior resenha que já fiz em todos os meus anos de site. Mais de trinta páginas. Tentei fazer um estudo para mim, e espero que tenha alguma serventia para todos que seguem o site. Trajano Vieira, o tradutor, fez uma observação muito pertinente ao afirmar que a Odisseia é “o clássico grego mais moderno que chegou até nós”. Podemos, de fato, identificar traços de escrita que dialogam com a literatura do século XX.
A Odisseia é a obra mais antiga ambientada na Europa. É a sequência da Ilíada (já lida, mas não publicada aqui no site), embora sem a presença marcante de Odisseu, que ali era um personagem secundário. A Ilíada e a Odisseia estabelecem a ligação entre o mundo perdido da Idade do Bronze, por um lado, e, por outro, a civilização grega clássica, sobre a qual a se baseia a cultura ocidental. Todo grego e romano culto conhecia essas duas obras-primas, o que lhes conferiu um enorme impacto em nossa cultura.
A Odisseia, atribuída a Homero, é uma das pedras angulares da literatura ocidental. Trata-se de uma obra complexa, que transita entre o mito, a aventura e a investigação da psicologia humana. Surge então a primeira questão central: quem é o narrador dessa história? A resposta é que a Odisseia possui um narrador principal onisciente (o próprio Homero), mas conta também com um longo e famoso relato em primeira pessoa feito pelo próprio Odisseu. Um dos momentos mais inovadores da história da literatura ocorre nos cantos 9,10,11 e 12 — o que podemos chamar de um grande flashback. É quando Odisseu, já na corte dos feácios, assume ele próprio a narração.
Ele passa então a contar suas aventuras desde a saída de Troia: o episódio do Cíclope, o encontro com Circe, o canto das Sereias, entre outros. Nesse ponto, deixamos de ter uma visão “objetiva” dos acontecimentos e passamos a enxergar o mundo através dos olhos, dos medos e das justificativas do herói.
Para uma análise mais completa, é importante compreender que a narrativa não é contada de forma linear. Ela é dividida em três grandes blocos:
A Telemaquia (do canto 1 ao canto 4): concentra-se em Telêmaco, filho de Odisseu, em seu processo de amadurecimento e na busca por notícias do pai.
O Regresso (do canto 5 ao canto 12): Odisseu deixa a ilha de Calipso, chega à terra dos feácios e narra suas viagens passadas.
A Vingança em Ítaca (do canto 13 ao canto 24): Odisseu retorna disfarçado, põe à prova a fidelidade de sua família e derrota os pretendentes.
A Odisseia não se configura apenas como uma sequência de aventuras marítimas e encontros com o fantástico; ela representa, primordialmente, a certidão de nascimento do indivíduo na literatura ocidental. Enquanto a Ilíada celebra um herói que, ao contrário de seus pares em Troia, não busca uma morte gloriosa, mas a sobrevivência necessária para o regresso. Odisseu, ao ser despido de seus títulos, de seus homens e até de sua própria face, precisa tornar-se “ninguém” para, paradoxalmente, recuperar seu lugar como rei, marido e pai e, assim, voltar para Ítaca.
Gosto da interpretação de Ítaca como um estado de espírito, e não apenas como uma ilha rochosa no Mar Jônico, tornando-se, assim, um símbolo da plenitude humana e do autoconhecimento.
Outro ponto que precisa ser abordado é a profundidade das personagens femininas, que muitas vezes movem a trama mais do que os próprios guerreiros. Penélope é o espelho de Odisseu: se ele é astuto no mundo, ela é astuta no lar. Ela engana os pretendentes durante anos ao prometer escolher um marido quando terminasse de tecer o sudário de Laertes, desfazendo à noite o que havia tecido de dia.
Ela consegue, inclusive, “vencer” Odisseu em seu próprio jogo, ao testá-lo com o segredo da cama de casal (feita a partir de uma oliveira enraizada), provando que é intelectualmente igual a ele.
Sem Atena, Odisseu nunca teria voltado. Ela representa a sabedoria divina que guia a inteligência humana. Atena admira Odisseu justamente porque ele se parece com ela: ele é cauteloso e mestre em planos.
Circe, a deusa feiticeira, representa o perigo de perder a própria humanidade ao transformar homens em porcos. Após ser dominada por Odisseu, ela se torna uma aliada essencial, fornecendo-lhe o mapa para a descida ao submundo. Calipso, por sua vez, representa a tentação da imortalidade e do esquecimento: ela oferece a Odisseu a chance de nunca morrer, mas ele escolhe a sua humanidade e a sua esposa mortal.
Nausícaa, a princesa dos feácios, representa a hospitalidade ideal e funciona com um ponto de transição. Através dela, Odisseu deixa de ser um náufrago despido de tudo e começa a recuperar a sua dignidade de rei.
Vamos à história?
A narrativa se inicia com uma reflexão sobre como os mortais costumam culpar os deuses por seus sofrimentos quando, na verdade, são seus próprios atos de loucura que trazem a desgraça, citando-se o exemplo de Egisto:
“Ah! os mortais inculpam deuses pelos males que contra si impingem, sem se aperceberem de a dor ser fruto da transposição do fado feito Egisto, transpositor do próprio fado seu enfado, larápio da mulher de Atrida: assassinou o herói em seu retorno, nada valendo a alerta que os eternos lhe enviaram por intermédio de Hermes, núncio de olho agudo; “Suspende o plano ou morrerás nas mãos de Orestes, quando crescido, venha reaver seu reino! Hermes falou, mas seu conselho bom não toca Egisto, vitimado pelo próprio equívoco” (pág. 13, canto1)
Atena, a deusa da sabedoria, aproveita esse momento para interceder por seu protegido. Ela descreve Odisseu como um homem piedoso e astuto que está definhando de tristeza na ilha de Calipso, “desejando apenas ver a saudosa fumaça que o terreno pátrio exala”.
Zeus decide que o destino de Odisseu é o retorno. Ele envia Hermes para ordenar a libertação do herói, enquanto Atena decide descer a Ítaca.
A Telemaquia é o termo que se refere à primeira parte da Odisseia, de Homero, centrada na figura de Telêmaco, filho de Odisseu (Ulisses). Essa seção da narrativa aborda a busca de Telêmaco por informações sobre seu pai, ausente há muitos anos desde a guerra de Troia.
De todos os gregos que participaram do cerco de Troia, Odisseu é o único que ainda não retornou para casa nem morreu em suas viagens. Telêmaco era apenas um bebê quando Odisseu partiu para Troia. Com o desaparecimento do pai, ele decide partir em busca de seu paradeiro, procurando conselhos e apoio de outros heróis, como Nestor e Menelau.
Telêmaco encontra-se deprimido, pois, além da ausência do pai, Ítaca está em uma situação caótica. Dezenas de pretendentes odiosos ocupam seus aposentos e abusando de sua hospitalidade, consumindo o patrimônio de Odisseu em banquetes suntuosos e assediando sua, Penélope, para que se case com um deles.
