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Fascismo à Brasileira ( como o integralismo, maior movimento de extrema direita da história do país, se formou e o que ele ilumina sobre o bolsonarismo)

O motivo pelo qual estou escrevendo sobre o livro “Fascismo à brasileira”, de Pedro Doria, são as eleições de 2026, cujo segundo turno se aproxima, marcado para 25 de outubro. De um lado, temos o candidato Flávio Bolsonaro; do outro, Luiz Inácio Lula da Silva.

O livro não é bom: é ótimo. A obra apresenta uma riqueza de detalhes, entre eles, o relato do encontro de Plínio Salgado com Mussolini, financiado pelo banqueiro Alfredo Egydio de Souza Aranha, fundador do Banco Federal de Crédito, instituição que mais tarde daria origem ao atual Itaú Unibanco.

A pergunta que Pedro Doria faz é a seguinte: existem ligações entre o bolsonarismo, a Ação Integralista, e o fascismo? Doria deixa a questão em aberto. No entanto, chamo a atenção para o caso de Augusto Pinochet, no Chile. O regime de Pinochet era uma ditadura autoritária de extrema-direita, e não fascista no sentido clássico, como foram o fascismo italiano e o nazismo alemão).

Ainda assim, tanto o fascismo quanto a ditadura de Pinochet aboliram a democracia representativa, fecharam o Parlamento, proibiram a atuação de partidos políticos de oposição e suspenderam garantias constitucionais e liberdades civis.

O anticomunismo radical foi a peça central do regime de Pinochet. O regime chileno também nasceu e se fortaleceu sob o discurso de combate à "ameaça comunista" e de destruição dos movimentos de esquerda e dos sindicatos.

Ambos utilizaram o aparatou de segurança do Estado para reprimir opositores de maneira sistemática. No Chile, a polícia secreta (a DINA e, posteriormente, a CNI) praticava prisões arbitrárias, tortura, execuções e desaparecimentos forçados, métodos semelhantes aos empregados pelas polícias secretas de regimes fascistas, como a OVRA, na Itália.

O fascismo clássico defendia um Estado forte e intervencionista na economia, com base no corporativismo. O regime de Pinochet, por outro lado, foi um laboratório do neoliberalismo, sob a orientação dos Chicago Boys), promovendo privatizações amplas, desregulamentação do mercado e redução do papel do Estado.

Os regimes fascistas dependiam do engajamento ativo da população, mobilizando multidões em comícios e organizações de massa, (como as juventudes fascistas). O regime de Pinochet priorizava a desmobilização popular: em vez de engajar a sociedade ativamente, buscava despolitizá-la e mantê-la sob controle coercitivo.

Pinochet utilizou métodos fascistas de repressão e controle estatal para eliminar a oposição. Contudo, no plano econômico e na forma de gerir a sociedade, seu regime seguiu um modelo neoliberal autoritário, distinto do estatismo integrador característico do fascismo europeu dos anos 1930.

A relação entre o pensamento de Friedrich Hayek — um dos principais expoentes do liberalismo clássico e da Escola Austríaca de Economia — e a ditadura de Augusto Pinochet é um dos temas mais complexos, debatidos e controversos da história política e econômica recente.

Em sua obra mais famosa, O Caminho da Servidão (1944), Hayek argumentou vigorosamente que o controle estatal da economia e o planejamento centralizado ameaçam a liberdade individual e podem conduzir ao totalitarismo.

No entanto, no Chile, ocorreu o aparente oposto: as reformas econômicas liberais foram implementadas e sustentadas por meio de uma ditadura militar violenta, que eliminou sindicatos, partidos políticos e liberdades civis e foi responsável por milhares de mortes e desaparecimentos forçados. Para os críticos do liberalismo, isso expôs uma contradição: o livre mercado não se estabeleceu de forma espontânea, como resultado da liberdade, mas foi imposto pela força de um Estado autoritário.

Friedrich Hayek visitou o Chile em duas ocasiões, em 1977 e 1981, e manteve contato com economistas chilenos formados na Universidade de Chicago, os chamados Chicago Boys. Hayek elogiou aspectos das políticas econômicas adotadas pelo regime, como o controle da inflação e a abertura comercial. Ele chegou a afirmar que, em situações extremas, um regime ditatorial pode ser necessário para restaurar as regras jurídicas do capitalismo. Em outra ocasião, declarou que preferia “um ditador liberal a um governo democrático sem liberalismo”.

Onde o bolsonarismo se encaixa, nesse contexto?

Um dos principais pontos de contato entre o bolsonarismo e a experiência chilena sob Pinochet foi a aliança estratégica entre uma pauta moral/social conservadora, (com forte apelo militar e nacionalista,) e um programa econômico liberal, representado pela nomeação de Paulo Guedes para o Ministério da Economia. Guedes, obteve seu doutorado em Economia na Universidade de Chicago e trabalhou como professor no Chile durante a ditadura de Pinochet.

Membros e apoiadores do movimento bolsonarista, frequentemente enfatizam a defesa da liberdade econômica —  desregulamentação, privatizações, redução de impostos e flexibilização trabalhista — ao mesmo tempo que adotam posições críticas em relação a certas instituições da democracia liberal, como o Judiciário, o sistema eleitoral e o papel do Congresso.

Assim como no projeto de Pinochet e no pensamento político do período da Guerra Fria, o bolsonarismo utiliza o anticomunismo — ou a oposição à esquerda e ao "marxismo cultural" — como um discurso unificador para mobilizar sua base política e justificar medidas de exceção ou o de endurecimento institucional.

No entanto, existem diferenças entre os dois. Enquanto Pinochet governou como um ditador sem limites constitucionais próprios de uma democracia, o governo Bolsonaro atuou dentro das regras da Constituição de 1988 e dentro da estrutura da democracia representativa, com um Congresso ativo e a fiscalização do Poder Judiciário. Pinochet impôs reformas estruturais radicais e rápidas, pois não enfrentava uma oposição política e sindical organizada em condições democráticas. No Brasil, o projeto liberal de Guedes sofreu imitações, negociações e adaptações devido ao jogo político democrático.

