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A Grande Guerra da Civilização. A Conquista do Oriente Médio

Sim, pode parecer difícil, mas o livro que trago hoje está “esgotado”.  Mas como  o que vale neste blog são os “Bons livros para ler”, não pensei duas vezes: li, gostei e aqui está ele “ A Grande Guerra da Civilização - A Conquista do Oriente Médio”. Se um dia encontrá-lo, agarre-o. A vida é assim. E vamos ao livro.

O livro “A Grande Guerra pela Civilização: A conquista do Oriente Médio”, do jornalista Robert Fisk, é um livro envolvente que prende a atenção do leitor apesar das 1417 páginas. Histórias que foram vividas, experimentadas pessoalmente nos grandes eventos que ele descreve com uma franqueza destemida. Não há mocinhos contra bandidos. Fisk critica ambos os lados de todos os conflitos dos quais foi testemunha.  Não há honra em qualquer lado, especialmente em relação às grandes potências. Critica a Revolução Iraniana, assim como critica o Iraque de Sadam Hussein (ao qual nutre um profundo desprezo) e a Argélia pós-colonial, e descreve suas conversas com Bin Laden ("minha primeira impressão foi de um homem tímido"). Ele também é visto como um apologista do pior bicho-papão do Ocidente, Osama Bin Laden. Fisk entrevistou Bin Laden três vezes, uma vez no Sudão e duas vezes no Afeganistão.

O livro tem momentos de puro suspense quando ele encontra com Bin Laden no Afeganistão pela terceira vez a pedido do próprio. Esse é relato que merece ser lido atentamente. A passagem que reproduzo abaixo é um pouco longa, mas interpretem como uma cortesia que darei aos leitores do blog.

“Houve um súbito ruído de vozes do lado de fora, fino e urgente, como a trilha sonora de um filme antigo. A seguir a porta da tenda se ergueu e Bin Laden entrou, usando um turbante e uma túnica verde. Levantei-me, meio inclinado sob a lona, e nos estreitamos as mãos, obrigados ambos pelo tecido que tocava nossas cabeças a nos cumprimentarmos como paxás otomanos; inclinamo-nos e nos olhamos. De novo, parecia cansado, e percebi que mancava um pouco quando entrou na tenda. Sua barba estava mais branca e o rosto mais magro do que eu lembrava. Porém, estava muito sorridente, quase jovial; colocou o fuzil que carregava no colchão a sua esquerda e insistiu para que seu convidado tomasse mais chá. Durante vários segundos olhou para o chão. Depois olhou para mim com um sorriso ainda maior, gentil e, pensei de repente muito inquietante.

- Senhor Robert, (começou, e olhou para os outros homens com casacos de campanha e chapéus marrons moles, que se amontoavam na tenda) um de nossos irmãos teve um sonho. Sonhou que o senhor vinha um dia até nós montado em um cavalo, que usava barba e era uma pessoa espiritual. Usava uma túnica como nós Isso significa que é um verdadeiro muçulmano.

Aquilo foi aterrador. Foi um dos momentos mais terríveis de minha vida. Compreendi, um décimo de segundo antes de cada palavra, o que Bin Laden queria dizer. Sonho. Cavalo. Barba.Túnica. Muçulmano. Os outros homens assentiam com a cabeça e olhavam para mim, alguns sorrindo, outros contemplando em silêncio o inglês que havia aparecido no sonho do “irmão”. Eu estava horrorizado. Era, ao mesmo tempo, uma armadilha e um convite, e o momento mais perigoso para estar entre os homens mais perigosos do mundo. Não podia repudiar o “sonho”, não sem insinuar que Bin Laden estava mentindo. Porém, também não podia aceitar seu significado sem mentir ou insinuar que o que claramente se referia a mim – que devia aceitar esse “sonho” como profecia ou ordem divina – podia vir a se cumprir. Que esse homem – esses homens – tenha confiado em mim, um estrangeiro, que pensou que me aproximava deles sem preconceitos- de modo que me consideram honesto – era uma coisa. Pois bem, imaginar que me juntaria a eles em sua luta, que me transformaria em um deles, era algo totalmente impossível. O grupo esperava uma resposta.