Telêmaco convoca uma assembleia dos homens mais importantes de Ítaca, na qual acusa os pretendentes de sua mãe de consumirem os recursos da família e de a importunarem. Um dos pretendentes, então, conta a história de como Penélope os enganou, que só escolheria um marido depois de terminar de tecer o sudário para Laertes, pai de Odisseu:
“Jovens que desejais a mim, morto Odisseu, reclamo um pouco de paciência até findar o pano – os fios se perderam vento adentro! –, sudário fino de Laertes, pois a moira fatal de tânatos irá levá-lo um dia. Não gostaria que alguma argiva proferisse críticas pelo fato de um herói tão bem aquinhoado repousar sem sudário. Assim falou, nos convencendo o coração. O que tecia em pleno dia, a luz da tocha , Penélope, durante a noite, desfazia. Com esse ardil, por três anos enganou os aqueus, mas, no seguinte, assim que torna a primavera, uma criada, ciente do que acontecia, contou-nos tudo, e a surpreendemos desfazendo a trama...” (pág. 29 canto 2)
Atena, filha favorita de Zeus e protetora de Odisseu, surge sob a forma de Mentor, um velho e sábio amigo de Odisseu, e aconselha Telêmaco a partir em busca de notícias do pai. Ela lhe promete um navio e uma tripulação. Ao perceber que se trata de uma deusa disfarçada em forma humana, Telêmaco muda de atitude e passa a agir com mais firmeza e confiança.
“Da sala multifrequentada, Atena de olhos glaucos chamou Telêmaco, se assemelhando a Mentor, pelo tom de voz e pelo corpo: “Telêmaco, teus companheiros belas-cnêmidis aguardam o teu sinal, sentados juntos aos remos. Não retardemos demais a expedição!” Falou e o conduziu rapidamente a Palas Atena. O jovem lhe acompanha os passos. Veem à praia os marinheiros de cabelos bastos. Sacros poder, Telêmaco toma palavra: “Os víveres tão só falta trazer o átrio, amigos! Minha mãe ignora tudo, assim como as ancilas, salvo uma, a mim solicita” (pág 19, canto 2)
Telêmaco parte em uma jornada para descobrir o paradeiro de seu pai. Essa jornada não é apenas física, mas sobretudo um processo de amadurecimento. Ele enfrenta desafios que o ajudam a se desenvolver de um jovem inseguro para um homem mais confiante e decidido. Ítaca serve como pano de fundo simbólico para esse percurso formativo.
Telêmaco e Atena chegam a Pilos e encontram o rei Nestor, já idoso, realizando um rito religioso na praia em honra de Poseidon, avô de Nestor. O velho rei os recebe calorosamente, e Telêmaco lhe diz:
“Nestor, ginete habilíssimo, toma a palavra: ‘Inquirir estrangeiros sobre quem são eles, quando o festim não o satisfaz, não nos denigre. Sois quem? De onde partiu a trajetória úmida? O que vos traz? Negócio ou prazer das vagas pratas que erram pelo mar, a própria vida em risco na aflição levada aos estrangeiros?’”
Telêmaco se anima em responder. Sua ânima Atena o encorajara, tendo em mente um inquérito a respeito de seu pai que desaparecera, e tendo em vista o ínclito renome, o Kléos: “Nestor Neleide, magna glória dos aqueus indagas nossa origem e eu repondo prestos; proviemos de Ítaca, ao sopé do monte Neio, não por assunto da cidade, mas de foro íntimo: informações sobre meu pai, divino Odisseu, líder brioso, que a teu flanco – ouvi dizer – aniquilou a cidade de Ílion. Nós temos ciência de como cada um caiu na luta contra os trianos, e de como os levou o lutuoso Tânatos; Zeus oculta o fim só de meu pai. Ninguém sabe dizer onde concluiu a vida, destruído em solo adverso ou soçobrado em ôndulas marinhas de Anfitriite...” (pág. 43-44; canto 3)
Nestor responde que não tem notícias de Odisseu desde que seguiram caminhos diferentes após as disputas que se sucederam à queda de Tróia. Contudo, ele consegue informar o que aconteceu a muitos outros reis gregos, incluindo Menelau e Helena, que haviam retornado recentemente à vizinha Esparta. Nestor sugere, então, que ele Telêmaco visite Menelau, que talvez saiba mais.
“Insisto que procures Menelau agora, tornado há pouco tempo de lonjura dos confins de onde os homens dificilmente esperaria voltar, refugo de borrasca que o sequestra ao pélago vastíssimo, que nem os pássaros num ano cruzariam, hórrido colosso! Reúne os nautas, lança a nave ao mar! Por terra talvez prefiras ir: cedo corcéis e carro; meus filhos poderão te conduzir até Esparta, onde governa Menelau, o louro. Insta-o a abrir o coração quando falar...” (pág. 5, canto 3)
Na manhã seguinte, Nestor supervisionou um sacrifício em honra a Atena, acreditando assim estar ajudando Telêmaco. Em seguida, Telêmaco e Pisistrato, o filho mais novo de Nestor, partem numa carruagem de Nestor rumo ao reino de Menelau. Quando chegam, Menelau está celebrando um banquete de casamento duplo para o seu filho e sua filha. Ele tornara-se rico graças aos tesouros acumulados ao longo de anos de viagens em terras distantes – especialmente o Egito – em seu caminho de volta para casa.
(detalhe: A história de Menelau e Helena, no centro da mitologia grega narra o casamento do rei espartano Menelau com a bela Helena, cuja fuga (ou rapto) com o príncipe troiano Páris desencadeou a lendária Guerra de Troia, resultando no resgate de Helena após a queda da cidade e seu retorno a Esparta, onde juntos reinaram e foram honrados após a morte.)
Menelau e Helena percebem a presença do filho de Odisseu. Ambos os anfitriões relembram, com emoção, os heróis caídos na Guerra de Troia, e Menelau e Helena narram alguns dos planos de Odisseu. Na manhã seguinte, longe dos outros convidados, Menelau pergunta a Telêmaco o que o levou até ali.