O bolsonarismo se aproxima, no plano ideológico, do que se denomina “liberalismo autoritário”, ao associar a defesa do livre mercado à exaltação da autoridade e da ordem moral. Na prática, porém, diferencia-se da experiência chilena por ter operado sob a estrutura institucional da democracia brasileira e por depender da mobilização contínua de sua base social. Não nos esqueçamos da tentativa de golpe que se seguiu à derrota eleitoral de Bolsonaro em 8 de janeiro de 2023.

Pedro Doria é um jornalista muito competente e editor do Meio, plataforma jornalística da qual sou assinante. O Meio é uma startup focada em newsletters diárias e conteúdos em vídeo e podcast. É um Doria se destaca na cobertura de temas como tecnologia, transformação digital, política e história do Brasil. Ao longo de décadas de carreira, consolidou-se como uma voz relevante na análise do impacto das novas redes e tecnologias na sociedade e na política.

O livro não é um livro acadêmico,  mas um ensaio jornalístico. Seu estilo se aproxima do  New Journalism, corrente que combina recursos literários e técnicas jornalísticas. Doria reproduz diálogos entre personagens históricos reconstituídos a partir de depoimentos dos próprios envolvidos, como se estivéssemos lendo um romance. Para entender o New Journalism, pensem em Ruy Castro, Gay Talese, Tom Wolfe e Truman Capote, autor do famoso livro “A Sangue Frio”, que mistura literatura com jornalismo. Pedro Doria acerta em cheio ao adotar nesse estilo narrativo.

A pesquisa que fundamenta o livro recorre a arquivos, jornais e registros da década de 1930 para narrar como o movimento integralista nasceu, cresceu, tentou influenciar o governo de Getúlio Vargas e acabou reprimido após a tentativa de golpe de 1938, conhecida como Levante Integralista.

No capítulo de abertura, intitulado “Antes de Começar”, eu gostaria de fazer uma introdução antes de abordar um fenômeno que antecede o bolsonarismo: o fenômeno Donald Trump, que viria a se tornar uma grande referência para o bolsonarismo. Pedro Doria menciona esse fenômeno com muita competência.

O trumpismo se constrói a partir da oposição entre a chamada "elite política e cultural" — representada, pelos grandes jornais, pelas corporações e pelas universidades — e o "povo esquecido". O movimento se apresenta como uma força que busca combater a corrupção e os interesses do sistema tradicional, sintetizados na expressão "drain the swamp" ("drenar o pântano").

Quais são as principais características desse fenômeno em termos econômicos e de política externa?

Em primeiro lugar, destacam-se o protecionismo, a resistência a compromissos multilaterais (como OTAN, ONU, Brics e os acordos climáticos) e uma diplomacia transacional, baseada em trocas e acordos diretos, com foco nos custos e benefícios imediatos para os Estados Unidos. Essa abordagem privilegia a autonomia e a soberania do país. Trump também questiona a legitimidade de decisões de organismos internacionais que, em sua visão, possam limitar a liberdade de ação do governo norte-americano. O lema é “America First” (“América em primeiro lugar”).

Em outras palavras, em vez de negociar com vários países ao mesmo tempo (onde cada país precisa fazer concessões), Trump privilegia as negociações bilaterais (de país para país). Na visão dele, os Estados Unidos têm maior poder econômico e militar para pressionar individualmente seus parceiros e obter condições mais favoráveis do que aquelas que conseguiriam em negociações coletivas. 

A visão econômica de Trump também se caracteriza pela defesa do protecionismo comercial e pelo uso de tarifas alfandegárias como instrumentos para proteger as indústrias nacionais. Como a ordem econômica internacional estabelecida no pós-Segunda Guerra Mundial favoreceu a expansão do comércio global e a integração dos mercados, Trump considera que determinadas regras e instituições do sistema multilateral restringem sua capacidade de implementar políticas protecionistas.

Outra característica do trumpismo é a oposição radical às pautas identitárias progressistas e a forte rejeição à imigração. 

E o bolsonarismo? 

O bolsonarismo pode ser compreendido como uma adaptação de elementos do nacional-populismo de Donald Trump à realidade social e política brasileira. Ambos os movimentos se apresentam como forças externas ao sistema (outsiders), em luta contra com o establishment, a grande imprensa e as elites políticas e intelectuais tradicionais.

.Há também um apelo patriótico nos slogans dos dois movimentos: “Make America Great Again” (MAGA, “Tornar a América grande novamente”) e “Brasil acima de tudo”. Ambos recorreram a canais alternativos de comunicação, especialmente às redes sociais, como o Twitter (hoje X), para se comunicar diretamente com seus apoiadores e ampliar seu alcance político.

Os dois movimentos consolidaram alianças importantes com setores evangélicos e conservadores de seus respectivos países. Além disso, seus discursos frequentemente expressam desconfiança em relação a instituições democráticas, ao Poder Judiciário e aos processos eleitorais tradicionais.

As eleições foram contestadas após as derrotas de Trump, em 2020, e de Bolsonaro, em 2022. Nos dois casos, a contestação dos resultados culminou em invasões às sedes dos Poderes, em episódios análogos: o ataque ao Capitólio dos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021, e as invasões à Praça dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.

Durante a pandemia, os dois governos minimizaram inicialmente a gravidade da COVID-19 e promoveram tratamentos sem comprovação científica. Também criticaram as medidas de restrição à circulação adotadas por governadores e prefeitos e questionaram a eficácia ou a obrigatoriedade das vacinas.