Eu não teria imaginado tudo isso? Não podia ser apenas uma maneira elaborada e retórica de expressar respeito tradicional por m visitante? Não era só tentativa de um muçulmano – muitos ocidentais no Oriente Médio tiveram uma experiência similar – de ganhar um adepto para sua fé? Bin Laden – sejamos sinceros – estava tentando me recrutar? Receava que sim. E depois compreendi o que isso poderia significar. Um ocidental, um homem branco da Inglaterra, jornalista de um jornal respeitável – não um britânico de origem árabe ou asiática convertido ao islamismo – seria m grande funcionário público, alistar-se no exército, até – como consideraria só quatro anos depois – aprender a pilotar um avião. Eu tinha que sair depressa, e tentei encontrar uma rota de fuga intelectual, tentando escavá-la com tanto afinco que meu cérebro ardia.

- Xeque Osama (comecei a dizer, antes até de decidir minhas palavras seguintes) eu não sou muçulmano. (houve um silêncio na tenda). Sou um jornalista ( isso ninguém poderia discutir) e esse é meu propósito de vida, contar a verdade. (Bin Laden olhava para mim como um falcão). (E compreendeu). Eu declinava da oferta. Diante de seus homens, cabia a ele retirar-se com elegância.

 

"Se conta a verdade, isso significa que é um bom muçulmano ( disse). Os homens vestidos com casacos de campanha assentiram diante dessa demonstração de sagacidade. Eu estava salvo. Como diz o clichê. – voltei a respirar. Não havia acordo.” (pg 62 e 63)


Sua escrita, como não poderia deixar de ser, tem algo emocional e pessoal. Mas nada que fuja ao equilíbrio de suas análises sobre os fatos testemunhados ao vivo e a cores. A emoção encontra-se nos relatos presenciados por ele quando cobriu a situação palestina, a guerra Irã e Iraque, a Primeira Guerra do Golfo, a Invasão soviética no Afeganistão e, finalmente, o 11/09 e a bagunça que se tornou o Oriente Médio por causa da última invasão americana no governo de Bush filho.

Na guerra Irã e Iraque, Fisk nos apresenta em primeira mão a loucura dessa guerra – jovens iranianos de 10, 12 anos que se preparavam para morrer como mártires em missões suicidas e que nas batalhas liam o Alcorão, enquanto cuspiam sangue depois de inalar os gases de Saddam Hussein em campos minados.

Viu a guerra em ambos os lados, sobre todos os ângulos. Não sentado numa cadeira confortável lendo um jornal, mas participando e correndo riscos de vida atrás de todos os detalhes.

Se houve uma influência enorme em sua vida essa foi o seu pai, o tenente Bill Fisk, que lutou na Primeira Guerra Mundial. Como menino, Robert conheceu os locais históricos de alguns momentos inesquecíveis da Primeira Grande Guerra. A devastação da guerra, durante as excursões da família para os campos de batalha da Europa. E graças a seu pai, Robert aprendeu que alguns elementos morais não precisam ser extintos durante uma guerra. Tenente William Fisk se recusou a executar um soldado australiano por deserção e assassinato.

Desde a Ocupação soviética no Afeganistão, à Revolução Iraniana, à Intifada palestina e muito mais, Fisk esteve na linha de frente, um documentador eloquente do sofrimento de guerra. Fisk combina vários ingredientes extremamente convincentes. E quais são eles? As testemunhas oculares. Dando a elas um sentido mais profundo da história em seus contextos para oferecer uma grande história sólida, um recurso valioso para aqueles que se preocupam com os acontecimentos nessa região.

Sobre Israel, ele é crítico. Diz que a política de Israel é contraproducente e míope. Sua identificação com os oprimidos de todas as matizes e cores pode turvar uma visão mais ampla de algumas realidades políticas em determinadas situações. E com isso corre o risco de comprometer suas análises nesse complexo tabuleiro político do Oriente Médio. Mas tal compromisso vem de uma honestidade intelectual. Podemos até não concordar com algumas de suas ponderações. Isso faz parte do jogo interpretativo. Uma coisa é certa: não podemos deixar de elogiar o seu trabalho jornalístico impecável. Seu livro demonstra de forma exaustiva que ele tem um comando de seu tema digno de um historiador.

