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A morte de Carlos Gardel

Lobo Antunes, para aqueles que acompanham o site Bons Livros para Ler, não é um escritor novo. Dois livros importantes dele foram resenhados aqui neste espaço: “Manual dos Inquisidores” e “Exortação aos Crocodilos”. Hoje falaremos de mais uma obra-prima: “A Morte de Carlos Gardel”. Sou fã dos autores portugueses, li muitos autores contemporâneos. Mas Antônio Lobo Antunes, para mim, é um Prêmio Nobel.

Recebeu o Prêmio Camões em 2007, o prêmio de maior prestígio da literatura portuguesa. Não é à toa que existe uma biblioteca com o seu nome. É um gênio. Veja bem, isso não é um elogio vazio, não. Lobo Antunes foi indicado ao Nobel muitas vezes.

Seus romances são compostos por uma diversidade de vozes narrativas, fluxos de pensamentos. Seus temas têm muito a ver com sua vivência, como acontecimentos de guerra, pois ele teve a experiência de atuar como médico psiquiatra em Angola durante a guerra colonial (luta pela independência), entre 1971 e 1973, na Vila do gago Coutinho, no leste do país, e mais tarde em Malange.

Perseguições políticas (leia-se a ditadura salazarista), decepções familiares, desilusões, desejos, sonhos, situações que foram vivenciadas por muitos portugueses. Antônio Lobo Antunes possui a capacidade de mergulhar na mente humana, extraindo as idiossincrasias psíquicas dos indivíduos. Em outras palavras, nosso autor não pensa no indivíduo coletivo: ele pensa no indivíduo e suas relações interpessoais.

Podemos visualizar os buracos negros, onde encontramos doença, morte, ódio, cinismo e amargura. E “A Morte de Carlos Gardel” encarna todos esses sentimentos. O tango ocupa o lugar central na vida de vários personagens do livro. O protagonista Álvaro, amargurado porque a sua mulher o deixou, é incapaz de amar. É um cínico, um rosto sem feições.

O estilo labiríntico, o tom cínico e sombrio da descrição dos personagens, a ausência de calor humano entre eles, a incapacidade de amar, a forma de viverem agarrados a qualquer coisa, a qualquer foco de aparente conforto, a uma promessa débil de companhia, para combater aquilo que todos temem: viver só e acabar só.

O romance é dividido em cinco partes. Cada capítulo tem o nome de um tango de Gardel. Por una cabeza, Milonga sentimental, Lejana terra Mia, El dia que me queira e Melodias de Arrabal. Cada um é dedicado a um personagem principal. Ao mesmo tempo, cada parte é composta por cinco monólogos: três deles correspondem ao protagonista, os outros dois, que são sempre intercalados, correspondem a personagens que não pertencem à família.                                                                                        

Dito isso, devemos explicar que a trama principal não é nada engraçada. Aconselho não lerem esse livro na praia. A história começa numa UTI hospitalar. Nuno, um adolescente, está em coma causado por uma overdose. Algumas passagens são narradas por ele, que ouve as pessoas à sua volta e pensa no seu passado, na sua infância. Ou seja, são cenas em flashback.

Por causa dessa constante regressão no tempo, a história necessariamente gira em torno de si mesma. Não há projeções para o futuro. Os personagens aceitam sua herança como uma fatalidade e não aspiram a se tornarem outra pessoa, não consideram a possibilidade de mudar padrões familiares.

Todos vivem os seus pesadelos. O passado é a explicação para todos os infortúnios. Suas versões se cruzam, distorcem outras versões, até descerem das nuvens da “inocência”, até que a raiva exploda. Todos os envolvidos vivenciam essa realidade amargamente. Nuno é filho de Álvaro e Cláudia, mas será o próprio Nuno que abrirá a porta de sua mente para nos mostrar a razão de todo esse presente, o que causou tudo isso. Uma série de promessas quebradas, vidas vividas sob o signo do não amor, em vigílias pró-forma, ou seja, por mera formalidade, beijos sem significação, aqueles tipos de beijo de bochechas para bochechas totalmente ausentes de significação afetiva.

“Deus me livre de gostar das pessoas” (pg 33)

O passado é remexido, e a saga começa com Joaquim avô de Álvaro, que morava na ilha da Madeira quando foi abandonado por sua mulher Esther. A imensa dor causada pela traição de sua esposa é o ponto de partida de todos os males, ou seja, o declínio de Joaquin é fator determinante para o destino das três gerações seguintes.

Joaquim encontra-se sozinho e não consegue educar seu filho Álvaro e sua afilhada Graça. Ela se forma em medicina e vai viver com uma mulher, Christian, mas a relação com ela não parece a de uma mulher apaixonada, parece mais um ato voluntário de rejeição aos homens.

Álvaro, pai de Nuno, sofreu o mesmo abandono quando sua mãe saiu de casa, foi uma criança que cresceu sem amor. Seu pai não sabia como abrigá-lo porque ele mesmo não suportava arrastar as suas próprias correntes, como o sentimento de perda que o encapsulava. A falta de amor será então a constante: um veneno que faz murchar.

Álvaro sempre foi um pai ausente, passou do interesse transbordante dos primeiros meses do filho para quase nenhum interesse por ele. Nuno, criança difícil, rejeita os amantes da mãe e a mulher de seu pai com a mesma energia. Confusamente acreditava que seus pais queriam se livrar dele e tem um medo patológico de ficar só. Cláudia, a mãe, independente, cuida do filho sozinha, tem vários casos depois de se separar de Álvaro. Um deles, Ricardo, tem a idade de seu filho.

O quadro pode ser resumido da seguinte forma: Álvaro não foi capaz de assumir a paternidade do seu filho; Cláudia, mãe de Nuno, era uma mãe sem afeto pelo filho. Nuno pressente que será jogado para o escanteio pelos namorados da mãe e pelo pai. Nuno, em desespero, resolve fugir. Para onde? A heroína o adota.

Um tango um pouco de fado, um fado um pouco de tango, no qual, como de costume, o autor mistura várias vezes uma série de monólogos que podem parecer aleatórios, mas que, pouco a pouco, escorrem e mostram detalhes de uma realidade. O elemento essencial é que a vida de Álvaro está errada por causa do tango, por causa de Carlos Gardel. Ele impõe essas melodias à sua primeira mulher, Cláudia, e a rejeita juntamente com o seu filho. Seu amor ao tango encontra o retorno musical em Raquel, sua segunda mulher. Não que ela fosse fisicamente atraente, culta, nada disso. Não: Álvaro aceita esse amor pelo tango. É por causa do tango que seu filho o odeia e também odeia Raquel, cúmplice dessa paixão musical.

A falta de amor em "A morte de Carlos Gardel" destrói, anula, enlouquece e mata. Esse drama familiar tem um desfecho doloroso em que o leitor entra em contato com as obsessões dos personagens, os quais precisam de uma unidade de tratamento intensivo de afeto. Querem saber o final? Leia “A Morte de Carlos Gardel”, uma história surpreendente. Um livro que merece um lugar de honra na sua estante.

 

 


Data: 13 junho 2018 (Atualizado: 13 de junho de 2018) | Tags: Romance


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A morte de Carlos Gardel
autor: Antònio Lobo Antunes
editora: Publicações Dom Quixote

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