“A total falta de empatia com os mortos deixou mais clara, no presidente Bolsonaro, aquilo que os freudianos chamam de pulsão da morte. Essa força que vem de dentro, uma violenta atração pela destruição não só da vida, mas também do outro. Do diferente. É alguém que compreende a liberdade como permissão a violência, como imposição de um jeito único de ser. Tampouco os integralistas conseguiam lidar com a liberdade no sentido liberal-democrata – aquele espaço permitido a cada um para buscar o seu melhor, com tolerância por desacordos. Aquele foi um tempo em que esse ideal iluminista, o da tolerância por diferenças, o do culto ao debate, foi questionado de frente. Foi um tempo como este nosso. Os afetos do bolsonarismo são fascistas, embora o bolsonarismo tenha traços distintos daquele fascismo.” (pág. 12)

Gostaria de acrescentar mais uma convergência entre Trump e Bolsonaro. Qual seria? “É a economia, estúpido!” A frase, em sua versão original — “It's the economy, stupid” — foi cunhada por James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton, nos Estados Unidos, em 1992. A ideia é simples: quando a economia vai mal, o descontentamento social tende a aumentar, criando condições para mudanças no cenário político.

O economista Joseph Stiglitz – vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2001 e ex-economista-chefe do Banco Mundial – estabelece uma relação direta entre as políticas econômicas da era Obama e o contexto que favoreceu a ascensão de Trump. Para Stiglitz, a ascensão de Trump não pode ser explicada apenas por fatores culturais ou pela retórica populista. Ela também deve ser compreendida à luz das falhas do modelo econômico vigente e da percepção de que o sistema favorecia os interesses das elites financeiras.

Trilhões de dólares foram mobilizados em medidas de socorro ao sistema financeiro durante a crise, enquanto milhões de trabalhadores e famílias perderam suas casas, seus empregos e suas economias, sem receber assistência governamental equivalente. Essa assimetria criou uma enorme insatisfação da classe trabalhadora americana, que percebeu que as regras do jogo eram injustas e favoreciam as elites em detrimento dos cidadãos comuns.

Segundo Stiglitz, as políticas de globalização adotadas ao longo de décadas por governos democratas, de Bill Clinton a Barack Obama, favoreceram as grandes corporações multinacionais, mas deixaram desamparados muitos trabalhadores industriais do interior dos Estados Unidos. A desregulamentação e a livre comércio ilimitado contribuíram para a perda de empregos na indústria manufatureira, afetando estados como Pensilvânia, Michigan, Ohio e Wisconsin.

Trump soube captar o ressentimento e a estagnação econômica dessa população, formada pelas chamadas “pessoas deixadas para trás pela globalização”. Prometeu protecionismo e a recuperação dos empregos industriais — uma demanda que, em sua avaliação, o discurso tradicional do Partido Democrata havia negligenciado.

Stiglitz argumenta que, embora Obama representasse uma mudança no plano social e cultural, seu governo manteve aspectos importantes do consenso econômico neoliberal consolidado nas décadas de 1980 e 1990. 

Ao não reestruturar o mercado de trabalho, não combater a crescente desigualdade de renda e não oferecer uma rede de proteção social mais robusta durante seus oito anos de governo, a gestão Obama deixou o terreno fértil para que um populista de extrema-direita oferecesse respostas fáceis — ainda que ilusórias — ao desespero econômico de parte da população. 

Na visão de Stiglitz, a eleição de Trump, em 2016,  expressou um voto de protesto da classe trabalhadora. Muitos eleitores não necessariamente apoiavam todas as ideias do candidato republicano, mas destruir desejavam romper com o status quo político, associado às elites de Washington e às grandes corporações, que prosperavam enquanto a vida dos cidadãos comuns piorava.

"Trump é o resultado direto do fracasso do neoliberalismo." 

“Povo, poder e lucro: capitalismo progressista para uma era de descontentamento” é o livro em que Stiglitz desenvolve essa análise e chama a atenção para as consequências econômicas e políticas desse processo. Essa obra ainda não foi resenhada aqui, mas em breve será.

E o bolsonarismo? Também pode ser compreendido à luz da crise econômica e das consequências políticas da Operação Lava Jato. Após um período de expansão do consumo na década de 2000, o Brasil entrou em uma profunda recessão, que provocou aumento do desemprego e inflação, atingindo a classe média e os trabalhadores urbanos. A sensação de que um futuro promissor havia sido interrompido alimentou o ressentimento em relação aos governos da época e o desejo de uma ruptura política.

A Lava Jato, iniciada em 2014, expôs esquemas de corrupção envolvendo grandes empreiteiras, empresas estatais e partidos políticos, com destaque para o PT, embora as investigações também tenham atingido outras legendas do establishment. A operação desgastou a imagem da classe política tradicional perante a opinião pública. O combate à corrupção tornou-se uma das pautas centrais do debate público, alimentando o sentimento antipetista e antissistema. Jair Bolsonaro, que esteve à margem dos grandes escândalos de corrupção partidária ao longo de seus mandatos parlamentares, conseguiu se posicionar como o principal nome viável para canalizar esse eleitorado antissistema.

Em suma, a combinação entre a recessão econômica e as consequências políticas da Lava Jato criou a "tempestade perfeita" e o vácuo de representatividade que permitiram ao bolsonarismo emergir como uma força política dominante em 2018.

Pedro Doria nos faz a seguinte pergunta: existe uma relação entre a Ação Integralista Brasileira e o bolsonarismo? Para explorá-la, o auto nos conduz a outra associação  histórica: a de Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista brasileira, com o fascismo de Mussolini.

“O fascismo não nasceu totalitário, mas se tornou totalitário”. 

Antes de entrar propriamente nesse assunto, é necessário compreender o contexto histórico em que se desenvolveu a Primeira República brasileira. Proclamada por meio de um golpe de Estado em 1889, ela durou até 1930, cerca de 41 anos. Seus primeiros anos foram marcados pela instabilidade política dos governos dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. A partir de 1894, com Prudente de Morais, primeiro presidente civil, iniciou-se uma nova etapa de consolidação do poder das oligarquias estaduais.

