Livros > Resenhas

O Universo. Os Deuses. Os Homens Mitos gregos

O livro de Jean-Pierre Vernant começa com a tradicional pergunta: “O que é um mito?”. O mito é um relato. Mito e mitologia são palavras gregas ligadas à História e a certos traços da civilização. As lendas helênicas, por exemplo, para serem compreendidas, exigem a comparação com outros relatos, pertencentes a outros povos, pertencentes a culturas e épocas diferentes, quer se trate da China, da Índia, da América Colombiana ou da África.

A estatura do mito diferente. O relato mítico não resulta da invenção individual, nem da fantasia criadora, mas da transmissão e da memória. Esse laço íntimo e funcional com a memorização aproxima o mito da poesia, que, originalmente, em suas manifestações mais antigas, pode confundir com o processo de elaboração mítica.

Peguemos o exemplo da epopeia homérica, que opera como poesia oral, composta e contada diante de ouvintes por várias gerações. Aedo em grego antigo significa “cantor”; os aedos eram os poetas que, antes da invenção do alfabeto, praticavam o culto da deusa Memória e das Musas (que eram deusas da arte na mitologia grega). Eram filhas de Zeus e de Mnemosine a deusa da memória) recebiam dessas divindades o dom de compor canções ao som da lira.

Poesia para o grego significava um dom concedido pelas Musas; uma graça dos deuses. Sendo fruto de inspiração divina, a poesia, portanto, era exterior ao poeta visão bastante diferenciada da que temos hoje, cuja propulsão da criação seria o jorrar da subjetividade do próprio artista.

O relato mítico, por sua vez, não é apenas como o texto poético polissêmico em si mesmo, por seus planos múltiplos de significação. Ele sempre comporta variantes, versões múltiplas que o narrador tem à sua disposição e que escolhe em função das circunstâncias de seu público ou de suas preferências, podendo cortar, acrescentar e modificar o que lhe parecer conveniente.

Enquanto uma tradição oral composta de lendas estiver viva, enquanto permanece em contato com modos de pensar e os costumes do grupo, ela se modificará, ou seja, o relato estará parcialmente aberto à inovação.

O livro “O Universo. Os Deuses. Os Homens”, de Jean-Pierre Vernant, originou-se quando seu neto Julien implorou que ele contasse algumas histórias para dormir. Acreditem que foi assim que a ideia desse livro surgiu. Fico imaginando a dificuldade do neto em dormir ao ouvir toda essa história sobre as façanhas dos deuses no Olimpo e suas guerras. Passando pela Odisseia de Ulisses, indo até Édipo e parando em Perseu. O livro é uma viagem maravilhosa.

Este livro reconta as histórias familiares de Prometeu e seu roubo de fogo dos deuses, a criação da mulher em Pandora, que deixa o mal no mundo quando Zeus a engana para abrir um vaso atraente e o heroísmo de Odisseu em retornar a Ithaca, apesar das repetidas tentativas de Poseidon para detê-lo. 

Jean-Pierre Vernant nasceu na França em 1914. Graduou-se em Filosofia e foi dirigente da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Foi um estudioso da mitologia grega por muitos anos e publicou mais de quinze livros sobre o assunto.

Um detalhe que eu soube, pois queria falar um pouco mais sobre a vida desse grande intelectual, é que ele foi professor no departamento de filosofia da USP juntamente com François Châtelet. Como vários professores foram exilados, o que acabou gerando um risco de extinção do departamento de filosofia, Vernant resolveu ficar no departamento a fim de ajudar os colegas brasileiros e atrair maior atenção internacional à situação de exceção que vivia o país.

O livro é dividido em oito partes: A origem do universo, Guerra dos deuses, Reinado de Zeus, O mundo dos humanos, A guerra de Troia, Ulisses ou a aventura humana, Dioniso em Tebas, Édipo, O inoportuno e Perseu, A morte, A imagem.

Não é a minha intenção fazer um resumo de todas elas, pois seria algo imenso dada a complexidade do assunto. No entanto, vamos fazer uma seleção para que todos possam ter uma ideia, pois o livro é simplesmente maravilhoso.

Vamos pegar alguns capítulos centrais como, por exemplo, a origem do Universo na mitologia grega. O início de tudo, o Caos. Podemos conceituar o Caos como uma noite indistinta até o aparecimento da Terra. A Terra é o oposto do Caos. Se o Caos era escuro, na Terra que os gregos chamavam de Gaia tudo é desenhado, tudo é visível e sólido. A Terra surge no próprio seio do Caos. A terra surge do abismo, liga-se às profundezas. Esse Caos evoca para os gregos uma espécie de névoa opaca, onde todas as fronteiras perdem a timidez. No mais profundo da Terra encontra-se esse aspecto original.

