Livros > Resenhas

Bufo & Spallanzani

Sabe quando você lê um livro como se estivesse saboreando um vinho? Pois é, li “Bufo & Spallanzani” (um livro que poderia ser lido numa lufada) lentamente. Demorei uns três dias. Cada noite eu lia umas cem páginas curtindo muito. Devo dizer que durante a leitura minhas suspeitas de quem havia matado Madame X, mais tarde revelada como Delfina Delamare, se confirmaram. Mas não desvendei o motivo. Devo dizer que o romance não consiste apenas de um enigma, mas de micronarrativas que vão transformando o romance em uma metanarrativa, ou seja, a temática de “Bufo & Spallanzani” é o próprio fazer literário. Em outras palavras, é a história do nascimento de um romance que vai sendo contada.

Ao longo da narrativa, veremos inúmeras citações de outros autores e livros, além de muitas digressões sobre a arte de escrever. “Bufo & Spallanzani” é uma obra que faz constantemente referências a outras obras literárias, a outros escritores e à própria literatura, à função do escritor, e representa um exercício da função da metalinguística da linguagem.

Bem, vale a pena repetir aqui que Rubem Fonseca trabalhou na Polícia do Rio de Janeiro e que a sua intimidade com esse mundo se deve à sua experiência, que é brilhantemente levada para o plano ficcional. Rubem Fonseca é de Juiz de Fora, veio muito cedo para o Rio de Janeiro. As descrições minuciosas dos espaços físicos, sociais e psicológicos feitas por Rubem Fonseca da cidade do Rio de Janeiro faz de “Bufo & Spallanzani” uma fonte de dados geográficos das ruas dessa cidade. É como se o autor tivesse um Google Maps registrado em sua memória. E é por meio do olhar do detetive “sebento” (palavras de Rubem Fonseca) Guedes, personagem que atua como uma espécie de câmera, que vamos sendo conduzidos pelo universo de Rubem Fonseca. Mas existe uma questão que merece ser abordada. O papel do detetive não tem relevância, pois o romance é um livro de memórias de um escritor chamado Gustavo Flávio.

O livro começa narrando um sonho que o escritor teve com Leon Tolstói. É como se Gustavo Flávio recebesse uma incumbência do próprio escritor. Nessa alucinação, revela uma angústia pela dificuldade de sincronizar o ato de olhar a pena no tinteiro tantas vezes quanto necessárias para preenc as páginas vazias.

“Neste pesadelo Tolstoi me aparece todo vestido de preto, suas longas barbas brancas como cera de uma vela, que não sai inteira da comprida manga do paletó, e faz o movimento de molhar uma pena um tinteiro de metal brilhante, uma pena comprida, provavelmente de ganso e uma resma de papel. ‘Anda’, diz Tolstoi, ‘agora é a tua vez’. Perpassa por mim uma sensação aterradora, a certeza de que não conseguirei estender a mão centenas e milhares de vezes para molhar aquela pena e encher as páginas vazias de letras e palavras e frases e parágrafos. Então me vem a convicção de que morrerei antes de realizar esse esforço sobre-humano. Acordo aflito e infeliz e fico sem dormir o resto da noite. Como você sabe, não consigo escrever a mão, como deveriam escrever todos os escritores, segundo o idiota do Nabokov” (pg 7, pg 8)

Vamos à história?

O livro é narrado na primeira pessoa, de forma descontínua, com várias histórias que se cruzam. Conta a história de um renomado escritor de sucesso chamado Gustavo Flávio − uma alusão ao escrito francês Gustave Flaubert − envolvido na morte de uma socialite chamada Delfina Delamare, da qual era amante. Antes ficaremos sabendo que seu nome era outro. Aliás, o seu verdadeiro nome era Ivan Canabrava.

Essa mudança de nome acabou gerando uma mudança de personalidade, ou seja, quando se chamava Ivan Canabrava, era um homem magro, desinteressante e desinteressado em sexo e, quando muda o seu nome para Gustavo Flávio, ocorre uma metamorfose, transforma-se em um sátiro, pantagruélico e incapaz de ficar longe das mulheres e dos prazeres sexuais. Uma metamorfose em que a exteriorização do personagem apaga a do indivíduo.

A morte da socialite faz com que outros personagens, como o amante, Gustavo Flávio, o policial Guedes, o marido da vítima e um suposto assassino que praticamente se entrega, sem carregar com ele nenhuma evidência de que ele de fato tenha matado a essa mulher, se perguntem: “Quem matou Delfina Delamares?”.  Bem, se você acha que o romance se prende a essa pergunta, você vai dar com os burros n’água. Quando você vai pensando que o romance terá um desfecho óbvio, cresce uma frustração devido à descontinuidade da história e é isso que vai deixando o livro cada vez mais interessante. Quem matou não é a questão principal.

O livro é dividido em cinco partes. A primeira parte: Foutre Ton Encrier narra a morte da socialite, o escritor Gustavo Flávio conta à Minolta (sua amante e salvadora) sobre a sua relação com a misteriosa Madame X. O fato de Delfina ter sido morta com um tiro no peito, logo no início da trama, é um forte indício metalinguístico, além de um aspecto que norteia toda a narrativa.