Prudente de Morais herdou um país em convulsão. No Rio Grande do Sul, a Revolução Federalista, iniciada em 1893, ainda estava em curso. O país também enfrentava conflitos e disputas territoriais: a ilha da Trindade, no litoral do Espírito Santo, foi ocupada pelos britânicos em 1895, e a França mantinha uma disputa de fronteiras com o Brasil na região do Amapá. Para agravar o quadro de instabilidade, ocorreu a Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, entre 1896 e 1897. E, ainda, a Argentina questionava limites de fronteira com o Brasil.

Durante seu governo, Prudente de Morais solucionou esses conflitos internacionais por meio de medidas políticas, militares e diplomáticas. Nesse cenário, surgiu um diplomata conhecido como Barão do Rio Branco, que teve papel decisivo nas negociações das fronteiras do país.

O novo regime republicano garantiu às oligarquias estaduais amplo poder regional, em troca de apoio político ao governo federal. Nesse sistema, as fraudes eleitorais, o voto aberto e o controle dos eleitores pelas lideranças locais contribuíam para a manutenção das elites no poder. Foi nesse contexto que se consolidou o arranjo político conhecido como República do Café com Leite, a alternância no poder, no Palácio do Catete, entre os estados de Minas Gerais e São Paulo.

Em síntese, esse pacto favorecia a permanência de um grupo restrito no controle do Estado, limitava a participação política efetiva da população e desconsiderava as aspirações de setores urbanos emergentes. Sustentava-se em mecanismos como as fraudes eleitorais, o coronelismo e a troca de apoio entre as oligarquias regionais e o poder central.

O autor mostra que esse modelo de dominação não era estático e vinha sofrendo pressões crescentes. A década de 1920 foi marcada por sucessivas revoltas, como as do Tenentismo), que expressavam o profundo descontentamento de setores militares e da sociedade civil com o monopólio político paulista-mineiro. A política do café com leite gerava um sentimento generalizado de que o liberalismo clássico praticado na República Velha atendia apenas aos interesses de elites egoístas, mantendo o país vulnerável e atrasado. As revoltas dos Tenentes, jovens oficiais do Exército, contribuiu para enfraquecer a política dos governadores.

Outros estados politicamente relevantes e economicamente importantes também demonstravam crescente insatisfação. O arranjo que assegurava aos governadores influência sobre a política local, mas restringia a participação nas decisões do poder central, já não satisfazia a todos. 

O golpe final nesse arranjo ocorreu na sucessão presidencial de 1930, quando o presidente Washington Luís, paulista, rompeu a lógica de alternância ao indicar outro paulista, Júlio Prestes, em vez de apoiar um candidato capaz de preservar o acordo político com  Minas Gerais.

 

A República do Café com Leite rachou: as próprias oligarquias se fragmentaram, abrindo espaço para a união entre mineiros, gaúchos e paraibanos na Aliança Liberal, que pavimentou o caminho para a Revolução de 1930. A derrocada da política do café com leite simbolizou o colapso de um modelo de Estado liberal oligárquico e abriu espaço para uma nova configuração de poder. Esse cenário favoreceu a ascensão de Getúlio Vargas e, logo em seguida, a fertilização do terreno político para o surgimento de correntes extremistas e autoritárias, entre elas o movimento integralista abordado no livro. Paralelamente, ganhava relevância o Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922.

 

Circunstâncias políticas no Brasil para o surgimento do integralismo

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi um dos acontecimentos mais marcantes da história de São Paulo e do Brasil no século XX. Ocorreu em um momento de transição política profunda e teve relação direta (e curiosa) com a trajetória de Plínio Salgado e com o nascimento do integralismo.

 

Após a Revolução de 1930, que colocou Getúlio Vargas no poder como chefe de um governo provisório,  São Paulo perdeu o domínio político que detinha durante a República Velha. Vargas governava por decretos, manteve o Congresso Nacional fechado e nomeou interventores para governar os estados, muitos deles militares de fora das regiões em que atuariam.

A elite política paulista, reunindo o antigo Partido Republicano Paulista (PRP) e o dissidente Partido Democrático (PD) na chamada Frente Única Paulista, passou a exigir a constitucionalização do país, com a elaboração de uma nova Constituição), maior autonomia para os estados e a nomeação de um interventor civil e paulista. 

Diante da resistência de Vargas, em 9 de julho de 1932, São Paulo pegou em armas em um levante de grandes proporções. Os paulistas esperavam o apoio de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, mas isso não aconteceu. Isolado, o estado lutou por quase três meses, até a derrota militar, no início de outubro de 1932.

 

Apesar da derrota militar, o movimento teve enorme peso político, forçando Vargas a convocar uma Assembleia Constituinte, que resultou na Constituição de 1934. 

A reação de Plínio Salgado à Revolução Constitucionalista foi de oposição e distanciamento inicial, pois ele via o conflito por uma ótica ideológica própria. Pouco antes da eclosão da revolta, Plínio publicava, no jornal paulista, A Razão, artigos contrários à constitucionalização liberal defendida pelos constitucionalistas.

Para Plínio e seu grupo, o problema do Brasil não era a falta de uma Constituição liberal, mas sim a necessidade de um Estado forte e centralizado. O tom de seus artigos gerou tanta revolta entre ativistas pró-Constituição que a sede do jornal chegou a ser incendiada em São Paulo. 

Apesar de não ter apoiado a Revolução Constitucionalista, Plínio soube aproveitar o clima emocional e o "caldo de cultura" que se formou após o conflito.

 

Ainda em outubro de 1932, após a rendição paulista, Plínio Salgado e seus aliados aproveitaram a conjuntura de desorientação política, o orgulho ferido e o sentimento patriótico que que tomou conta da classe média e dos intelectuais paulistas. A Sociedade de Estudos Políticos (SEP), criada meses antes, serviu de base para a organização do novo movimento.  

 

Em 7 de outubro de 1932, foi lançado o Manifesto de Outubro, oficializando o nascimento da Ação Integralista Brasileira (AIB). 

