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Os filhos do Barro Do romantismo à Vanguarda

Os Filhos do barro

 

Como os poemas se comunicam?" A esse respeito, poderíamos dizer que, nesse processo de elucidação do problema da comunicação poética, Octávio Paz, em seu livro “Os filhos do barro”, nos fornece as chaves interpretativas que nos levam a uma compreensão do mundo e da realidade através da poesia.

O poeta e ensaísta Octávio Paz (México, 1914-1998) diz que a poesia foi a primeira linguagem dos homens. Cada sociedade foi edificada sobre um poema. Ao ser transformada em religião, em burocracias de sacerdotes e teólogos, a poesia foi confiscada e a imaginação poética foi transformada em crenças, sistemas. O poeta é aquele que dá forma às ideias religiosas.

Escrito em 1974, o livro os “Os filhos do barro” é dividido em seis partes: “A tradição da ruptura”, “A Revolta do Futuro”, “Os filhos do barro”, “Analogia e ironia”, “Tradução e metáfora”, “O ocaso da vanguarda”.

Segundo Octavio Paz, nossa sociedade singular de hoje inventou a expressão “tradição moderna” como um sinal de busca de uma mudança que se tornou tradição, não mais acoplada ao passado ou a algum princípio imóvel, como a eternidade. Construir e desconstruir através da crítica, a mudança perpétua é seu princípio basilar.

Nas sociedades primitivas, o passado é sempre imóvel, está sempre presente, é a única realidade válida. E os rituais é o meio encontrado de se recobrar a memória original, evitando a interferência da mudança.

Em outras palavras, para os antigos, “o agora” é uma repetição do ontem, não o passado recente, mas o passado imemorial, ou seja, a origem. Mais que uma categoria temporal, o passado dos povos primitivos é uma realidade que está além do tempo: é o princípio original. É aquele princípio que devemos reverenciar, pois ele sempre está presente. De que forma? Através dos ritos e das festas da tradição.

No cristianismo, a eternidade é o eterno presente depois do juízo final, é a solução de todas as agonias, o fim da história. O fim do tempo é a morte da mudança, como diria Octávio Paz: “a morte da morte”.

“A Divina Comédia”, de Dante Alligueri, é um poema que reúne todos os gêneros anteriores – épicos, míticos, filosóficos – e no qual se conta uma história. O tema é um pecador – e mais, esse pecador nada mais é do que o próprio poeta, Dante Alighieri. Sob uma nova ótica, o poeta estabelece uma relação entre o homem e Deus/ homem / homem e homem/ e si mesmo.

Dante traz grande mudança na literatura de sua época ao se transformar no protagonista de sua própria história. Uma viagem fictícia que se tornou real para muitos de seus leitores. Uma “viagem interior” do herói ao país dos imortais: inferno, purgatório e paraíso.

A grande questão não é o cosmos do mundo, sua ordem, mas o cosmos individual que é alcançado no final. O presente eterno nas palavras de Octávio Paz: “Reinos emparedados cheio de vivos, presos entre muros não de ladrilhos e pedras, mas de minutos congelados”.

A crítica da filosofia do século XVIII enfraqueceu o cristianismo como fundamento da sociedade. A crítica é carregada de ressonâncias intelectuais, e mais tarde essa crítica se acopla à paixão. Com essa crítica apaixonada contra os preceitos cristãos, as portas do futuro são abertas.

 O futuro é uma revolução permanente em uma sociedade em direção a mudanças vertiginosas. Se no mundo de Dante a perfeição é a realidade consumada, o presente eterno seria a plenitude da perfeição.

Nos grandes sistemas filosóficos que a modernidade elabora, a razão surge como um princípio suficiente. As divindades estão fora da história do homem. A razão é a base da modernidade.

O antídoto para se resolver esse impasse é a ruptura da razão com o cristianismo, ou seja, a oposição entre Deus e o ser, razão e revelação. Com o passar do tempo, essa diferença começará a se mostrar insolúvel. Novos sistemas filosóficos são construídos. Cada vez mais sistemas sólidos contra as antigas religiões. Sistemas esses fundamentados não no princípio do congelamento do tempo, mas da mudança.