A segunda parte, intitulada “Meu passado negro”, retoma os seus anos de juventude. É aqui que, supostamente, o bufo do título se justifica, numa analogia entre o mal e o veneno encontrado no sapo. Gustavo Flávio − e o próprio título insinua −, antes de ser escritor, havia sido professor primário, até conhecer Zilda, que lhe arranjou um emprego numa empresa de seguros chamada Pan-americana Seguros. Nessa fase, seu nome é Ivan Canabrava. Ele atua como investigador da firma, a qual deverá pagar um prêmio altíssimo à Clara Estrucho, viúva de Maurício Estrucho, cujo seguro havia sido feito poucos meses antes de ele morrer. Desconfiado, Ivan começa a investigar o caso após ouvir de uma testemunha no velório que a viúva estava dando água ao “morto”. Ele acaba descobrindo, no lixo do apartamento abandonado do casal Estrucho, um sapo morto e um ramo de flores murchas. Ivan não se convence da morte de Maurício Estrucho e recorre a um cientista chamado Ceresso, que é nada mais, nada menos que o presidente da Associação Brasileira de Proteção aos Anfíbios. Ceresso informa a Ivan que o veneno do sapo, da espécie Bufo Marinus, associado ao sumo da planta Pyrethrum Parthenium, causa catalepsia profunda.

“Mergulhei na leitura daqueles fascinantes livros. O sapo”, dizia Davis, “é um laboratório e uma usina química, contendo, além de alucinógenos, poderosos anestésicos não identificados, que afetam o coração e o sistema nervoso”. As descobertas de Davis confirmavam as de Kobayashi no baiacu ou sapo-do-mar [...] As pessoas sob a ação dessa substância ficariam como mortas do ponto de vista fisiológico, retendo apenas certas faculdades mentais, como a memória. A esse estado chamavam de zumbinismo. Enterrado ou fora da sepultura, o zumbi permanecia como morto, dez horas a menos que continuasse sendo alimentado com uma mistura de veneno de sapo e determinadas substâncias químicas encontradas em algumas plantas como Pyrethrum parthenium, uma proporção de 1 mg por 5 mg. Então o estado cataléptico poderia ser prorrogado algumas vezes. (FONSECA, pg.100 e pg 101).

Na terceira parte, “O refúgio do pico do gavião”, temos uma outra história e com a mesma pergunta: “quem matou?”. O refúgio do pico do gavião é uma pousada, que servirá como uma espécie de retiro para que Gustavo Flávio escreva o seu livro. Quando chega à pousada, acaba se encontrando com outros hóspedes, como os elegantes bailarinos Roma e Vaslav, um maestro e sua esposa, Orion e Juliana Pacheco, Carlos. E duas primas, Suzy e Eurídice, que são na verdade amantes. Além dos hóspedes, outros personagens, como dona Rizoleta e seu marido, Trindade.

Papos literários dão o tom em conversas entre os hóspedes. As primeiras linhas de “Bufo & Spalanzani” começam a ser escritas, e a história será entre homens e sapos. E ao longo da história perceberemos a ligação do romance com o título, ou seja, Bufo marinus é a espécie de sapo que foi encontrada por Ivan Canabrava; Spallanzani foi um biólogo italiano do século XVII que estudou a circulação sanguínea, a digestão e os animais microscópicos.

Bem, uma outra morte acontece na pousada e a questão “quem matou?” aparece de novo. Dessa vez uma das hóspedes chamada Suzy foi assassinada. Fiquem tranquilos não haverá spoilers.

A quarta parte, “A prostituta das provas”, divide-se em três capítulos. Neles começa a ser desvendado o assassinato de Delfina. Guedes, o detetive, descobre que um assassino confesso não matara a socialite e deixa-o em liberdade. Quem pagou o farsante? A princípio, Eugênio Delamare, o marido da vítima, entra para a lista de suspeitos.

Até que Guedes, em suas andanças, encontra Dona Bernarda e seu cão Adolfo. Ela é a testemunha de que Guedes precisa para colocar Gustavo Flávio na cadeia.

A quinta parte, chamada “A maldição”, está reservada para o clímax e o desenlace. O autor faz considerações sobre o gênero do romance em geral e depois discute as dificuldades de se concluir uma história. O assassino de Suzy é descoberto. Um pacto de morte foi a causa. Após solucionado o caso, as personagens retornam ao Rio de Janeiro.

O desfecho da morte de Delfina pode ser descrito nas próprias palavras de Gustavo Flávio:

“O caso de Delfina é um dos mais interessantes, e provavelmente o mais instigante e intrigante assassinato que ocorreu nos últimos tempos aqui no Brasil. Existem nele aspectos que o fazem charmoso e agradável à leitura, pois é um crime misterioso que ocorre numa classe social onde ações violentas raramente acontecem, e depois porque os personagens coadjuvantes e outras mortes violentas ajudam a torná-lo ainda mais palatável. Mas eu estou muito envolvido para poder escrever sobre isso, principalmente porque eu amava Delfina, e as grandes histórias de amor vividas por nós escritores raramente são escritas. As histórias de amor que podem ser contadas são as medíocres.” (pg 100)

Em “Bufo & Spallanzani”, fica claro que o fator metalinguístico é determinante, e a construção narrativa é feita com base no fazer literário. O personagem-escritor está passando por um bloqueio. Discute o papel do escritor na sociedade contemporânea. Rubem Fonseca brinca desconstruindo o gênero literário policial. No romance, o narrador é escritor e precisa escrever um livro intitulado “Bufo & Spalanzani”, que é nada mais nada menos que um livro de memórias. No final do livro, chegamos à conclusão de que o romance é um livro de memórias do escritor Gustavo Flávio, que não pode ser confundido com Rubem Fonseca. E quem é o assassino? Querem saber? Leia mais essa obra magistral desse gigante da literatura nacional. “Bulfo & Spallanzani” merece um lugar de honra na sua estante.


Data: 30 junho 2020 (Atualizado: 30 de junho de 2020) | Tags: Policial, Romance


< A Revolução dos Bichos
Bufo & Spallanzani
autor: Rubem Fonseca
editora: Francisco Alves
gênero: Policial;,Romance;

compartilhe

     

você também pode gostar

Resenhas

A ponte invisível

Resenhas

"A Rainha Ginga" Vídeo-livro

Resenhas

O último grito