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O Nariz

Nicolai Gogol nasceu na atual Ucrânia. Filho de pais com perspectivas opostas, mãe conservadora e pai diretor teatral. Aos 19 anos, se mudou para São Petersburgo, na Rússia, onde conseguiu fazer uma certa carreira como ator, mas acabou desistindo. Trabalhou como poeta, mas não conseguiu e acabou colocando fogo em todas as suas poesias. Sua frustração foi tanta que prometeu a si mesmo nunca mais escrever. Trabalhou em diversas frentes, desde a carreira acadêmica até como burocrata. Mas foi em 1830 que ele começou a escrever contos. E foi com “Almas Mortas” que alcançou sucesso, mas a obra foi censurada. Acabou fazendo peregrinações espirituais, somado a uma depressão profunda. Vindo a falecer com a idade de 42 anos.

O conto “O Nariz” foi escrito em um contexto em que Catarina, a Grande, investiu nas artes, filosofia e ciência russas. Mas o grande problema é que, apesar de todo o investimento nas artes, todos os intelectuais viviam sob o domínio opressivo da censura, e com uma pobreza imensa. O conto “O Nariz” é uma crítica a sociedade russa.

A premissa da história é totalmente inusitada. É a história de um homem que perde o nariz. Vamos combinar, é difícil imaginar um homem que acorda e descobre que seu nariz desapareceu. Esse é o ponto de partida da história. No entanto, por mais estranha que seja uma história, é preciso ter uma certa competência para levar esse estranhamento adiante. É aí que reside a genialidade de um escritor para levar esse estranhamento aos limites, é aí que entra Nicolai Gogol.

Vamos à história? Tudo começa numa manhã. O barbeiro Ivan Iákovlietch, residente na avenida Vosnésênski, e sua esposa tomavam tranquilamente o café da manhã quando o barbeiro encontra o nariz em seu pãozinho. Bem, podemos imaginar essa cena como algo muito nojento. Só que não, ele sabe de quem é aquele nariz: é do seu cliente.

“Reconheceu que aquele nariz só podia ser do assessor de colegiatura Kovaliov de quem fazia a barba todas as quartas e domingos.“ (pág. 14)

A esposa entra em pânico e ameaça denunciá-lo à polícia, exigindo que ele tire o nariz de casa. Desconfiado, ele sai com nariz e, à medida que vai encontrando as pessoas, não encontra um lugar adequado para se desfazer daquele nariz. O barbeiro entra em parafuso e acaba se desfazendo do nariz jogando-o  no rio Nievá. Ele se sente aliviado.

 De repente, surge um policial que surpreende o barbeiro e pergunta o que ele está fazendo na ponte sobre o rio:

“ Tenha um bom dia excelência

Não, não, irmãozinho, nada de excelência; mas diga-me o que você estava fazendo de pé ali na ponte?

Por Deus, senhor, eu fui fazer barbas e só dei uma olhada para ver se o rio  corri bem

Está mentindo! Mentindo! Não é assim que vai se livra não. Faça o favor de responder.

Eu posso fazer a barba de Vossa Excelência duas até três vezes por semana sem a mínima objeção, respondeu Ivan Iákovliévitch.

 Não amigo deixa de bobagem três barbeiros já me fazem a barba e consideram isso uma grande honra. Agora faça-me o favor, de dizer o que estava fazendo ali?” (pág. 17)

 Naquela mesma amanhã, o assessor  de colegiatura Kovalióv acorda e descobre que seu nariz sumiu totalmente do rosto. Não existe nada como cicatrizes ou marcas, feridas, apenas uma superfície lisa:

“Assustado, Kovalióv pediu água e esfregou os olhos com uma toalha: de fato o nariz não estava mais lá! Começou a apalpar para se certificar de que não estava dormindo: não, não estava. O assessor de colegiatura Kovalióv pulou da cama e estremeceu: nada de nariz!... Ordenou que o vestissem imediatamente e saiu voando direto para a chefatura de polícia.” (pág. 18)

 E agora? O que ele vai explicar no seu trabalho? Ele possui um título de funcionário público importante, do alto escalão, e é um funcionário que tem suas ambições. E agora? Logo ele que tinha o hábito de circular na avenida Niévski em São Petersburgo, e sua elegância fazia parte de seu estilo. Até que o inesperado acontece: uma carruagem para; as portinholas se abrem:

“E qual não foi seu espanto e ao mesmo tempo a surpresa de Kovalióv quando reconheceu o seu próprio nariz! Diante deste espetáculo extraordinário pareceu-lhe que tudo girava em torno de seus olhos; sentiu que mal podia se manter de pé. Mas de qualquer forma, tremendo como que de febre, resolveu esperar q   eu voltasse a carruagem. E, com efeito, ao cabo de dois minutos o nariz saiu. Usava um uniforme bordado em ouro, com uma gola alta, calças de camurça e uma espada do lado. Pelo chapéu de plumas podia-se concluir que ele se considerava um conselheiro de Estado.” ( pág. 20)

Kovalióv percebe que seu nariz agora vive uma vida separada dele, e, de fato, tornou-se um funcionário de alto escalão. Ele segue o seu nariz. Até que se encontra com o nariz:

“Virou-se rapidamente o objetivo de dizer, sem rodeios, àquele senhor de uniforme que estava fingindo ser um conselheiro de Estado, que ele era um patife, um canalha e que era nada mais nada menos do que seu próprio nariz... Mas o nariz não estava mais lá: tinha tido tempo suficiente de escapulir, provavelmente para fazer outra visita.” (pág. 22; pág. 23)

Mulheres lindas passavam pela avenida Niévski, mas ele estava impedido de fazer qualquer coisa. Pega uma carruagem e segue direto em direção ao jornal. Ele quer fazer um anúncio e procura algo equivalente  ao que chamamos de classificados. O encarregado dos classificados age de uma forma mecânica, não reflete muito sobre o que Kovalióv diz. O encarregado pergunta como desapareceu:

“Está bem, mas de que maneira ele desapareceu?