“Qual motivo levou-te a navegar, herói, sobre amplidorso talásseo, até a Lacedemônia imorredoura? É assunto público ou privado? Sê sincero!” Telêmaco pesa as palavras: “ Menelau Atrida, prole do Cronida, rei dos povos, vim para ouvir-se se tens notícias de meu pai. Fenece o campo fértil, comem o solar; um bando hostil ocupa o paço itácio, pércoras e bois cornirrecurvos, passicurvos, matam: pretendem minha mãe com húbris desmedida. Toco-te os joelhos em sinal de minha súplica, acaso possas me narrar seu fim duríssimo, visto por ti ou presenciado algum errante. A Mãe o gera para a desfortuna. Nada atenues para me poupar, mas conta detalhes de seu caso tis e quais. Eu rogo se meu heroico pai cumpriu na ação, na ágora, tudo que prometera perfazer em Tróia, onde aqueus sofreram tantas dores: traz para o presente os fatos fala francamente!” (pág. 68; canto 4)
Menelau conta uma história sobre um incidente perto do Egito, quando teve que pedir ajuda a um antigo deus marinho chamado Proteu para salvar sua frota da fome e conseguir voltar para casa em segurança. Proteu lhe revelou quais oferendas fazer deveriam ser feitas aos deuses para obter suas bênçãos – e também mencionou Odisseu:
“Ciente de dois, agora fala para o terceiro, a quem anda retém o vasto oceano, vivo ou morto: quero ouvir a história dele, mesmo se for para sofrer: Toma a palavra e fala sem tergiversação: “O filho de Laerte, herói itácio! Fui com ele me encontrar chorando na morada de Calypso, ninfa, senhora de uma ínsula onde era mantido. Nem pensar conseguir tornar o solo itácio! Não há navios rameiros, nem tampouco amigos que possam conduzi-lo pelo vasto mar... (pág. 76, canto 4)
Pela primeira vez, Telêmaco descobre que Odisseu pode estar vivo. Enquanto isso, em Ítaca, os pretendentes percebem sua ausência e, furiosos, planejam assassiná-lo em seu caminho de volta para casa, enviando um navio para interceptar sua rota. Penélope fica chocada ao saber que o filho embarcou em uma viagem tão perigosa. Atena, então, envia um sonho a Penélope para tranquilizá-la, garantindo que Telêmaco estará seguro; Penélope tenta perguntar ao sonho, mas ele não responde.
Odisseu aparece na primeira vez na narrativa, numa ilha, onde está retido pela ninfa Calipso. Ele encontra-se numa situação de verdadeiro “prisioneiro do paraíso”. Calipso é uma ninfa belíssima, filha do titã Atlas, e ela oferece a Odisseu tudo o que um mortal poderia desejar: imortalidade e juventude eterna. Ela promete que ele jamais envelhecerá nem morrerá, vivendo uma vida de luxo. A ilha é descrita como um lugar de beleza natural indescritível.
No entanto, Odisseu rejeita tudo isso. Ele passa os dias sentado nas rochas à beira-mar, chorando e olhando na direção de Ítaca. Em outras palavras, o desejo de voltar é maior do que a própria imortalidade.
A situação só muda porque Atena, que protege Odisseu, aproveita uma ausência de Poseidon — seu inimigo — para pedir a Zeus que o liberte. Zeus então envia Hermes, o mensageiro dos deuses, para dar a ordem a Calipso. Ela não aceita isso de bom grado e reage com revolta, fazendo inclusive um discurso em que critica o machismo dos deuses.
“Falou e a trêmula Calipso proferiu palavras asas: “Ah, zelotipia de hórridas deidades, contra a deusa desoculta aos braços de um homem que elegeu como consorte! Eós-Aurora desdirrósea escolheras Òrion , e vós eternos, de viver tão fácil, não aprovastes, até que a deusa tronco-de-ouro Ártemis, o matasse com seus dardos suaves em Ortígia. Deméter de cabelos lindos também cedeu o ímpeto do coração quando alqueive arado ao triplo, sobreamou Jasão, enlace que Zeus se apercebeu, com raio prata o fulminando incontinente. Mas uma vez o Olimpo inveja o amor humano. Quem o salvou, quando abraçado a uma quilha, só, no oceano vinho, raio do Cronida racha e nau veloz ao meio? Os companheiros bravos já falecidos e o marulho e o vendaval o repelindo à ilha .. O recebi, nutri, dizendo-me que a morte nunca alcançaria o ser jamais idosos em todos os seus dias. Mas como a decisão de Zeus não se transgride tampouco é rasurável por um eterno, que torne o mar estéril, mas sem meu auxílio que não estou em condições de propiciá-lo, despossuída de navio remeiro e heróis eu faça sua escolta em amplidorso oceânico. Darei conselhos francos para que ele alcance Ítaca de seus antepassados.” (pág. 90, canto 5)
Embora Odisseu dormisse com Calipso, ele chorava por sua esposa e por seu lar. Calipso se aproxima dele e lhe pede que não chore mais, pois ela está prestes a enviá-lo de volta para casa. Odisseu não compra essa história, e Calipso jura que não lhe fará nenhum mal.
Odisseu e Calipso então compartilham uma refeição requintada. Ainda assim, ela o adverte de que, se ele soubesse do sofrimento que o aguarda, ficaria com ela e se tornaria seu marido imortal. Mas Odisseu prefere voltar para Ítaca, seu verdadeiro lar.
Na manhã seguinte, Odisseu começa a construir uma jangada com as ferramentas fornecidas pela deusa. Quando termina, Calipso lhe dá provisões, e ele parte navegando. Viaja até avistar a ilha dos feácios. Mas é justamente nesse momento que Poseidon o vê e, enfurecido com a sorte, envia uma terrível tempestade.
Odisseu chega a pensar que ele deveria ter morrido no campo de batalha. Uma onda o arremessa para fora do navio e o arrasta para o fundo, mas ele consegue emergir à superfície e se agarra aos restos da jangada despedaçada:
“Escute-me, senhor quem quer que seja! Ó multievocado, a ti me volto, prófugo do deus do mar! Até os imortais merece compaixão um erradio como eu que ao teu caudal me aconchego aos teus joelhos. As minhas súplicas, senhor, dirijo a ti!” Falou e a correnteza logo estanca e a onda contém-se e reine a calmaria que o salvou a foz do rio. E os joelhos dobram, as mãos fortes vergam: o mar o havia exaurido. Túmido, o estado de seu corpo; o mar jorrava boca, narina afora; jaz sem fôlego e sem voz, exânime. Fadiga atroz o aniquilava. Quando se reanima e o coração desperta, arranca de seu corpo o véu divino e o arroja ao córrego do rio que o leva ao mar distante. Um megaturbilhão o conduziu de volta às mãos de Ino. O itácio deixa o rio e deita-se o rio e deita-se ao juncal, beija a terra e pronuncia palavras, embora adolorados, ao coração magnânimo: Pobre de mim!...” (pág. 100-101, canto 5)
A deusa Ino o vê e se compadece; ela lhe entrega um lenço mágico que o tornará imortal temporariamente e lhe diz para nadar até a costa. Vemos aqui um conflito entre vontades divinas: Poseidon quer que Odisseu sofra e se afogue, ao passo que Ino deseja que ele encontre abrigo. Ela prevalece não por algum sistema judicial, mas pelo acaso das circunstâncias — simplesmente porque ela está mais perto de Odisseu. Poseidon ficou ressentido com sua intervenção, mas acaba aceitando. Decide, então, que Odisseu já sofreu o suficiente e o deixa seguir. Atena controla os ventos para que eles levem Odisseu até as costas dos feácios.