Robert Fisk aborda o genocídio armênio e o classifica como o primeiro holocausto no século XX. O paralelismo que Robert Fisk faz com Auschwitz não é frívolo. O reinado do terror contra o povo armênio foi uma tentativa de destruir esse povo. Os mortos chegaram a quase 1,5 milhões. A história desse genocídio armênio é algo de horror quase absoluto nas mãos dos soldados e policiais turcos que cumpriam com entusiasmo as ordens de extermínio. As igrejas católicas armênias foram incendiadas como as sinagogas na época dos nazistas. Os armênios morreram no que os turcos chamavam de “caravanas” ou “comboios”, como os judeus, enviados em “transportes” para os campos da morte.

Os estudiosos armênios compilaram um mapa dessa perseguição de seu povo de forma tão detalhada quanto os mapas da Europa, que mostram as rotas ferroviárias para Auschwitz – Birkenau, Treblinka.

O Visconde James Bryce e o historiador Arnold Toynbee fizeram um relatório dessas matanças. Os diplomatas americanos foram os primeiros a registrar o Holocausto armênio. Seus relatórios encontram-se no Departamento de Estado e continuam sendo fundamentais para conhecermos o destino desse povo.

O primeiro autor que chamou o genocídio armênio de holocausto foi Winston Churchil quando declarou:

 

“A erradicação da raça da Ásia Menor foi tão completa quanto uma ação como essa pode ser [...] Não resta dúvida razoável de que esse crime foi planejado e executado por razões políticas. Apareceu a oportunidade de apagar do solo turco uma raça cristã oposta a todas as ambições turcas, que abrigava ambições que só poderiam ser satisfeitas à custa da Turquia, e geograficamente localizada entre os muçulmanos turcos e caucasianos.” (pg. 460)


Fisk não oferece soluções para os conflitos no Oriente Médio. Ele nos apresenta um trabalho para que não se apague da memória os crimes cometidos. É um livro contra o esquecimento e a amnésia intencional. Como Sabra e Shatila, onde cerca de mil refugiados palestinos e muçulmanos libaneses foram massacrados por milicianos cristãos aliados de Israel. Esse massacre deixou marcas profundas na psique de Fisk. Assim como viu um atentado terrorista palestino em uma pizzaria em Jerusalém, onde crianças foram mortas, em um contexto de absoluta irracionalidade.

Cobriu a Guerra civil na Argélia, que entrou em erupção em 1992, depois que o exército cancelou as eleições em que os islamitas estavam próximos a vencer o pleito. Foi um dos poucos jornalistas de língua inglesa que relatou a partir da ex-colônia francesa devastada, onde aproximadamente 200 mil insurgentes islâmicos e forças do governo foram mortos. Nesse capítulo, ele aborda a revolução vitoriosa da Argélia para se libertar de Paris, a decadência autoritária do Estado de partido único que surgiu em 1962, e a guerra civil calamitosa que se alastrou em toda a década de 90. E o que sobrou disso tudo? Uma violência totalmente fora de controle entre as forças do governo e os islamitas. Milhares de mortos entre jovens, mulheres, crianças.

O livro nos mostra corpos dilacerados em meio a todos os conflitos que participou. Mas ele não pode ser considerado um correspondente de guerra desses que vemos hoje na televisão. Ele é mais do que isso. Robert Fisk não está nas guerras para fotografar mortos. Ele nos faz entender o que está por trás de todo esse conflito. Ele entrevista todos os lados e nos faz perceber que nem tudo que acontece na grande imprensa pode ser considerado uma verdade. A desconfiança precisa estar presente. Por isso ele não encontra muita estima para com os grandes jornais.

Uma coisa é certa: este livro de 1417 páginas, “A Grande Guerra pela Civilização: A Conquista do Oriente” precisa ser lido para que possamos formular nossas próprias perguntas e questionamentos. Qual seria a conclusão de tudo que foi escrito nesse livro?

 

“Não há sentido de certo ou errado na política internacional, só interesses” (Charles De Gaulle)


Um livro para quem estuda história e relações Internacionais. Uma aula de grande jornalismo. Um livro que merece um lugar de destaque e sua estante.

 


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Texto/Reportágem


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A Grande Guerra da Civilização. A Conquista do Oriente Médio
autor: Robert Fisk
editora: Planeta
gênero: Texto/Reportágem;

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