Eu sinceramente não consigo muito bem. Eu não consigo lhe explicar como, mas o fato é que ele agora ele deve estar circulando pela cidade e autodenomina conselheiro de Estado. E por isso lhe peço que ponha um anúncio para que aquele que o encontrar traga de volta o mais rápido possível. O senhor pode imaginar o que é ficar sem uma parte de seu corpo tão visível? Isso não é o mesmo que qualquer mindinho do pé que dentro do sapato ninguém vai notar se ele existe ou não.” ( pág. 27)

O  homem encarregado dos classificados se recusa a publicar um absurdo desses. Afinal, o que está em jogo é a reputação do jornal.  E propõe que Kovalióv procure um médico. Para não ficar um clima estranho,  ele oferece rapé. Kovalióv não aceita, pois não tem nariz. Ele sai e vai direto à delegacia. O policial o recebe com muita frieza e alega que é hora do almoço e não pode atendê-lo. Kovalióv vai para casa desesperado e profundamente chateado, carregado de sentimentos de autopiedade. Um sentimento novo o invade, e esse sentimento é a paranoia. Ele cisma que tudo o que ele está passando tem uma culpada. E essa culpada tem um nome: é a mulher do oficial do Estado-maior Podtótchin, que deseja casá-lo com a filha.

Vivendo toda essa combustão emocional, eis que aparece o policial. E, para a sua surpresa, ele está com o nariz no bolso. E revela que o barbeiro tem um envolvimento direto no desaparecimento do nariz.

“ O senhor por acaso perdeu o seu nariz?

Exatamente

Ele foi achado.

O que o senhor está dizendo?, gritou o major Kovalióv. A alegria paralisou a língua. Olhava estatelado para o oficial que se achava à sua frente e em cujos lábios cheios e em cujas bochechas refletia brilhante a luz trêmula da vela. De que modo?

Por um estranho acaso: foi interceptado já a caminho. Estavas sentado numa diligência e queria ir para Riga. E o passaporte há tempo fora expedido em nome de um funcionário. E o mais estranho de tudo é que eu mesmo, a princípio, o tomei por um senhor. Mas por sorte, estava com meus óculos e logo percebi que era um nariz” (pág. 33)

O barbeiro está totalmente envolvido em tudo. Kovalióv está muito feliz com o desdobramento de tudo. Sua alegria é absoluta. Ele tenta colocar o nariz de volta. Quando o médico aparece. O médico olha para tudo aquilo e não vê condição para o reimplante do nariz.

“ Não, não é possível. É melhor o senhor ficar assim mesmo porque senão poderá ficar pior ainda. É claro que seria possível recolocá-lo; eu poderia até colocá-lo agora mesmo, mas lhe asseguro que isso seria pior para o senhor.” (pág. 36)

Kovalióv resolve escrever uma carta acusatória contra Madame Podtochina acusando-a de ter feito uma bruxaria contra ele.

Ela responde se defendendo, mostrando a Kovaliov sua indignação com as acusações.

Passadas algumas semanas, eis que o nariz de Kovalióv aparece, ele está de volta ao rosto. Empolgado,  se reconecta com essa parte do corpo desaparecida. Realizado com a volta do nariz, ele volta a cumprir suas funções de funcionário público. Encontra com a filha de com a esposa do oficial do Estado-maior Madame Podtochina com a filha; cumprimenta-a e é acolhido com exclamações.  E a história termina com o  narrador se dirigindo aos leitores,  dizendo:

“Não, não entendo isso de jeito nenhum, decididamente não entendo! Mas o que é mais estranho, ainda mais incompreensível de tudo é como os autores podem acolher semelhantes assuntos. Confesso que isto é absolutamente inconcebível, parece que... não, não, não entendo em absoluto. Em primeiro lugar, não traz benefício nenhum a pátria; em segundo... bem, em segundo lugar também não há benefício algum. Eu simplesmente não sei o que é isto...

Mas, apesar de tudo, muito embora se possa, sem dúvida , admitir isso, aquilo, e mais aquilo, pode ser até ...bem, e onde é que não existem absurdos?

- E, não obstante, se refletirmos bem sobre tudo isso, na verdade, há algo. Digam o que disserem, mas tais fatos ocorrem no mundo; é raro, mas ocorrem” (pág. 43; pág. 44)

Há várias formas de se interpretar essa história. Seria o nariz algo fálico? Seria o nariz uma crítica satírica à sociedade russa, aos valores do cidadão russo da época? Às incongruências do mundo e à trivialidade da sociedade burguesa? O major Kovalióv, na verdade, não é apenas um major Kovalióv mas a todos os majores Kovalióv russos. Mas  isso eu deixo com os leitores dessa incrível história. “O Nariz”, de Nicolai Gogol, merece um lugar de “HONRA” na sua estante.


Data: 22 setembro 2023 (Atualizado: 22 de setembro de 2023) | Tags: Sátira, Russo


< Diário de um Louco O Capote >
O Nariz
autor: Nicolai Gogol
editora: Editora Max Limonad
tradutor: Arlete Cavaliere
gênero: Russo;,Sátira;

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