Enquanto o exausto Odisseu dorme, Atena voa até uma cidade feácia, onde a princesa Nausícaa, filha do rei Alcínoo, também dorme. Disfarçada de jovem princesa, Atena a repreende pelo mau estado de suas roupas e sugere que vá à praia lavá-las:
“Por que tua mãe te fez tão indolente, cara? Descuida de suas roupas rútilas, mas núpcias contrairás em breve, quando vestirás brocados belos e outros doarás ao noivo. O louvor das pessoas nisso se baseia e o júbilo de sua mãe augusta de Alcínoo. Cuidamos de lavá-las antes do alvorecer. Verei que ajuda posso dar para ultimares tudo, pois não serás donzelas para sempre. Ótimos feácios têm te cortejado amiúde, e a estirpe deles com a tua linhagem coaduna. Vamos!” (pág. 103-104, canto 6)
Atena sugere que a princesa Nausícaa vá lavar suas roupas na praia. Na manhã seguinte, o rei lhe dá uma carroça; ela prepara um almoço e azeite o banho, e parte com suas criadas até a praia, onde Odisseu está dormindo. Elas tomam banho, lavam a roupa e se untam de óleo. Enquanto esperam que as roupas sequem, brincam ao sol.
Sem saber, Nausícaa e suas servas sem acordam Odisseu, que se apresenta diante delas para pedir respeitosamente ajuda. As servas o vestem e o alimentam, marcando, a partir daí, seu retorno ao mundo dos humanos. Nausícaa, porém, não quer ser vista em público com ele, e aconselha Odisseu a entra na cidade sozinho e tentar ganhar a ganhar a confiança do seu pai, o rei Alcínoo.
Enquanto Odisseu caminha em direção à cidade, Atena o envolve numa névoa protetora. Disfarçada de menina, ela o guia até o castelo e lhe diz para ser corajoso. Atena o aconselha a conquistar a rainha Arete, pois o julgamento dela tem grande peso no reino.
“Eis o palácio, estrangeiro, que procuras. Os basileus eternos banqueteiam dentro. Evita amedrontar teu coração, pois o homem intimorato sempre aufere mais vantagens, mesmo se proveniente de outras regiões. Logo verás na sala-mor a basileia denominada Arete, cujos ancestrais são os ancestrais do marido Alcínoo.” (pág. 115, canto 7)
Odisseu encontra os moradores do palácio celebrando um festival em honra a Poseidon. Ele se impressiona com o reino de Alcínoo e com o luxo de seu palácio. Entra na grande sala, onde muitas pessoas estão festejando, e abraça Arete, colocando-a sobre os joelhos; nesse instante, a névoa ao seu redor se dissipa.
“ Enquanto o herói preclaro cruza a sala, Atena o encobre numa névoa espessa, até que alcance Arete e o rei Alcínoo. Ele abraçou os dois joelhos da basileia ao dissipar da bruna divina, Quem o viu ali perdeu a voz. Embasbacados, todos os convivas miram o herói que então rogava: “Filha de Rexênor, igual a um deus, Arete, após sofrer muitíssimo, venho ao teu cônjuge, aos teus joelhos, aos demais convivas, por quem rogo aos deuses concederem ouro e longevidade, herdeiros cuidadosos com bens da casa e haveres que lhes dá o povo. Peço uma escolta que me leve presto ao lar, pois sofro há muito sem saber dos meus”. Calou, sentado sobre a cinza da lareira, à beira-fogo. Paralisados, os demais calavam.” (pág. 118, canto 7)
Odisseu abençoa a família real e implora por uma viagem segura de volta para casa. Alcínoo o faz sentar-se a seu lado; Odisseu come e bebe, e todos erguem a taça de vinho em honra a Zeus. Alcínoo diz aos nobres que, no dia seguinte, se reunirão para oferecer sacrifícios aos deuses e organizar a viagem de retorno do forasteiro.
O rei chega a se perguntar se aquele estrangeiro não seria um deus, pois o comportamento dos deuses mudou — outrora, eles visitavam os mortais sem disfarces. Odisseu responde que é apenas um mortal sobrecarregado pelo sofrimento humano e lamenta ter que comer apesar da dor: a fome, diz ele, alivia suas lembranças. Ele implora para ser levado de volta para casa – tudo o que deseja é ver novamente sua família e morrer feliz.
À medida que o banquete termina e os criados recolhem os pratos, Arete nota que Odisseu está vestido com roupas que lhe são familiares e pergunta, desconfiada, de onde vieram. Odisseu então conta uma versão mais completa de sua história: descreve o tempo de aprisionamento na ilha de Calipso, sua fuga, a difícil jornada pelo mar e o encontro com Nausícaa – e como ela lhe deu roupas e o guiou até o palácio. Odisseu afirma que foi decisão dele não acompanhar a princesa até a cidade.
“O rei falou: Num ponto, apenas minha filha errou, pois não te trouxe ao paço com as servas: a ela suplicaste inicialmente. “Então Odisseu pluriarguto rebateu: “Herói evita criticar sua filha prestimosa, pois ela sugeriu que eu ladeasse as fâmulas, o que eu não aceitei por medo e por pudor sem conhecer tua reação, nos vendo sós: é do homem, entre os quais me incluo, o ciúme terra acima.” Disse o rei: “Meu coração no peito não se enraivece por quimera...” (pág. 124, canto 7)
Ao ouvir o relato de Odisseu, Alcínoo chega a desejar que um homem como ele se casasse com Nausícaa. Ainda assim, garante que providenciará um navio para levá-lo de volta para casa na manhã seguinte.
No dia seguinte, Alcínoo convida os conselheiros e nobres para o palácio a fim de promover um banquete e uma celebração de jogos em homenagem ao seu hóspede. Todos participam com prazer:
“Era esse o canto do ínclito cantor. O herói se aferra ao manto púrpura com as mãos enérgicas e o traz à testa, encobre a expressão do rosto: o pranto a fluir dos cílios frente aos feácios o envergonhava. Quando o aedo para, rosto enxuto, recolhe o manto da cabeça, soerguendo a copa de ansas dúplices aos numes. Assim que o Aedo torna ao poema, sob aplausos de altivos feácios, extasiados com racontos, o herói volta a chorar e reencobre a testa. Nenhum dos convidados percebe seu pranto, tão só Alcinoo, cujo trono não distava do herói, copiosamente soluçante. Então o rei falou aos feácios filorremadores: Ouvi-me, hegemônes feácios, conselheiros! Cambiemos de ambiente, pois que o coração da ceia e da cítara que aflora afável no festim se sacia. Fora, disputai as pancompetições, a fim de que o estrangeiro possa narrar aos seus o quanto somos bons no salto, na corrida, na luta pugilato...” (pág. 128-129, canto 8)
O rei percebe a tristeza de Odisseu e encerra o banquete para que os jogos possam começar. Todos se dirigem ao local das competições, onde os homens mais fortes e talentosos se preparam para competir. Há uma corrida a pé, seguida de luta livre, saltos e lançamentos de disco.