Em suma, enquanto a elite tradicional de São Paulo lutava em 1932 para restaurar a velha ordem constitucional liberal, Plínio Salgado usou a ruína daquele movimento para canalizar a frustração da juventude e da classe média urbana rumo à construção do maior movimento fascista da história do Brasil.

 

Matriz ideológica do integralismo

 

Mussolini foi a figura central na criação do fascismo italiano. No entanto, antes de o fascismo se consolidar no poder como regime político, o Futurismo italiano já havia surgido como uma vanguarda artística e literária que exaltava a velocidade, a tecnologia, a juventude, a indústria e a violência moderna.

Filippo Tommaso Marinetti, fundador do movimento, proclamou a guerra como “a única higiene do mundo”, em uma visão que combinava com a estética da modernidade com a ruptura com o passado tradicional da Itália.

Na juventude, Mussolini foi um militante socialista radical. Atuou como jornalista e chegou a dirigir o Avanti!, principal jornal do Partido Socialista Italiano. Durante a Primeira Guerra Mundial, tanto Mussolini — que rompeu com o Partido Socialista e acabou expulso da agremiação — quanto os futuristas foram fervorosos “intervencionistas”, defendendo a entrada da Itália na guerra. Em 1914 e 1915, os dois grupos participaram de manifestações em favor da intervenção italiana na guerra.

Marinetti fundou um partido que defendia o fim da monarquia, o anticlericalismo e reformas radicais. Em 1919, o movimento futurista fundiu-se com os Fasci Italianios . Marinetti participou da elaboração do primeiro partido fascista. Os futuristas desejavam uma revolução cultural total e anárquica, enquanto o fascismo, ao chegar ao poder, em 1922, passou a priorizar a ordem, a hierarquia e a restauração de valores tradicionais e da herança do Império Romano.

O Futurismo forneceu ao fascismo uma linguagem visual e simbólica, com o culto à velocidade, à juventude e à ação e à violência. Em troca, Mussolini usou o Futurismo para dar ao seu regime uma fachada de modernidade e inovação, embora o fascismo real tenha se tornado muito mais conservador e autoritário do que o projeto anárquico idealizado pelos primeiros futuristas.

“Fascio não era um termo novo na esquerda italiana. Aliás, tampouco na esquerda europeia. Quer dizer, literalmente, “um feixe de varas”. Historicamente, remete à fasces latina, uma ferramenta simbólica, uma lâmina de machado não atada a uma única vara, mas um conjunto delas, que era carregada, em desfile, à frente dos magistrados romanos. A ideia que o símbolo passa é a da força que nasce da união do povo. Marianne, a mulher ícone da República francesa, foi retratada inúmeras vezes com as fasces à mão, união solidária do povo contra a aristocracia e o clero. Não era raro que grupos de trabalhadores italianos, no oittocento , se organizassem em conjuntos chamado fasci, no plural, ou a fascio no singular. União. Até hoje em inglês e francês, o termo para sindicato é union, em italiano é unione.”(pág. 34)

Durante sua participação na Primeira Guerra Mundial, , a Itália 600 mil homens, e 1 milhão de soldados ficaram feridos. A mão de obra masculina diminuiu 7% nesse período. 

Em 1919, Mussolini criou o Fasci Italiani di Combattimento (conhecido em português como Fasci Italianos de Combate). O grupo explorava o ressentimento dos italianos com os resultados insatisfatórios obtidos na Primeira Guerra e o medo do avanço do comunismo.

Mussolini organizou milícias paramilitares que recorriam à violência contra os sindicatos, partidos de esquerda e opositores políticos. Em outubro de 1922, os camisas-negras marcharam em direção à capital italiana exigindo que Mussolini assumisse o poder. O rei Vítor Emanuel III, em vez de autorizar a repressão militar aos fascistas, convidou-o a formar um governo como primeiro-ministro.

Mussolini foi, aos poucos, desmantelando as instituições democráticas: proibiu partidos de oposição, fechou jornais independentes, censurou a imprensa e instituiu uma polícia política. Passou a ser conhecido como Il Duce (O Líder). Implementou o corporativismo econômico e investiu pesadamente em propaganda, no culto à personalidade e em grandes obras públicas. Assinou, em 1929, o Tratado de Latrão, que criou o Estado da Cidade do Vaticano.

“ O fascismo teve de destruir sua própria dissidência se era para se tornar um “partido unitário”. Lembraria o comunista Palmiro Togliatti. “ Não poderia se manter no poder  com a mesma estrutura que o levara ao poder quer debate político interno. Quando uma política era mudada, seus os outros”. O fascismo não nasceu totalitário. Mas, no poder, assim se tornou. “ Itália senhores, quer paz, quer tranquilidade, calma para trabalhar, disse Il Duce. “Com força se necessário”.  (pág. 58)

E no Brasil? Como isso aconteceu? Como o integralismo e o fascismo italiano se encontram? A formação do integralismo no Brasil não é retratada como um corpo estranho, importado da Europa, mas como um fenômeno que encontrou um campo fértil nas tensões e inquietações da sociedade brasileira.

“O Fascio paulistano, originalmente, era só a reunião de três ou quatro deslocados que procuram levar vantagens em seus negócios através de lisonjas ao Duce”, descreveu um diplomata. Mas cresceu com o tempo. O organismo promovia festas, apresentava peças de teatro e filmes de língua natal. Por isso, era frequentado por nostálgicos, mesmo que a princípio não se considerassem fascistas. (pág. 62)

A figura central na criação da Ação Integralista Brasileira ( AIB) foi Plínio Salgado, um intelectual, jornalista e escritor paulista que participou  da Semana de Arte Moderna de 1922. 

