Livros > Resenhas

Dom Casmurro

Quando eu li “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, pela primeira vez, eu tinha a idade de 17 anos, ou menos, não me lembro bem. E isso foi no início da década de 1970. Quando acabei de ler (e isso havia sido uma leitura obrigatória no colégio), o grande debate era: afinal, o filho era ou não era de Bentinho? Lembro-me que no calor do debate eu disse: “Claro! Capitu traiu Bentinho”. E nunca mais reli “Dom Casmurro”, pois considerava algo meio resolvido na minha cabeça. Li outros romances desse autor que não estão resenhados aqui, como “Memória Póstumas de Brás Cubas”, em 2003.

Reli “Dom Casmurro” quase 48 anos depois. Eu precisava ler. Agora eu tenho um site. Relutei, e chego à conclusão de que, após todos esses anos, foi um dos melhores romances que já li na minha vida. Acho que a maturidade me deu a possibilidade de ler com uma atenção que nem passava pela minha cabeça quando li pela primeira vez.

Sei que muitos que acompanham as resenhas deste site devem dizer: “Calma lá! Você já disse isso para muitos romances que você leu”. Dom Quixote foi um desses. É verdade. Mas foi um livro muito tocante, aborda a loucura de um homem. Fica claro que (anos após ter relido esta história) Dom Casmurro foi inspirado em Otelo de Shakespeare, e a versão feita por Machado de Assis é perfeita. Coisa que na época eu não tinha como fazer tal conexão, pois nunca havia lido Shakespeare. Vi filmes e peças, (mas nunca havia lido nenhuma peça na idade de 17 anos) e muito menos teria condições de fazer tal conexão mesmo se tivesse lido. Não era intelectualmente maduro o suficiente.

Assim como Otelo, que fica tão consumido pelo ciúme que entra em transe beirando a epilepsia, Bentinho entra na mesma vibração dessa loucura. Enquanto Otelo fica parado ao lado de sua esposa adormecida em seu quarto, preparando-se para matá-la, vemos Bentinho com o veneno no café de seu próprio filho pronto para colocar fim a tudo, inclusive a ele mesmo. Otelo diz a Emília que matou Desdêmona por sua infidelidade. Bentinho desiste no momento em que o café envenenado iria ser consumido pelo filho Ezequiel e pela mulher Capitu. Ele retira a xícara da boca do garoto e salva todos.

Bentinho opta por uma reconstituição imaginária do passado, Otelo deixa-se conduzir por Iago, que forja as provas contra Desdêmona, incriminando-a. As desconfianças que movem Bentinho são interiores, provenientes de sua imaginação; as de Otelo são manipuladas pelo perspicaz Iago, que ambiciona sua posição.

“Ficando só, refleti algum tempo, e tive uma fantasia. Já conheceis as minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta casa de Engenho Novo, reproduzindo a de Mata-cavalos... A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo.” (pg 68)

Bentinho é seu próprio sabotador, está convicto da traição independente das evidências, mesmo confessando sutilmente acreditar na inocência de Capitu. Quando assiste à encenação no auge do seu delírio, prefere culpar sua esposa, conduzindo o leitor para a irremediável condenação. Bentinho não é apenas o Otelo, mas o Iago de si mesmo.

“Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço. -- um simples lenço! -- e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se. hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. Tais eram as ideias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira- não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.” (pg 201)

“...Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi pé ante pé, e meti-me no gabinete, iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em mangas de camisa, e escrevi ainda uma carta, a última, dirigida a Capitu. Nenhuma das outras era para ela; senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi dous textos. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. O segundo continha só o necessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. (Pg 201)

Alfredo Bosi, em seu livro “História Concisa da Literatura Brasileira”, classifica “Dom Casmurro” de “A tragédia perfeita” (pg 200). Fico à vontade para adiantar alguns fatos dessa história, pois foi um livro obrigatório para todos da velha guarda e da galera mais novinha, especialmente para aqueles que vão fazer vestibular. “Dom Casmurro” é um romance psicológico, as análises íntimas das decisões e indecisões estão presentes. O tempo da narrativa é psicológico, e não cronológico.

É um relato. São memórias do passado do protagonista, que, como todos já sabem, se chama Bentinho. Ele relata a sua vida desde sua adolescência, aos quinze anos de idade, quando conheceu Capitu, até se tornar o ensimesmado e sorumbático Dom Casmurro quando ficou velho. É um romance narrado em primeira pessoa

“Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você."--"Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo."--"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça." (pg 1)

Durante a leitura, podemos ver que existem interferências do autor, onde o real e o imaginário trocam carícias na obra, pois Machado de Assis nos traz a realidade e o fato imaginado, impossibilitando entender a obra objetivamente. O que nos leva a duvidar se os acontecimentos são reais. Mas Machado de Assis ao mesmo tempo tenta-nos convencer de que tudo aquilo é a veracidade dos fatos. E aí entra a literatura, que tem o poder de criar ilusões tão perfeitas que lemos como se fosse realidade.

Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo. (pg 4)

O protagonista é um homem perturbado (como já falamos acima), tomado por sentimentos de ciúmes. Fica a pergunta: um homem tomado por tal sentimento possui uma narrativa confiável? É difícil avaliar quando alguém, no caso o narrador, encontra-se numa situação como essa. Como podemos confiar na narrativa de um homem que diz que foi traído por sua esposa, sem nunca ter comprovado realmente que suas dúvidas são pertinentes? Ele enxerga seu filho com as mesmas feições de Escobar, seu melhor amigo. Era esse o seu álibi. Mas Capitu não enxergava-o desse jeito.