Laodamante convida Odisseu para participar da competição, mas ele recusa, alegando seu longo sofrimento e sua exaustão. No entanto, acaba sendo provocado por Euríalo, que o insulta dizendo:
“Não pareces ser alguém que entenda de certames, como costuma ser o caso de homens, mas um tipo que faz giros em navios rameiros guiando nautas que executam negociatas, pensando nas mercês e de olho no que traz e em ganhos fraudulentos. Não tens ar de atleta” (pág. 131, canto 8)
Provocado, Odisseu concorda em competir. Ele pega o disco e o arremessa mais longe do que qualquer outro competidor. A deusa Atena, disfarçada, o elogia e o incentiva. Odisseu então se vangloria, dizendo que derrotaria qualquer um — exceto o rei, por ser seu anfitrião. No final, todos se reconciliam.
Em seguida, um poeta cantor, um trovador, narra a história de Ares e Afrodite. Afrodite, a deusa do amor, foi infiel ao marido, Hefesto, ourives, envolvendo-se com Ares, o deus da guerra. Afrodite não era feliz com Hefesto, o deus do fogo, tanto por sua aparência como por sua dedicação excessiva ao trabalho, e acabou iniciando um romance tórrido com Ares.
O caso foi descoberto por Hélio o deus do Sol, que tudo vê e tudo ouve, e que contou tudo a Hefesto. Sem perder a calma, o deus planejou uma vingança astuta: forjou uma rede de fios de ouro incrivelmente fina, resistente e quase invisível, e a instalou secretamente sobre a cama do casal. Depois, fingiu partir em viagem, dando aos amantes a oportunidade perfeita para se encontrarem.
Quando Afrofite e Ares se deitam, são apanhados em flagrante adultério: presos pela rede invisível de Hefesto, ficam nus e incapazes de se mover. Hefesto então os expõe diante dos outros deuses e reclama a Zeus o dote que havia pago pelo casamento. Não há indignação — há gargalhadas. Os deuses fazem piadas da cena e fazem troça do adultério. A pedido de outros deuses, entre eles Poseidon, que se oferece como fiador, Hefesto acaba por libertar os amantes.
Essa história é, na verdade, uma variação da antiga parábola do fraco que vence o forte: embora aleijado, Hefesto aprisiona o poderoso deus da guerra. As correntes de ouro representam o poder da mente — invisíveis e delicadas, mas infinitamente fortes. Esse episódio lembra o encontro de Odisseu com o Ciclope, a quem o herói derrota não pela força, mas pela astúcia. No entanto, em vez de louvarem Hefesto, os deuses riem dele.
Após o término da história, os melhores dançarinos de Alcínoo se apresentam, e Odisseu fica maravilhado com sua habilidade. Em seguida, o rei reúne os doze nobres de seu reino para providenciar belos presentes de despedida para Odisseu.
Demódoco, o poeta e cantor, conta a história do cavalo de madeira cheio de soldados aqueus que entrou secretamente em Troia, e como os guerreiros saltaram do interior do cavalo e derrotaram os troianos. No canto, o bardo menciona a coragem singular de Odisseu e Menelau.
“... A última prevaleceu: era a sina da pólis ser aniquilada ao acolher o equino enorme de madeira onde os aqueus melhores se postavam, prontos a dizimar os troianos. Canta como arrasam a cidadela, enxurtos da emboscada hípica. E canta como aqui e ali devastam a íngreme pólis, como Odisseu, feito Ares, avançou ao paço de Deífobo com Menelau... (pág.142, canto 8)
Odisseu chora ao ouvir a história. Apenas Alcínoo percebe suas lágrimas e pede a Demódoco que pare de cantar. Ele insiste para que o hóspede finalmente revele sua identidade e explique a causa de suas lágrimas. Então, Odisseu revela a sua identidade e começa a narrar a história de suas longas viagens após a queda de Troia.
“Direi como me chamo, a fim de que também o conheçais e que eu, fugindo ao dia tétrico, me hospede aqui um habitante dos confins. Sou Odisseu Laércio. As muitas artimanhas de que sou mestre fomentaram meu renome aqui e no céu. Meu lar é Ítaca e o Nétrito, monte longivisível folhifarfalhante. Circunvizinhas ínsulas abundam, Samo, Dulíquio e a selvática Zacinto. Ítaca repousa nos baixios talássios, derradeira a oeste, as outras abrem-se ao sol do leste hirta dos seixos, ótima nutriz de moços ...” (pág. 146-147, canto 9)
O flashback da Odisseia — que abrange os cantos 9 ao 12 — é um dos recursos narrativos mais famosos da história da literatura. Na Grécia Antiga, isso era chamado de narrativa in media res, isto é, iniciada “no meio das coisas”. Quando conhecemos Odisseu, no canto 5, ele está chorando e derrotado. O flashback serve precisamente para explicar como um herói tão grandioso chegou àquele estado de miséria.
Esse flashback também separa dois mundos: o mundo fantástico — de monstros, deusas e magias — e o mundo humano e político — o de Ítaca, da fidelidade de Penélope e da ordem civil ameaçada. É nesse retorno narrativo que compreendemos, enfim, a razão do ódio de Poseidon por Odisseu. Sem essa explicação, as tempestades que assolam o herói não fariam sentido.
A chegada de Odisseu à terra de Cicones é a primeira parada após deixar Troia. Esse episódio, narrado pelo próprio herói, dá o tom para o restante da viagem: marca a transição do guerreiro vitorioso para o viajante que começa a perder o controle sobre seus homens. Após o saque, Odisseu ordena a retirada imediata; no entanto, seus soldados, embriagados pelo vinho e pela vitória, recusam-se a obedecer.
Enquanto isso, os Cicones chamam povos vizinhos em seu auxílio, e o exército ampliado mata muitos aqueus antes que os demais consigam escapar. Em seguida, Zeus envia um furacão; os sobreviventes descansam por dois dias e, então, um vento norte desvia as naus em direção errada.
Esse episódio funciona como um aviso de que a proteção divina que os gregos gozavam em Troia começa a desaparecer. Depois da desastrosa batalha contra os Cicones, Odisseu e seus homens ainda enfrentam uma violenta tempestade enviada por Zeus, que os mantém afastados de seu rumo durante nove dias. No décimo, chegam à terra dos Lotófagos, os “comedores de lótus”.
Os habitantes daquela região não são hostis. Alimentam-se do fruto do lótus e o oferecem aos estrangeiros. Quem o prova cai num torpor doce: perde toda a saudade da pátria e deseja apenas permanecer ali, esquecido do retorno. Alguns companheiros de Odisseu sucumbem a esse encanto, mas o herói os arrasta de volta à força, amarra-os aos mastros das naus e ordena aos outros que içem as velas e partam imediatamente.
“Tive que usar a força para conduzi-los às naus, chorosos, e amarrá-los sob as pontes de cavo barco, aos outros sócios exigindo a rápida partida nos baixeis agílimos: que mais ninguém comendo lótus, olvidasse a volta! A bordo, sentam-se junto as cavilhas em fila, os remos já pulsando o salso gris. O coração doía enquanto navegávamos. Fundeamos no país dos brutos antileis. (pág. 149, canto 9)
Este episódio é fundamental porque apresenta o primeiro grande desafio interno de Odisseu: a tentação de desistir. Enquanto entre os Cicones o perigo era a guerra e a morte física, entre os Lotófagos o perigo é a morte da alma – o esquecimento da própria identidade e dos objetivos da vida.