De Caos surge também Eros (Éros – não o Eros do Olimpo, de Afrodite, que conheceremos mais tarde). Este Eros representa o “Amor Velho ou Amor Primordial”, simbolizado nas imagens com cabelos muito brancos. Até então, não havia sexualidade. Este Eros expressa o impulso primordial do universo.

Caos é uma palavra neutra, e não masculina. Gaia, a mãe terra, é evidentemente feminina. A Terra vai parir sem precisar se unir a ninguém. Ela dá à luz o que nela existia de forma obscura. A Terra engendra um personagem muito importante, Ouranos (Urano), Céu e até mesmo o Céu estrelado. Depois, traz ao mundo Pontos, isto é, a água dos rios e dos oceanos e mais exatamente a Onda do Mar, a palavra que em grego é masculina. A Terra os concebe sem se unir a ninguém. Pela força íntima que tem, a Terra desenvolve o que já estava dentro de si. Produz o céu estrelado, que é uma réplica de si mesma, tão firme quanto ela e do mesmo tamanho.

Urano (que representa o céu) se deita sobre a Terra, constituindo dois planos superpostos do universo, um chão e uma abóbada, um em cima e um embaixo, que se cobrem completamente.

Fazendo um breve resumo até aqui, podemos dizer que o mundo se constrói a partir de três entidades primordiais. São elas: O Caos, Gaia Eros e em seguida mais duas entidades paridas pela Terra: Urano (Céu) e Pontos (água). Gaia é a terra onde andamos e ao mesmo tempo é uma deusa.

O Céu foi gerado por Gaia. O Céu cobre a Terra. Cada porção da Terra é duplicada por um pedaço de Céu que lhe corresponde completamente. Um casal de contrários; Céu e Terra. Urano e Gaia deitam-se juntos e dão origem a uma série de filhos, e quem são eles? Primeiro há os seis Titãs e suas irmãs, as Titânidas. O mais jovem Titã se chama Cronos. Além deles, nascem mais dois trios monstruosos: os Cíclopes.

A União entre Urano e Gaia é cruel. Urano (Céu) a cobre ocupando todos os espaços de suas formas, não deixando entre eles espaço algum. Os filhos que nascem não conseguem sair do ventre da mãe, pois não há espaço entre o Céu e a Terra onde possam viver, ou seja, não há “luz”. Gaia se sente reprimida, seu ventre está inchado, totalmente sufocado por Urano. E se vê impotente.

No entanto, Gaia tem a seu favor a engenhosidade. É uma divindade possuidora da escuridão, mas em seu ventre há luz, e o que vem a ser essa luz? São os filhos que estão dentro dela. Gaia fabrica dentro de si mesma uma espécie de foice (hárpe) e a oferece ao seu filho mais novo Cronos. Este espera que Urano ensaie a cópula com Gaia e aproveita a oportunidade e castra o pai. Ao castrar Urano, o Céu se desprende da Terra. E vai se instalar no alto do mundo.

O resultado dessa castração é a queda dos genitais de Urano no mar. Da espuma, nasceu Afrodite, deusa da beleza e do amor. Do sangue de Urano sobre a Terra, nasceram as Melíades, as Erínias e os Gigantes. Como Urano era imortal, continuou sobre Gaia. O Céu continuou cobrindo a Terra, mas sem tocá-la novamente.

Enquanto o movimento provocado por Gaia, Urano e seus filhos se desenrola, paralelamente, Caos, além de Gaia, produz por si só dois filhos: Érebo Nix (noite). Érebro personifica a profundeza das trevas permanentes, enquanto Nix gera Éter Dia (Hemera, em grego), ambas portadoras da luz. Éter personificará a luz cósmica mais pura, mais próxima ao Céu, enquanto Dia Nix passarão a formar um ciclo uniforme de noite e dia.

Quando Urano se retira, os Titã saem do útero materno e, por sua vez, inicia-se uma nova sucessão de gerações. Quando a Terra se liberta do Céu, ou seja, quando Gaia se liberta de Urano, os dias e as noites se alternam.

Mas se tudo parece a princípio bem resolvido, surge o sangue dessa ferida, que são as Erínias, forças que representam o ódio, a recordação, a memória do erro e a exigência de vingança, o ódio proveniente da mesma família. E as Meliádas (ninfas) também têm o perfil de guerreiras, encaram o espírito beligerante.