Desde a sua criação, a poesia moderna tem sido uma reação contra a modernidade: o iluminismo, a razão crítica, o liberalismo, o positivismo e o marxismo. Daí a ambiguidade de suas relações – quase sempre iniciada por uma adesão entusiástica seguida de uma súbita ruptura com os movimentos revolucionários da modernidade, da Revolução Francesa à Revolução Russa.

Octávio Paz enfatiza que a discordância entrou na história da poesia na era do romantismo, isto é, no início do modernismo, e atingiu sua culminação  na vanguarda do século XX. Assim como no romantismo, a vanguarda não foi apenas uma estética e uma linguagem, foi uma erótica, uma política, uma visão do mundo, um estilo de vida.

A razão crítica despovoou o céu. A morte de Deus é um tema romântico; não é um tema filosófico, mas religioso. O tema da orfandade universal corporificada pela figura de Cristo retrata um universo caótico em permanente desordem e incoerência. Nietzsche, Dostoievski e Mallarmé potencializam esse tema.

Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!” Nietzsche, Gaia Ciência, §125

A morte de Deus abre as portas da ironia, do humor e também da angústia. Segundo Octávio Paz, a ironia consiste em inserir dentro da ordem da objetividade a negação da subjetividade. A angústia nos mostra que a existência está vazia, “que a vida é morte, que o céu é um deserto: a quebra da religião”.  O humor concentra-se no grotesco, no estranho. O contraste na incredulidade é uma resposta ao absurdo da existência. Essas atitudes ateístas estiveram em todos os românticos herdeiros de Rousseau, Blake, Coleridge, Victor Hugo, Höderlin, Nerval. E a morte de Deus acaba transformando-se em uma paixão religiosa. A morte de Deus é um tema religioso dos poetas.  

A razão surge como substituta de Deus. O grande paradoxo intelectual da morte de Deus levantado por Octávio Paz é: como pode morrer alguém que nunca existiu?

A dialética dissolve as contradições apenas para que elas renasçam imediatamente E para que isso seja feito ela, precisa desligar-se da sociedade cristã, dos conceitos de eternidade.

“Para Idade Média a poesia era uma serva da religião; para idade romântica a poesia é sua rival e, mais ainda, é a verdadeira religião, o princípio anterior a todas as escrituras sagradas. Rousseau e Herder haviam mostrado que a linguagem atende não às necessidades materiais do homem, mas à paixão e à imaginação: não é a fome, mas o amor, o medo e a estupefação que nos fizeram falar. O princípio metafórico é a base da linguagem e as primeiras crenças da humanidade são indistinguíveis da poesia. Fórmulas mágicas, ladainhas, pregações ou mitos, estamos diante de objetos verbais análogos aos que mais tarde se chamariam poemas. Sem a imaginação poética não haveria nem mitos nem sagradas escrituras; simultaneamente, desde os primeiros tempos, a religião confisca para seu fim os produtos da imaginação poética.”

“...As bíblias, os evangelhos e os alcorões haviam sido denunciados pelos filósofos como compêndios de mentiras e fantasias; entretanto, todos reconheciam, inclusive os materialistas, que essas histórias possuíam uma verdade poética. Nessas tentativas de encontrar um fundamento anterior às religiões reveladas ou naturais, os poetas encontraram, muitas vezes, aliados entre os filósofos.” (pg 74, pg 75)

Fico por aqui. Apenas finalizando dizendo que a idade moderna é uma idade crítica, nascida da negação. Essa negação abrange a arte e a literatura. É um conceito exclusivamente ocidental, e não aparece em nenhuma outra civilização. O motivo é relativamente simples. Em todas as outras civilizações, os arquétipos temporais são análogos ao cristianismo. No mundo árabe, por exemplo, na disputa entre a razão e a revelação, a revelação foi a grande vencedora. No Islã, triunfou a eternidade.

“Os filhos do barro”, de Octávio Paz, é um dos livros mais importantes para compreendermos a arte moderna ocidental. E merece um lugar de destaque na sua estante.


Data: 04 fevereiro 2019 | Tags: Poesia


< Reflexões do Gato Murr A dupla chama: amor e erotismo >
Os filhos do Barro Do romantismo à Vanguarda
autor: Octávio Paz
editora: Nova Fronteira
tradutor: Olga Savary

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