Plínio Salgado, fundador do movimento integralista, via o Brasil sob uma ótica católica, tradicionalista e espiritualista. Para ele a identidade brasileira devia se basear na ordem, na fé, na coesão moral e na autoridade. Para ele, o elemento indígena em sua obra era idealizado como um símbolo de pureza e força do passado, usado para fundamentar uma ideia de “unidade e raça” em prol da nação.

Plínio Salgado passou dos círculos modernistas ligados ao Verde-Amarelismo e ao movimento Anta à militância na extrema direita.  Após viajar para a Itália, em 1930, e se fascinar por Benito Mussolini, fundou a Ação Integralista Brasileira (AIB) em 1932. Defendia um Estado autoritário, antiliberal, anticomunista, centralizado e militarizado.

 A Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, teve Plínio Salgado e Oswald de Andrade entre seus participantes. Enquanto Plínio Salgado via o Brasil por uma ótica nacionalista e espiritualista. Oswald de Andrade propôs a antropofagia: a ideia de que o Brasil deveria “deglutir” a cultura estrangeira, assimilá-la e transformá-la em algo autenticamente brasileiro. Era uma visão irônica, anti-imperialista e contrária ao passadismo. Ele também valorizava o elemento indígena como força de ruptura, liberdade e irreverência contra os valores europeus e burgueses.

Oswald aproximou-se do pensamento marxista e filiou-se ao Partido Comunista nos anos 1930, colocando a sua produção artística a serviço da crítica social e do combate às elites agrárias.

“Não se tratava de um debate no plano das ideias abstratas ou mesmo estéticas. Os verde-amarelistas diziam não querer jogar o passado fora. Oswald propunha uma busca por inspiração e diálogo, com as vanguardas europeias. Olhava para o mundo. Via o Brasil no mundo. Cosmopolita. Plínio, Menotti e Cassiano queriam era voltar-se para dentro, buscar no passado, na herança, na tradição e no presente um Brasil verdadeiro. “Eu que tenho assento na seção mais elegante do Correio, sinto em mim uma alma tão próxima da gente rude da nossa terra”, escreveu certa vez  Menotti. “ Ao ouvir o pranto dos violões, se alvoroçam  meus nervos e revi noites claras de luas nos terreiros da fazenda, onde de cócoras, triste e noctâmbulo, o Belarmino, meu ex-pajem, arrancando o pinho toda a angústia profunda da sua alma de caboclo cantava trovas ingênuas.” Alma de caboclo é expressão que todos verde-amarelistas usariam muito. “ O Brasil começou a interessar, com a sua paisagem, a sua gente, suas lendas e tradições, seus dramas, sua luta, seus mistérios africanos e tupis, seu linguajar, suas toadas e canções, a índole e a cadência de suas vozes bárbaras”. As imagens da vida em fazenda, das cócoras herdadas dos tupis, do caboclo não eram apenas emotivas. Eram projeto”.  Queríamos opor um “ismo” brasílico bem contagiante, bem visual, aos “ismos” europeus que alguns arautos da Semana começaram a importar, escreveu Cassiano.

Estavam rompidos. E o rompimento não era artístico, era político. Oswald e aqueles que mais tarde se batizaram antropofagistas eram revolucionários e internacionalistas. Plínio  os que adiante se batizariam de integralistas eram nacionalistas e, no mínimo, conservadores. Mas todos modernistas. Todos apontando uma visão de futuro, fosse baseada em vanguardas, fossem tradição.” (pág. 85; pág. 86)

Enquanto a Semana de Arte Moderna de 22 reuniu diversos artistas em prol da renovação cultural, a década de 1930 dividiu esse movimento: Oswald de Andrade usou o modernismo para contestar a ordem vigente pela via da esquerda e do experimentalismo, enquanto Plínio Salgado usou o modernismo como trampolim para a criação do fascismo brasileiro.

Antes de fundar o Ação Integralista Brasileira (AIB) , Plínio Salgado viajou à Europa, onde visitou a Itália de Benito Mussolini e absorveu os conceitos do fascismo italiano. Ele uniu esse arcabouço ideológico a um forte messianismo religioso e a um patriotismo exagerado, tipicamente brasileiro. O integralismo se apresentava como uma doutrina que prometia salvar a alma do Brasil, misturando catolicismo tradicional, nacionalismo extremo e autoritarismo estatal.

O movimento Verde-Amarelo (que mais tarde se desdobrou no Grupo da Anta) surgiu em 1926 como uma reação direta ao Manifesto Pau-Brasil de Oswald de Andrade. O grupo foi fundado por Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo e Cândido Mota Filho. Embora todos tivessem participado da Semana de 22, esses autores começaram a se incomodar com o que consideravam um "afrancesamento" ou excesso de influência europeia nas ideias de Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Para o grupo Verde-Amarelo, a proposta antropofágica de Oswald ainda dependia de teorias e vanguardas trazidas de Paris para pensar o Brasil. Eles defendiam um "nacionalismo primitivo", sem influências externas, focado em uma exaltação emotiva, patriótica ao extremo e sem crítica da história e da terra brasileira. 

Em 1929, o movimento publicou o Manifesto Nheengaçu e adotou a anta como símbolo, animal associado à mitologia indígena tupi, que representava a força da terra e o caráter “puro” do interior do Brasil. O grupo passou a defender o culto às tradições, ao tupi e à religiosidade, rejeitando qualquer crítica social ou ironia sobre o passado do país.

 “Em oposição a esse Brasil urbano havia, para ele, outro. “ Apesar de todas as luzes de uma civilização cosmopolita”, pôs de epígrafe no início da segunda parte, “ o Boitatá acende o seu fogo no sertão”. O herói de Plínio Salgado era o sertanejo. O caboclo descendente dos bandeirantes que abriram o caminho para a conquista do país.” (pág. 65; pág. 66)

A Primeira Guerra Mundial expôs as fragilidades  das instituições democráticas tradicionais. Ao longo dos anos 1920, diversos governos parlamentares e liberais da Europa enfrentaram enorme instabilidade política, trocas constantes de gabinetes e incapacidade de solucionar problemas sociais gravíssimos, como o desemprego e a inflação galopante). Criou-se a narrativa de que o sistema liberal era "lento, corrupto e incapaz de agir de forma decisiva".