Depois de escaparem desta terra perigosa, Odisseu e seus homens retomam a viagem e chegam a um dos lugares mais famosos de toda a obra: a Terra dos Cíclopes. Essas criaturas de um só olho não tinham leis, conselhos, agricultura, navios nem comércio.
Odisseu e parte da tripulação decidem explorar o lugar, enquanto os outros esperam numa ilha próxima. Ao chegaram à costa, encontram uma grande caverna e levam consigo um recipiente com um vinho muito forte. Até então, tudo parece tranquilo. O gigante não estáem casa. Eles observam os rebanhos, os queijos e os baldes de leite. Os homens querem pegar tudo rapidamente e voltar aos navios, mas Odisseu insiste em ficar para receber os “presentes” do gigante — teimosia da qual ele próprio se arrependerá ao narrar o episódio aos feácios.
À noite, o Ciclope chega e fecha a entrada da caverna com uma rocha monumental, impossível de ser removida por nãos humanas. Ao descobrir os intrusos, não demonstra nenhum respeito pelas leis dos deuses nem pela hospitalidade. Em vez disso, ele agarra dois homens, esmaga-os contra o chão e os devora. Ele repete o mesmo ritual nas refeições seguintes.
O Ciclope, cujo nome é Polifemo, torna-se alvo imediato da fúria de Odisseu: ele pensa em matá-lo ali mesmo. No entanto percebe que, se o fizer, ele e seus homens jamais conseguirão sair da caverna, já que seria impossível remover aquela pedra enorme que bloqueia a entrada. Assim permaneceram presos ali a noite toda, tomados pelo terror.
Odisseu então concebe um plano em três partes. A primeira consiste em oferecer vinho ao monstro:
“Ciclope bebe o vinho, depois de engolir a carne humana! Saibas que a bebida nossa maturava! Trouxe como um dom, se nos reenviasse para casa, sensibilizado. Mas te enfurias demais! Avesso a moira, cruel, que outro humano te visitará, mesmo se há inúmeros? Falei e ele já foi bebendo. Tanto o vinho lhe aprouve, que ordenou que eu lhe servisse mais. “ Dá-me outra dose de bom grado e diz teu nome agora, que amarás a xênia do anfitrião. Videiras pensas pelas jeiras dos Ciclopes produzem vinho ótimo, pois nela chove Zeus, mas parece néctar e ambrosia este! Falou e eu repetia dose licorosa. Três vezes lhe servi, três vezes sorve o estúpido. Quando a bebida atinge o seu precórdio, disse-lhe palavras-mel: “ Ciclope, queres conhecer meu renomado nome? Eu te direi, em troca, receberei de ti o dom que cabe ao hóspede: Ninguém me denomino. Minha mãe, meu pai, sócios, não há que não me chame de ninguém”. (pág. 157-158, canto 9)
Polifemo promete comê-lo por último e acaba adormecendo. Aquela era a sua chance. Odisseu e outros quatro homens aquecem a clava afiada e a usam para arrancar o único olho do Ciclope. Polifemo grita de agonia, e os outros Ciclopes correm até a entrada caverna perguntando quem o está ferindo. E Polifemo responde:
“Ninguém me fere com astúcia!” (pág. 139, canto 9)
Imaginando que ele estivesse louco ou sofrendo algum castigo divino, os outros Cíclopes vão embora. Odisseu fica encantado com o sucesso d seu truque.
Na manhã seguinte, Polifemo, agora cego, abre a entrada da caverna para deixar o rebanho sair. Ele apalpa o dorso das ovelhas para garantir que os gregos não escapem. Odisseu, então, ordena que cada homem se agarre à barriga de um carneiro mais encorpado. Ele próprio escapa amarrado ao maior carneiro do rebanho. O Ciclope só os deixa passar porque os confunde com os carneiros.
Mas é nesse momento que Odisseu comete um erro imperdoável. Tomado pelo orgulho, ele diz:
“A uma distância em que meu grito era ainda audível, escarneci Polifemo: “Não comeste, Cíclope, os companheiros de um velhaco, dentro da gruta, com furor brutal. Era questão de tempo recair sobre ti mesmo ação assim soez, seu miserável! Comer hóspedes na própria casa! Zeus te pune, e outros numes. Falei assim e a cólera do ser aumenta, quando rompeu o píncaro do monte enorme e o arrojou além da proa azul-cianuro: por pouco a extremidade não rompeu do leme. O mar se ergueu à queda do calhau. A onda refluindo devolveu a embarcação a terra, de encontro ao litoral. Mas me aferrando à píritiga descomunal, a devolvi de flanco às águas, ordenando meus sócios não desanimarem na uga da catástrofe, empunhando os remos! Remam em arcos, a meu sinal de testa. Duas vezes mais longe a nau no mar, então gritei ao Polifemo, embora meus comparsas, cá e lá, tentassem me conter com mel na voz: É insensatez espicaçar um ente rude, que há pouco, arremessando a rocha contra o mar, levou o barco à encosta; a morte passou perto. Se ouvir teus brados ou tua voz, nossas cabeças e o lenho do navio naufragaram sob o golpe. Falaram sem dobrar meu coração magnânimo e novamente, enfurecido, lhe falei: “Ciclope, se um dos homens te indagar quem foi o responsável pelo cegamento hórrido, diz que foi Odisseu Laércio, arrasa-urbes, que habita a residência itácia.” (pág. 161-162, canto 9)
Seu erro estava feito. Graças ao orgulho, Odisseu acabou se entregando. Ao dizer o seu verdadeiro nome, permite que Polifemo lance uma maldição específica. O gigante reza ao seu pai, Poseidon, deus dos mares, pedindo que Odisseu nunca chegue a casa — ou, se chegar, que seja tarde, sozinho, num navio estrangeiro, e que encontre desgraça em seu lar. E é a partir daí que Poseidon torna-se um inimigo implacável de Odisseu.
Odisseu continua contando sua história aos feácios. Depois de escapar dos Cíclopes, eles chegam a ilha de Éolo, o senhor dos ventos. Eles ficaram por um mês, e o presente de despedida para Odisseu foi um saco contendo todos os ventos. Éolo libertou apenas o vento oeste para soprar o navio de Odisseu de volta para casa.
Os homens navegam por nove dias e, no décimo, avistam as costas de Ítaca. Nesse instante, Odisseu, exausto, adormece.
Sua tripulação, desconfiada, imaginou que o saco que Odisseu havia recebido de Éolo continha um grande tesouro que ele não queria dividir. Então, desamarraram o saco para ver o que havia dentro. Ao fazê-lo, libertaram todos os ventos.
Formou-se uma tempestade colossal, que arrastou o navio de volta para o alto-mar, enquanto os homens choravam de arrependimento.
