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Nós

Muitos provavelmente não conhecem Ievguêni Zamiátin. Serei muito franco com vocês: eu também nunca tinha ouvido e muito menos lido nada a respeito desse autor. Quando decidi ler esse livro, só o fiz por causa do magistral comentário de George Orwel sobre ele. Esse foi o sinal. Peguei o livro, levei ao caixa, paguei e li. E adorei!

Ievguêni Zamiátin é de nacionalidade russa. Formado em engenharia naval, começou a escrever ficção como passatempo. No levante de 1905 na Rússia czarista, foi preso e exilado em 1911, mas foi anistiado em 1913. Apoiou a Revolução de Outubro, mas tornou-se um crítico da censura praticada pelos bolcheviques. À medida que a revolução avançava, os seus trabalhos foram ficando cada vez mais críticos ao regime e cada vez mais suprimidos no decorrer da década de 1920. Por fim, seus trabalhos foram praticamente banidos, e acabou proibido na URSS, sendo publicados posteriormente na Inglaterra.

“Nós”, do autor Ievguêni Zamiátin, é um romance distópico que se passa em uma sociedade totalitária no futuro. Dizem que esse romance foi considerado o criador do gênero de ficção futurística, como “1984”, de George Orwel, publicado em 1949, e “Admirável Mundo Novo”, de Huxley, publicado em 1932. O livro de Ievguêni Zamiátin foi banido pelo departamento de censura na União Soviética, pois foi amplamente visto como uma crítica à utopia comunista.

As distopias posteriores seriam mais políticas: “1984” (1949), de George Orwell, apresentava uma tirania fria, impiedosa e dominada pelo Partido, enquanto “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley, propunha uma sociedade sob o efeito de uma droga paralisante, ao mesmo tempo manipulada e produtiva.

Naturalmente, Zamiátin enfrentou mais perseguições e punições por seus pontos de vista políticos do que qualquer um de seus colegas na literatura futurística, ele enfrentou a Rússia pré e pós-revolucionária. Nascido em 1884, suas primeiras incursões no comunismo o levaram ao exílio, embora tenha retornado à Rússia durante a Revolução de 1905, que trouxe grandes reformas liberais à Rússia czarista. Seu envolvimento naquela revolta o levou para a prisão de Spalernaja, onde ele enfrentou o confinamento solitário.

“Nós” é uma narrativa em primeira pessoa escrita como um diário por D-503, um matemático que descreve uma sociedade futurista do século 29, na qual todos os cidadãos vivem em uma cidade-estado, sob um governo autoritário e o olhar atento de uma força policial secreta conhecida como “Guardiões”. A sociedade em questão se desenvolveu como resultado da Guerra dos Duzentos Anos, na qual a cidade triunfou sobre o país e se separou do mundo primitivo. E criaram o Estado único.

Os habitantes do Estado Único vivem numa sociedade planejada racionalmente, na qual todas as atividades são programadas de acordo com a Tabela de Horas. A única atividade humana que não está completamente organizada é o ato sexual. Aos cidadãos é permitido o tempo livre não programado todos os dias, chamado de “Horas Pessoais”, no qual eles podem abrir as cortinas de suas salas de vidro e participar de atividades artísticas, sexuais ou criativas. Todos são espionados. Todos os cidadãos vivem em apartamentos feitos de vidro para que possam ser perfeitamente observados. A confiança no sistema é absoluta.

Amor e casamento foram eliminados. Qualquer cidadão pode se registrar para ter relações sexuais com qualquer outro cidadão, obtendo uma espécie de vale-sexo. A conformidade de pensamento, vestuário e comportamento é rigidamente aplicada. Aí vemos que em “O Admirável Mundo Novo”, Huxley explora esse tema.

Aprendemos que os edifícios são feitos de vidro (com persianas que podem ser baixadas somente para encontros sexuais agendados e aprovados), que as vidas são cuidadosamente reguladas, com a exceção de duas horas pessoais por dia.

Outro ponto dessa sociedade é que todos os cidadãos usam uniformes cinza-azulados e são identificados pelo número. A igualdade é reforçada, a ponto de desfigurar os fisicamente belos. Beleza – assim como sua companheira, a arte – é uma espécie de heresia no Estado Único, porque "ser original significa distinguir-se dos outros. Por isso, ser original é violar o princípio da igualdade".

D-503, como já foi dito acima, é o narrador e protagonista dessa história, matemático e construtor da nave espacial chamada “Integral”.

A princípio o nosso herói é um seguidor fiel do Benfeitor, o líder de uma sociedade futurista, o Estado Único. D-503 acredita cegamente que o Estado Único é uma sociedade justa, que a liberdade individual é um remanescente pesado do passado distante e que os números, os habitantes do Estado Único, vivem e trabalham melhor em um estado coletivo de contentamento e felicidade. Ele está feliz em contribuir para que tudo fique como está.

A mente de D-503 começa a vagar, e ele sente que criou o mundo em que vive quando seus pensamentos são quebrados pela voz de 1-330, uma mulher que ele não conheceu. Quando ele diz a ela que estava pensando sobre a uniformidade de todos, ela aponta as diferenças.

Ao longo do romance, D-503 começa a se entender como um indivíduo independente. Duas coisas contribuem para essa florescente autoconsciência: apaixonar-se pela I-330 e começar a escrever. Por essas ações, D-503 começa a perceber que é um todo indivisível dentro de si. Ao se apaixonar, D-503 deixa a esfera social. D-503 descobre, para seu horror, que desenvolveu uma alma.

O título simbólico “Nós” sugere o tema principal do romance: a luta para preservar o eu individual contra as pressões pelo coletivo “nós”. I-330 é o personagem que ajuda D-503, afirmando a individualidade no romance. Ela personifica o princípio revolucionário da energia, que Zamiátin considera uma força positiva, uma vez que representa a mudança.

O líder do Estado Único está em seu quadragésimo oitavo mandato e é cruel. Ele manipula as pessoas. Ele executa pessoalmente os que cometem qualquer infração. Ele acha que é Deus.

“Nós”, do escritor Ievguêni Zamiátin, da editora Aleph, é excelente para aqueles que gostam de histórias distópicas. Nessa edição, George Orwell faz um excelente comentário sobre o livro, uma resenha bem detalhada. Por isso, indico “Nós” como um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.


Data: 06 junho 2018 (Atualizado: 06 de junho de 2018) | Tags: Romance


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Nós
autor: Ievguêni Zamiatini
editora: Aleph
tradutor: Gabriela Soares

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