Quando Cronos joga ao mar o membro genital de Uranos, ele fica boiando, e a espuma do esperma se mistura com a espuma do mar. Dessa combinação, nasce a fantástica Afrodite. E no rastro de Afrodite surgem Éros e Hímeros, Amor e Desejo. Ao castrar o pai, uma nova disputa estará no teatro do mundo: Eros (amor e a sedução) e Eris (a vingança). São produtos do mesmo fundador, que abriu espaço para o surgimento de uma nova geração desimpedida.

Os Titãs agora têm o mundo à sua disposição. Cronos tomou posse, casou-se com a Tiânida Rea teve com ela muitos filhos. Uranos devolveu os filhos ao interior da Terra, e Cronos devorou os próprios filhos e, como Gaia, teve um filho salvador, Zeus.

Todos os filhos de Cronos e Rea foram tragados pelo ventre paterno. Rea não ficou satisfeita com essa conduta, que, afinal, era idêntica a seu pai Urano. Algo precisaria ser feito, ela precisava pensar em alguma coisa, e com auxílio de Gaia ela prepara uma artimanha. Quando Zeus nasceu, entregou o bebê aos seres divinos, as Naiadas, que iriam se encarregar de criá-lo dentro de uma caverna a fim de que Cronos não desconfiasse. Cronos cobrava a presença de Zeus para ser devorado como os outros.

Rea coloca na fralda uma pedra enrolada. Ao comer, ele vomita a prole. Crono vomita e aparece Héstia. Depois toda uma série de deuses e de deusas vêm para fora. A partir daí começa a guerra dos Deuses. Esse combate vai durar dez anos. Do lado de Cronos, os Titãs; do lado de Zeus, os deuses do Olimpo.

Gaia orienta Zeus a fazer alianças com alguns seres aparentados com os Titãs para vencer Cronos, os Cíclopes e os Três com Braços. Zeus vence, mas o mundo volta ao estágio inicial de Caos, ou seja, a desordem original. A vitória de Zeus é mais do que é um novo ordenamento a partir de um Caos onde nada é visível, onde tudo é desordem. Zeus institui uma soberania mais equilibrada.

Zeus começou a governar diretamente do Monte Olimpo, e virou o senhor dos Deuses, prendeu os Titãs vencidos. Começando a terceira geração, casou-se com Métis, mas engoliu-a quando soube por uma profecia que dizia que seu primeiro filho iria traí-lo e tirá-lo do poder. Casou com sua irmã Hera, mas teve diversos casos com outras mulheres mortais e deusas e teve muitos filhos.

Para finalizar essa imensa resenha gostaria de falar agora sobre a relação entre os humanos e os deuses. Todos já ouviram falar de Prometeu. Para aqueles que não o conhecem, Prometeu não era um Titã e muito menos um Olímpio, pertencia a uma linhagem diferente. Prometeu possuía um espírito contestador.

Zeus e Prometeu têm vários traços em comum, no plano da inteligência, do espírito e da esperteza. Prometeu tem uma relação de cumplicidade com os homens. Certa vez, Zeus e Prometeu estavam reunidos como era de costume. Zeus estava na primeira fila. Prometeu traz um touro, e mata-o. Corta o animal em duas partes. Cada porção, devidamente preparada por Prometeu. Esse evento vai determinar a mudança do estatuto entre deuses e humanos.

Prometeu retirou a pele do animal. O primeiro pedaço são os ossos compridos. Ele junta os ossos. O segundo pedaço é a carne comestível e coberta pela pele do touro como se fosse um bucho para Zeus escolher. Zeus pega a parte mais bonita, onde estavam escondidos os ossos. Zeus sente raiva, pois havia sido enganado.

Os homens recebem o resto do touro grelhado em panelas para ser cozinhado, doravante os homens devem comer a carne dos animais sacrificados e mandar para os deuses a parte dele, isto é, a fumaça cheirosa.

Os deuses não precisam comer, vivem sem alimentos, só absorvem pseudoalimentos, o néctar e ambrósia. No entanto, a partir dessa fraude, Zeus esconde o fogo dos homens e, ao mesmo tempo, o trigo. Zeus esconde o fogo dos humanos e se sente feliz por isso.

“A natureza distinta da humana. Esta é uma subvitalidade, uma subexistência, uma subforça: sujeita a eclipses que precisa ser mantida eternamente. Mal faz um esforço o ser humano se sente cansado, esgotado e faminto. Em outras palavras, na partilha feita por Prometeu, a melhor parte é realmente aquela que sob a aparência mais apetitosa, esconde os ossos descarnados” (pg 63)

Prometeu arma uma nova artimanha, vai com um galho de funcho bem verde por fora. O funcho é verde por fora e seco por dentro. Prometeu apanha uma semente do fogo de Zeus e enfia no funcho, que começa a queimar por dentro ao longo do caule. Prometeu volta para a terra e dá aos homens o fogo tirado de uma semente de fogo.