O navio acabou retornando à ilha de Eólia. Desesperado, Odisseu foi novamente pedir ajuda a Éolo. Desta vez, porém, a reação do deus foi fria e implacável: ele o expulsou:
“Como retornaste, Odisseu? Imposição de um deus adverso? Não nos empenhamos em que volta fosse tranquila à pátria, ao paço, aos entes caros? Foi o que ouvi. Magoado no íntimo, me abri: “ Sócios me arruínam e a dormência pesarosa. Mas podereis reverter a situação.” Tocá-los pretendi com fala amena. Calam-se todos, exceto o pai, que me responde: “Chispa, ponha-te da ínsula para fora, ó vil dos vis! Não sou de desdenhar a licitude. Ter e conduzir alguém que os deuses menoscabam? Some, pois vens com menoscabos dos imortais!... (pág. 167; canto10)
Éolo expulsou-o, dizendo que não ajudaria um homem que era claramente odiado pelos deuses imortais. Sem os ventos para ajudá-los, os homens tiveram que remar durante sete dias, até que chegaram à ilha dos Lestrigões.
Odisseu enviou alguns homens para verificar se os habitantes eram civilizados ou monstros. Ao chegarem, encontraram uma rainha gigantesca, que chamou seu marido, Antífates. Ele imediatamente agarrou um dos homens de Odisseu e o devorou. Os outros dois conseguiram fugir. Em seguida, os Lestrigões atacaram os navios e passaram a destruir a frota, matando e devorando os homens. Apenas um navio conseguiu escapar: o de Odisseu.
É neste momento que a expedição deixa definitivamente de ser a frota vitoriosa que partira de Troia e se transforma na luta pela sobrevivência de um único grupo. A partir daqui, Odisseu deixa de ser um general à frente de um exército e passa a ser um capitão desesperado tentando manter seu último barco flutuando. Onze navios destruídos, centenas de homens mortos e devorados — resta apenas o navio de Odisseu e cerca de vinte homens.
“ Põe-se a caminho conduzindo vinte sócios chorosos, que nos deixam igualmente em lágrimas. Encontram a mansão de Circe na valada, plenevisivel, erigida em padras lisas.” (pág. 171, canto 10)
Odisseu e seu único navio navegaram até a ilha de Circe e ali ancoraram. Descansaram por dois dias. Em seguida, Odisseu saiu sozinho, matou um cervo e voltou para alimentar seus homens. Eles comeram, festejaram e dormiram.
Na manhã seguinte, Odisseu contou aos homens que vira fumaça subindo de algum ponto no interior da ilha. Esse sinal despertou imediatamente o medo e a apreensão entre os poucos sobreviventes, pois indicava que a ilha não estava deserta e que novos perigos os aguardavam.
Odisseu divide o grupo em dois. Ele permanece no navio com metade dos homens, enquanto a outra metade, liderada por Euríloco, vai explorar a ilha. Eles encontram o palácio de Circe, rodeado por lobos e leões que, estranhamente, se comportam como animais domésticos dóceis.
Circe aparece, convida-os a entrar e oferece-lhes uma mistura de queijo, cevada, mel e vinho. Ninguém percebe, porém, que ela havia adicionado uma poção mágica à comida.
Assim que terminam de comer, Circe toca-os com uma varinha, e eles se transformam em porcos. Conservam a consciência humana, mas ficam aprisionados em corpos de animais, chorando no chiqueiro.
Eurícolo, que tinha ficado do lado de fora por precaução, corre de volta ao navio para avisar Odisseu. O herói decide ir sozinho resgatar seus companheiros. No caminho, o deus Hermes aparece disfarçado de um jovem e diz:
“Aonde vais, infeliz sozinho pelo cimo, ignaro lugar? Teus nautas foram presos por Circe: porcos vivem em pocilgas torvas. Queres livrá-los? Pois garanto que não voltas, mas permanecerá como eles lá. Desejo te poupar, ou melhor, ou melhor, salvar da atrocidade. Entra com este fármaco no lar de Circe, que afastarás o dia fatal de tua cabeça. Eis uma das ciladas típicas de Circe, que afastarás o dia fatal de tua cabeça. Eis uma das ciladas típicas de Circe: há de ofertar-te um drinque, drogar teu manjar, mas não conseguirá te enfeitiçar com esta droga diversa que recebes como antídoto. Quando ela encoste em ti o longo caduceu saca do estojo em tua coxa a espada afiada e avança contra Circe anunciando a morte! Convidará que subas a seu leito, em pânico, o que não deves renegar, pois é uma deusa. Só assim salvas teus sócios e a ti mesmo ajudas. Faze-a a jurar solenemente pelos deuses não te prejudicar ainda mais, tampouco te desvirilizar ou vilipendiar”. (pág. 174, canto 10)
Tudo acontece exatamente como Hermes havia previsto. Circe oferece a poção a Odisseu, mas ela não surte efeito. Quando a deusa ergue a varinha para tocá-lo, ele avança com a espada. Aterrorizada, Circe percebe que está diante do famoso Odisseu, cuja chegada já havia sido profetizada. Ela implora por misericórdia e o convida para sua cama.
Odisseu aceita, mas apenas depois de fazê-la jurar, pelo grande juramento dos deuses, que não lhe faria mal e que libertaria seus companheiros.
Circe transforma os porcos novamente em homens. A hostilidade converte-se em hospitalidade luxuosa. Odisseu e sua tripulação acabam permanecendo ali por um longo tempo, recuperando as forças com banquetes e vinho.
Circe é a imagem da mulher poderosa que pode domesticar o homem, tirando-lhe a vontade e a própria humanidade (transformando-o em animal). Odisseu só vence porque usa a inteligência — com a ajuda de Hermes — para dominar a magia dela, transformando uma inimiga em uma aliada poderosa.
Após um período de descanso, chega a hora de retornar a Ítaca. Circe, porém, avisa que a viagem não será direta. Ela revela que, para saberem o caminho de volta, precisam primeiro descer ao Hades (o mundo inferior) e consultar o profeta cego Tirésias. Odisseu fica profundamente apreensivo. É então que Circe diz:
“Odisseu filho de Laertes, multiastuto, não te preocupes que te falte uma guia às naus; depois de içar o mastro e de enfunar as velas brancas, senta, pois Bóreas sopra e leva a nave. Mas quando a bordo dela cruzes o mar cinza, verás a encosta baixa e o bosque de Perséfone; desfrutecidos, os salgueiros altos choupos: aproa a nave ali, no oceano vorticoso, e te dirige à casa embolorada de Hades! Deságuam no Aqueronte o Piriflegetonte e o Cocito, que sai do Estige; há um penedo onde, ecoando, os rios confluem. Cumpre o que eu te ordene agora, herói: vizinho a essa região, escava um fosso (um côvado de lado) e a oferta verte ao redor – que abarque todos os defuntos: leite e mel no começo, aos quais acresce vinho e água depois; cevada branca esparge em pó! Implora então à testa exangue dos cadáveres, prometendo imolar tão, logo retorne a Ítaca, a vaca mais perfeita, e arder a pira magnos dons.” (pág. 181-182, canto10)
A descida de Odisseu ao Hades (reino dos mortos) é um dos momentos mais sombrios da Odisseia, conhecido como Nekya. Seguindo as instruções de Circe, Odisseu vai até os confins do oceano, onde o sol nunca brilha, para realizar um ritual de necromancia.