“A eficácia da democracia liberal estava sendo questionada. A grande Guerra, as fomes, o desemprego, a brutal desigualdade de renda e a farsa das eleições nas quais poucos eram eleitores de governos nos quais pobres não tinham voz, governos que se mostravam incapazes de equilibrar seus países, de impedir rupturas – tudo era mostra de que a democracia liberal estava em crise. Talvez porque fosse fraca. Talvez porque fosse, na essência, corrupta. Talvez porque simplesmente não funcionasse. Muitos começaram a vê-la como um artefato de finais do século XVII. Acreditavam na necessidade de um novo regime político. Moderno. Eficiente. É nesse ambiente que nascem os fascistas”.(pág. 68)

Com a  Revolução Bolchevique de 1917 e a fundação da União Soviética, o liberalismo passou a ser atacado pela esquerda, que o associava ao modelo explorador do capitalismo burguês. Para a direita conservadora e as classes médias, as democracias liberais pareciam incapazes de conter o avanço do comunismo internacional, o que gerava um apelo por governos autoritários fortes que funcionassem como uma "barreira".

A democracia liberal brasileira da Primeira República era vista como uma farsa oligárquica, (marcada pelo voto de cabresto e pela "política dos governadores"). Plínio Salgado e outros intelectuais que viriam a fundar o integralismo defendiam que nem o capitalismo liberal (visto como individualista e materialista) nem o comunismo (visto como ateu e destrutivo) serviam ao Brasil. Eles viam no fascismo e no nacionalismo autoritário uma resposta "moderna" e moralizadora para superar as falhas da democracia tradicional.

“Formar o homem nacional é o primeiro dever do Estado” (pág. 77)

A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi formalmente fundada em outubro de 1932, após o lançamento do Manifesto de Outubro. O movimento rapidamente adotou uma forte identidade visual e comportamental copiada e adaptada dos modelos europeus. Os integralistas usavam camisas-verdes, continências fascistas e adotaram a letra grega sigma (Σ) como símbolo oficial, representando a “soma” das energias da nação em torno do Estado.

A saudação oficial era “Anauê!”, (termo de origem tupi que os integralistas interpretavam como “você é meu irmão”). O movimento organizava marchas militarizadas, rituais coletivos, desfiles e comícios grandiosos.

Doria destaca que a AIB não era um grupo marginal; pelo contrário, tornou-se o primeiro movimento político de massas da história do Brasil. Atraiu milhares de adeptos em vários estados, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. Sua base era formada sobretudo pela classe média urbana, jovens estudantes, oficiais de baixa patente das Forças Armadas e intelectuais de destaque, como o jurista Miguel Reale e o escritor Luís da Câmara Cascudo).

 

 A derrocada do integralismo

Os integralistas, liderados por Plínio Salgado, apoiaram a permanência de Getúlio Vargas no poder e colaboraram para a criação do clima de pânico anticomunista, alimentado pela difusão do falso Plano Cohen). A AIB acreditava que, após o golpe que instituiria o Estado Novo, em novembro de 1937, Vargas nomearia Plínio Salgado para um cargo de grande relevância, como o Ministério da Educação, e incorporaria a ideologia integralista à doutrina oficial do Estado autoritário.

O Plano Cohen foi um documento falso, divulgado em setembro de 1937 pelas forças de segurança do governo brasileiro, para simular a existência de uma grande conspiração comunista no país. Esse documento serviu como pretexto para que Getúlio Vargas decretasse o golpe de Estado em 10 de novembro de 1937, dando início à ditadura do Estado Novo (1937–1945). 

O “Plano Cohen” pode ser comparado ao também falso “Protocolos dos Sábios de Sião. Elaborado pelo capitão Olímpio Mourão Filho, o documento foi instrumentalizado pela cúpula militar e por Getúlio Vargas para justificar o golpe que instituiu o Estado Novo.  Mourão Filho alegou posteriormente que havia elaborado o texto como um mero exercício de simulação tática, para avaliação interna da AIB sobre como os comunistas poderiam agir.

Os Protocolos dos Sábios de Sião foram forjados pela polícia secreta do Império Russo no início do século XX para alimentar o antissemitismo, canalizar a insatisfação popular contra a população judaica e defender o czarismo.

Mas, para Vargas, o integralismo era apenas um instrumento conveniente para desestabilizar as esquerdas e consolidar seu próprio poder personalista . Logo após a decretação do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, Vargas fechou o Congresso e proibiu todos os partidos políticos, incluindo a própria Ação Integralista Brasileira.

Vargas não tinha intenção de dividir o poder com um movimento de massas organizado e dotado de milícias próprias. Plínio Salgado tentou reorganizar a AIB sob a fachada de uma "associação cultural", mas Vargas neutralizou a tentativa rapidamente.

Sentindo-se traídos e marginalizados, os setores mais radicais e militarizados do integralismo tentaram uma resposta desesperada. Em maio de 1938, os integralistas organizaram um ataque armado ao Palácio Guanabara, com o objetivo de depor Vargas ou assassiná-lo. O levante foi mal planejado e duramente reprimido pelas forças de segurança de Vargas. O fracasso da insurreição destruiu o movimento. Seus líderes foram presos ou exilados, como foi o caso de Plínio Salgado.

 

Plínio e Bolsonaro

 

Esse é o último capítulo do livro, no qual Pedro Doria compara Plínio Salgado e Jair Bolsonaro. Para Doria, o bolsonarismo entra nessa análise não como uma cópia exata do integralismo dos anos 1930, mas como o herdeiro contemporâneo de um vocabulário, de uma estética e de um conjunto de ideias que começou a ser desenhado por Plínio Salgado. Os dois movimentos têm em comum o lema “Deus, Pátria e Família.