Um dado fundamental para entendermos essa relação entre os deuses e os homens na época de Cronos era que o fogo (vamos chamar na época de seu reinado) sempre esteve à disposição dos homens, os cereais cresciam sozinhos e não era preciso lavrar a terra. A terra produzia espontaneamente, não existia trabalho. Os homens não envelheciam e, quando deixavam a vida, tornavam-se intermediários entre os deuses e os viventes, passando a ser guardiães dos homens, mantenedores da justiça, favorecendo a fecundidade da terra e dos rebanhos.

“Assim como Prometeu teve de dissimular uma semente de fogo para transportá-la até os homens, os pobres humanos também terão de esconder e semente de trigo e os grãos de cevada no ventre da terra. Ali dentro precisam abrir um sulco e esconder a semente, para que a espiga germine.”( pg 66)

Prometeu havia entregado todas as técnicas aos homens. Antes eram como formigas nas grutas, olhavam sem escutar, não eram nada. Graças a Prometeu, os homens se tornaram civilizados, diferentes dos animais e diferentes dos deuses. Mas as artimanhas da guerra entre Zeus e Prometeu não terminaram.

Zeus pede a Hefesto que construa uma divindade feminina feita de argila. Hermes dá vida a essa estátua, dando-lhe voz de um ser humano, bem como outras particularidades. Zeus pede a Afrodite e Atena que vistam essa estátua com o brilho dos trajes típicos femininos, como os enfeites, as joias, o corpete. A jovem donzela resplandece. A primeira mulher que estava ali diante dos deuses. É a primeira mulher, o arquétipo da mulher. Essa criatura feminina (que não existia entre os homens) é modelada de acordo com as deusas imortais, sua aparência é divina. Ela possui uma voz, o que proporciona que ela converse e torne-se companheira dos homens, seu dublê humano.

Prometeu é aquele que compreende antecipadamente, aquele que prevê, ao passo que seu irmão, Epimeteu, é exatamente o oposto. Entende tudo tarde demais. Prometeu adverte o seu irmão para que ele não aceite o presente. Os deuses enviam aquela criatura encantadora. No dia seguinte, Epimeteu se casa com Pandora, totalmente apaixonado. Ela se instala como esposa entre os humanos. Assim começam todas as desgraças envolvendo os os homens não só na presença da sexualidade, mas também em relação à fecundidade, à capacidade de gerar filhos e de produzir o novo. Pandora é a mulher. O homem e a mulher precisam se reproduzir. Pandora tem as características de viver sempre insatisfeita.

Enquanto o homem é condenado ao trabalho, Prometeu, acorrentado, tem seu fígado devorado por uma águia. Esse é o preço da cultura, o sacrifício da identidade original e a substituição desta pelo aceite da projeção do outro como construtora de uma identidade “em grupo”.

Prometeu faz uma renúncia seus privilégios para defender a civilização. Ele sacrifica a sua individualidade para pertencer a um grupo. “[...] de que a obtenção do fogo teve por pressuposto uma renúncia pulsional, então a lenda expressa abertamente o ressentimento que a humanidade conduzida por suas pulsões teve que sentir contra o herói cultural”.

Agora eu prometo que será o último tema que vou abordar. Esse deus é muito conhecido de alguns de nós, seu nome é Dionísio. Antes de tudo, a escolha de falar sobre esse deus se deve ao fato de ele ter sido um deus diferente. É um deus errante, vagabundo e de todos os lugares. É um deus, nas palavras de Marcel Detienne, epidêmico. É como uma doença contagiosa. Quando ele aparece em algum lugar, é desconhecido; mal chega e ele se impõe e seu culto se espalha como uma onda.

Dionísio é um deus de mil faces, um deus caleidoscópico. Em diferentes regiões e diferentes épocas, o deus toma uma forma distinta da anterior e “troca a máscara”. Dioniso é o deus da máscara. Ele estabelece com os homens um contato diferente, uma relação muito mais íntima, mais personalizada, mais próxima. Dionísio mantém com os seus devotos uma relação cara a cara.

Ao mesmo tempo que ele é próximo, ele é afastado dos humanos. É o mais inacessível e misterioso, aquele que não pode ser enquadrado em nenhum quesito. Sua história nos mostra bem isso.