Ele cava um fosso e verte nele o sangue de animais sacrificados. As almas dos mortos (as sombras) sentem-se atraídas pelo sangue, que lhes devolve temporariamente a memória e a capacidade de falar com os vivos. De espada em punho, Odisseu tenta impedir que as sombras erradas bebam, até que Tirésias apareça. Ele é o primeiro a beber e faz suas profecias.
“Buscas, herói ilustre, o mel do torna-lar, mas um deus dificulta a tua empresa. O Abala-terra depositou fel no coração colérico porque cegaste um filho seu. Poderá retornar, embora padecendo se refreares a avidez do grupo e a tua, quando aportares o navio na ilha de Trináquia, prófugo do mar roxo, onde vereis as vacas que pastam e as ovelhas pingues de Hélio-Sol, que tudo escruta, tudo escuta. Não as toque tão só pensando no retorno, e fundearás quem sabe em Ítaca, chorando a triste sina. Prevejo só catástrofe, se as molestares a ti, à nava, aos seus companheiros. Fugirás tu mesmo – tarda volta dolorosa -, todos os demais falecidos, num baixel de estranhos. Os arrogantes, que corroem tuas posses cortejam tua esposa com regalos. Sofre o lar. Na volta punirá os petulantes.” (pág.187, canto 11)
Primeiro, Tirésias anuncia que Poseidon, deus dos mares, dificultará a viagem de Odisseu por causa do cegamento de Polifemo. Em seguida, adverte que, se seus homens tocarem no gado sagrado de Hélio-Sol na ilha de Trináquia, todos morrerão, e Odisseu voltará sozinho. em desgraça. Por fim, profetiza a punição que cairá sobre os pretendentes de Penélope.
Odisseu então pergunta como poderá falar com o fantasma de sua mãe, Anticleia. Tirésias explica que um fantasma só pode falar depois de beber o sangue do sacrifício. Odisseu permite que sua mãe beba, e ela imediatamente o reconhece.
Anticleia conta que Penélope ainda está de luto e o espera; que seus bens continuam sob os cuidados de Telêmaco; e que seu pai vive na pobreza e na solidão. Ela própria, diz, morreu de tristeza e saudade de Odisseu. O herói (como narra aos feácios) tenta abraçá-la:
“Três vezes me lancei (instava o coração), três vezes, feito sombra ou sonho, se evolou de minhas mãos. A dor recrudescia dentro de mim, e pronunciei alígeras palavras; “ Mãe, minha mãe, por que rejeitas minhas mãos que avançam, se desejo saciar de pranto glacial a nós, aos dois, no enlace pelos ínferos? Perséfone sublime acaso envia um ícone, para aumentar-me a dor? E ouvi de minha venerada mãe: “Ah, filho, meu querido, vítima de moira tão amara, filha de Zeus, Perséfone não te iludiu, mas essa é a lei dos homens, quando os toma Tânatos: nervos não mais retêm a ossatura e a carne, mas a voracidade flâmea os aniquila, brilhando assim que a vida deixa os ossos brancos ,e, feito sonho, a ânima, volátil, voa”. (pág. 191, canto 11)
Odisseu descreve aos feácios a conversa que teve com Agamenon. O fantasma falou da infidelidade de sua esposa, Ciitemnestra, e contou como foi assassinado por ela e por seu amante Egisto, juntamente com os seus companheiros. O comportamento de sua esposa, disse ele, manchou a reputação de todas as mulheres.
Agamenon aconselha Odisseu a ser cauteloso e a não confiar cegamente, nem mesmo na esposa:
“Não sejas moleirão com a tua mulher, tampouco lhe contes tudo o que conheces, mas apenas uma parcela; guarda o que restar contigo” (pág. 198, canto 11)
Agamenon, o rei que liderou os gregos em Troia, conta como foi assassinado, e conclui com uma frase devastadora:
“Não queiras embelezar a morte, pois preferiria lavrar a terra de um ninguém depauperado, que quase nada tem do que comer, a ser o rei de todos os defuntos cadavéricos (pág. 199-200, canto 11)
A descida de Odisseu ao Hades, conhecida como Nekyia, representa o ponto de virada existencial da obra. Diferentemente da Ilíada — onde o valor supremo é o kléos (a glória eterna alcançada pela morte heroica no campo de batalha) —, a Odisseia propõe uma nova visão do heroísmo.
O encontro com a sombra de Aquiles é paradigmático: o maior guerreiro de Troia confessa a Odisseu que preferiria ser o mais humilde dos servos na terra do que reinar sobre os mortos. Essa afirmação subverte a ideologia heroica tradicional e justifica a busca obsessiva de Odisseu pelo regresso.
Para o herói da astúcia, a verdadeira “imortalidade” não reside na memória dos mortos, mas na experiência concreta da vida: no retorno ao lar, na restauração de sua linhagem e na aceitação de sua própria finitude. O Hades não é apenas um lugar geográfico: é o espelho que reflete o vazio que Odisseu tenta evitar ao escolher Ítaca em vez da oferta de imortalidade de Calipso.
Circe diz a Odisseu que ele deverá passar pela ilha das Sereias, que tentarão atraí-los para a morte com seus cantos. Ela o aconselha a colocar cera de abelha nos ouvidos dos homens e a pedir que o amarrem ao mastro, caso ele insista em ouvir o canto das Sereias.
“Então me disse a venerável Circe: “Tudo cumpriu-se assim, mas ouve o que direi agora e um deus há de lembrar-te: encontrarás primeiro Sereias. Quem quer que se aproxime delas se fascina. O ingênuo que de perto escute o timbre de suas vozes nunca mais terá por perto a esposa e os filhos novos, que se alegrariam com seu retorno à residência, pois Sereias o encantam com a limpidez do canto. Sentam-se no prado: empilham-se ao redor os ossos de homens apodrecidos com a pele encarquilhada. Não chegues perto! Amolga-te a cera ducimel e fixa nas orelhas dos teus sócios. Não as ouça ninguém, mais além de ti (se o queres): te amarrem à carlinga do navio veloz mãos e pés apertados nos calabres, reto, para que o canto das Sereias te deleite. E se rogares ordenares que os marujos te soltem, devem retesar as cordas mais. Depois que os remadores ao te indicar a rota a rota que seguirás: que te aconselhe o coração!” (pág. 206-207, canto 12)
O canto das Sereias cria um desejo desprovido de autocontrole, cujo objetivo é apenas a satisfação imediata, totalmente diferente do desejo de retorno ao lar e à família.
“Assim