Pedro Doria mostra que Plínio Salgado construiu a Ação Integralista Brasileira (AIB), criando a sensação de urgência em torno de uma suposta "ameaça comunista" iminente. No bolsonarismo, essa tática reaparece sob o discurso do combate ao "marxismo cultural", à "ameaça vermelha" e ao progressismo nas pautas de costumes, servindo como a principal cola ideológica do movimento. 

O integralismo de Plínio Salgado era corporativista, propondo um Estado forte que controlasse a economia e a sociedade. O bolsonarismo, por sua vez, aliou o conservadorismo moral a uma agenda de livre mercado e desregulamentação econômica, tendo Paulo Guedes à frente, economista que trabalhou no Chile na época de Pinochet).

O modelo econômico neoliberal implementado no Chile pelos chamados "Chicago Boys" (grupo de economistas formados na Universidade de Chicago, assim como Guedes) serviu de inspiração para as ideias de Guedes sobre reformas liberais no Brasil.

Nos anos 1930, AIB operava com militância física uniformizada ("camisas-verdes") e marchas de rua de estilo miliciano. O bolsonarismo, por sua vez, baseia sua capacidade de organização e engajamento principalmente no ambiente digital e nas redes sociais, além de grandes mobilizações populares cívicas.

“Assim, voltamos ao coração daquilo que define o fascismo. É simultaneamente reacionário e revolucionário. Não parece haver no discurso bolsonarista, o componente revolucionário. Não quer construir um Estado radicalmente novo. Quer apenas destruir sem dar pistas do que colocar no lugar. Porém há muito do reacionário; porque o espírito de uma cultura política brasileira porque o espírito de uma cultura política: porque o espirito de uma cultura política brasileira a mais primitiva, a mais remota, está vivo. Ardendo para ser visto. Está em só aceitar. Está em só aceitar a tradicional família cristã, de pai, mãe e filhos. Está em, só aceitar a tradicional família cristã, de pai, mãe e filhos. Está na plena identificação com o lado mais primitivo do mundo agro, a raiz da economia brasileira. Está no namoro com a monarquia e seus símbolos – um Orleans e Bragança quase foi candidato a vice-presidente. Mas vai além. Porque esse garimpeiro, esse madeireiro que quer derrubar a mata para fazer dela um pasto, para nela plantar e vender, para repassar a madeira e o metal, então talvez revender a terra que conquistou com “as próprias mãos” no que sua visão era só coisa abandonada – isto é também um espírito brasileiro. Radicalmente brasileiro, aliás, embora perdido há muito no passado. Porque assim eram os bandeirantes.

Esse apego que se recusa a permitir que a sociedade avance e se transforme, que quer impor os trejeitos se recusa a permitir a sociedade avance e se transforme que a sociedade avance  se transforme, que que se impor os trejeitos do passado, isto é reacionário. Jair Bolsonaro é reacionário no talo. O argumento dá voltas e se encontra. Plínio queria regras, muitas regras, muitas regras. Bolsonaro deseja sua completa ausência. A democracia liberal ocorre entre dois extremos.” (pág. 256)

Bolsonaro é fascista?

Doria cita o historiador Robert Paxton, que sugere que:

Mesmo nos anos 1930, os fascismos eram tão diversos que, ele argumenta, é mais fácil enxergá-los pelas paixões que moviam, por aquilo que os motivava que os motivavam e por como se viam, do que pelas ideias. Assim, não é relevante se um é estatista e o outro, não. Importa, isto sim, que o fascismo acredita que a sociedade está em declínio, que ele se enxerga humilhado, que se percebe como vítima do sistema. Que aí contra-ataca com nacionalismo, que arma seus militantes, cultua a unidade cultura e exige fidelidade. Que se relaciona com as elites tradicionais, mas há desconforto nesse relacionamento. Respira violência. No momento em que tem força suficiente para tal, atropela restrições éticas ou legais.

... E Jair Bolsonaro se encaixa na definição que Paxton escreveu muitos anos antes. Encaixar é pouco. É como se nada de original houvesse em Bolsonaro. É como se a definição tivesse sido  escrita  para ele.

Então é fascista? A resposta já foi dada nesta conclusão. Onde há semelhanças há diferenças. É a única resposta realmente possível. Porque no fundo, depende de como se define a palavra fascismo. (pág. 256; pág. 257)

Finalizo esta resenha citando Habermas, um dos principais pensadores da Escola de Frankfurt e herdeiro de uma visão marxista com a qual eu me identifico inteiramente. Ele manteve uma postura de crítica severa à URSS, à China, à Coreia do Norte, ao Camboja e a todos os regimes autocráticos de esquerda. 

Embora Habermas se identificasse politicamente como um homem de esquerda e socialista reformista, ele considerava que esses experimentos de "socialismo real" falharam justamente por terem suprimido a democracia, as liberdades civis e o debate público.

A visão do filósofo sobre esses regimes baseava-se em pilares centrais de sua teoria política e social.

Habermas resumia que a democracia não pertence à direita nem à esquerda como propriedade exclusiva, mas sim ao demos (ao povo) por meio do diálogo livre. Para ele, os regimes da URSS, China e Coreia do Norte falharam categoricamente porque deram o poder ao Partido e ao Estado, eliminando o debate aberto e livre, que é o oxigênio de qualquer sociedade verdadeiramente emancipada. 

Recomendo “Fascismo à Brasileira: como o integralismo, maior movimento de extrema-direita da história do país, se formou e o que ele ilumina sobre o bolsonarismo”, de Pedro Doria, como um livro fundamental para entendermos o fascismo no Brasil. Um livro que merece um lugar de honra na sua estante.


Data: 24 outubro 2026 (Atualizado: 24 de outubro de 2026) | Tags: História


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Fascismo à Brasileira ( como o integralismo, maior movimento de extrema direita da história do país, se formou e o que ele ilumina sobre o bolsonarismo)
autor: Pedro Dória
gênero: História;

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