O narrador nunca afirma a traição, apenas insinua, uma vez que Bento Santiago (o Bentinho), uma pessoa amargurada, é quem recolhe e decide o que deve ou não deve ser relatado ao leitor.

Aos poucos, o narrador Bento Santiago procura a razão de escrever este livro sobre sua vida. E vamos descobrindo sua personalidade. Vemos um homem cheio de compartimentos diante de acontecimentos e do mundo sensível. Assemelha-se à divisão de compartimentos de uma casa.

 

“Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa” (pg 2).

A metáfora da casa, nas palavras de Alfredo Bosi, seria entre seus compartimentos e os da alma humana. Mais uma vez a incapacidade do narrador de lidar com o tempo vivido.

“A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões. Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos.” (pg 94)

A casa exerce a função importante na narrativa, pois é na casa onde podemos ler os sentimentos de tristeza, de alegria, de distração e de tensão, e é onde Bentinho tece a história de sua infância, todas as esperanças e sonhos em relação ao seu futuro com Capitu, seu primeiro e único amor, que tinha na verdade de seus sentimentos a única prova concreta. E que só aumentava cada vez que a proximidade entre os dois acontecia.

Os olhos de Capitu têm um papel importante na história. José Dias, o agregado de família que vivia de favores na casa de Dona Glória (mãe de Bentinho), certa vez, andando pelo Passeio Público, começou a falar sobre o olhar de Capitu. Bentinho se surpreende com as palavras de José Dias, que definia seu olhar como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.”  Essa fala repercute em Bentinho.

“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, «olhos de cigana oblíqua e dissimulada.» Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...” (pg 53, pg 54)

Bentinho descreve os olhos de Capitu metaforicamente lembrando o mar em seus momentos de ressaca. São tão misteriosos que, embora descritos fisicamente, ele não nos apresenta a nada reconhecível. Qual era a cor de seus olhos? Eles são grandes, pequenos, azuis, verdes, castanhos? Não sabemos. O que é descrito não são os olhos de Capitu, mas a sensação de imersão do narrador à mulher amada.

“Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.” (pg 54)

Machado de Assis aproxima Capitu do mar e Bento de sua casa e, na ausência de verdades aparentes, as sensações é que estabelecem o juízo de valor. Bento é compartimentado como uma casa e esses compartimentos são de sua casa materna. Precisou fazer uma outra casa mantendo a mesma decoração. Bentinho reflete sobre o que viu, constrói imagens por meio de olhares, pautando-se pela casa e o mar, as mais sensíveis metáforas do romance.

“Hão de perguntar-me por que razão, tendo a própria casa velha, na mesma rua antiga, não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. A pergunta devia ser feita a princípio, mas aqui vai a resposta. A razão é que, logo que minha mãe morreu, querendo ir para lá, fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias, e toda a casa me desconheceu. No quintal, a aroeira e a pitangueira, o poço, a caçamba velha e o lavadouro, nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de reto, como outrora, tinha agora um ar de ponto de interrogação; naturalmente pasmava intruso. Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento que ali deixasse, e não achei nenhum. Ao contrário, a ramagem começou a sussurrar alguma coisa que não entendi logo, e parece que era a cantiga das manhãs novas. Ao pé dessa música sonora e jovial, ouvi também o grunhir dos porcos, espécie de troça concentrada e filosófica. Tudo me era estranho e adverso. Deixei que demolissem a casa, e, mais tarde, quando vim para o Engenho Novo, lembrou-me fazer esta reprodução por explicações que dei ao arquiteto, segundo contei em tempo” (pg 212)

Quando Dona Glória, sua mãe, morre, vemos um Bentinho tentando reter o tempo e o espaço. “Atar as duas pontas da vida, e restaurar a velhice na adolescência”. Tudo havia mudado na sua vida. Tentar reproduzir como um museu pessoal de suas recordações da casa de Matacavalos não lhe devolve nada, só o inventário de seu amor por Capitu, suas esperanças e decepções, sua juventude, e agora sua velhice.

A memória tem uma ligação umbilical com o esquecimento e a fantasia. Os fatos passados estão à disposição de quem os rememora. Mas os fatos lembrados nunca são completos. Os fatos passados nunca se reproduzem fielmente. Estão sempre suscetíveis a falhas. E é nessa falha que podemos destacar o vínculo entre a memória e a imaginação.

“Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo. Esta segunda parte não acha crentes fáceis; ao contrário, a ideia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito, dificilmente se despegará da cabeça, e é bom que seja assim, para que se não perca o costume daquelas construcções quase eternas.” (pg 182)

Fico por aqui. Uma das melhores coisas que fiz (até agora) neste ano foi reler Dom Casmurro. Acho que um dia vou ler de novo. É certo que isso acontecerá. Dom Casmurro merece UM LUGAR DE HONRA na sua estante.

 


Data: 04 maio 2021 (Atualizado: 04 de maio de 2021) | Tags: Romance, Psicologia


< O Falcão Maltês Rinoceronte >
Dom Casmurro
autor: Machado de Assis
editora: Globo
gênero: Psicologia;,Romance;

compartilhe

     

você também pode gostar

Vídeos

A filha das flores

Resenhas

A trégua

Resenhas

O Olho