Tudo começa com um personagem chamado Cadmo, que foi o primeiro soberano de Tebas. Antes de fundar Tebas, Cadmo precisou ir a uma nascente e matar um dragão. Após uma querela entre guerreiros armados, Cadmo se casa com a Deusa Harmonia, filha de Afrodite e Ares. Ele terá vários filhos. Entre eles, as moças Sêmele, Autonoe e IIno.

Sêmele é uma criatura encantadora. Zeus se apaixona por ela. Ela se apaixona por ele a tal ponto que pede a ele que apareça em todo o seu esplendor. Quando Zeus aparece flamejante pelo brilho, Sêmele se queima. E ela estava grávida de Dionísio. Ao ver o corpo de Sêmele sendo consumido pelas chamas, Zeus resgata o seu filho do ventre da mãe antes de ela incendiar.

Dionísio já nasceu perseguido pela madrasta Hera, mulher de Zeus. Zeus entrega a criança aos cuidados de Hermes. O pequeno Dionísio é criado por ninfas em uma caverna. Durante sua infância e adolescência, sofre diversas hostilidades de reis e deuses, e percorre toda a Ásia, chegando à Índia e assumindo os costumes desse povo. O ódio acumulado por tanta perseguição faz Dionísio retornar à terra de sua família, Tebas, onde seu primo Penteu, filho de Agave, reina.

O deus retorna com traços asiáticos, tanto físicos como nas vestimentas. Como o soberano tebano não aceitou o culto a esse deus com características estrangeiras, Dionísio, chega à cidade uma maldição, destruindo o palácio e o reinado de Penteu e enlouquecendo as mulheres da cidade, que saíam errantes pelos montes e florestas.

Penteu, o jovem rei de Tebas, fica desesperado com toda aquela confusão. Ele prende todas as mulheres, mas Dionísio liberta todas. Penteu prende Dionísio, que nunca se apresentou como deus, mas como sacerdote. Mas ele consegue se safar. As mulheres vão espontaneamente para onde se encontra Dionísio, e uma das características desse encontro de mulheres é que há um processo de convivência entre todos os seres vivos. Uma reconciliação que envolve todos os seres vivos. Tudo estava indo bem, parecia a vitória da suavidade contra a violência.

Penteu não se conforma em ver Tebas sendo destruída, e se encontra com Dionísio. Como já disse, ele não se apresenta como deus, mas como sacerdote. Dionísio e conversa com Penteu utilizando-se de sofismas, através de perguntas e respostas ambíguas. Dionísio desperta a curiosidade dele de conhecer o mundo feminino desregrado.

No famoso diálogo que Penteu mantém com Dionísio, pergunta:

 - Quem é esse deus? Como o conheces? Tu o viste? De noite, sonhando?

- Não, não, eu o vi bem acordado, responde o sacerdote.

- Eu o vi me vendo. Eu o olhei me olhando. Penteu fica imaginando o que quer dizer essa fórmula: “ Eu me vi me vendo” (pg 156)

É a ideia do olhar, e de que há coisas que não podemos conhecer, mas que conhecemos melhor se a vemos. Amadurece a ideia de ir. Dionísio pega Penteu pela mão e leva-o até ao Monte Citerão onde estavam as mulheres. Ele se estabelece no alto de uma árvore. De lá, ele vê a sua mãe Àgave entre as mulheres. Ela se encontra em estado de êxtase, possuída pela magia de Dionísio.

Penteu é identificado e morto pelas mulheres de forma cruel. Sua mãe sob o êxtase ostenta a cabeça do filho. Horrorizado com o espetáculo, Cadmo, fundador de Tebas e pai de Ágave, traz a filha à razão e ela se desespera ao ver que tinha matado o seu próprio filho.

Fico por aqui. Mas falaremos sobre todos os capítulos, que não foram abordados, à medida que traremos para sugestão de leitura algumas peças que nos ajudarão a entender melhor a mitologia grega.

“O Universo. Os Deuses. Os Homens. Mitos gregos contados por Jean-Pierre Vernant” é um livro que conta a história do teatro do mundo grego em vários atos. Um livro que merece um lugar de DESTAQUE na sua estante.


Data: 05 junho 2020 (Atualizado: 05 de junho de 2020) | Tags: Arte


< A Imortalidade O Sabá das Feiticeiras >
O Universo. Os Deuses. Os Homens Mitos gregos
autor: Jean Pierre Vernant
editora: Companhia das Letras
tradutor: Rosa Freire d\'Aguiar
gênero: Arte;

compartilhe

     

você também pode gostar

Resenhas

Japanese Netsuke

Resenhas

E o Carnaval seguiu pela história até hoje...

Resenhas

Mark Rothko