Livros > Resenhas

Um dia

David Nicholls é uma dessas gratas revelações que acontecem no meio literário e que trazem consigo o frescor de um enorme talento. “Um dia” é um livro perigoso, principalmente para aqueles que precisam trabalhar no dia seguinte e vão se empolgando a cada página – e não param. O resultado é sempre desastroso. Pode-se chegar atrasado ao trabalho, ganha-se algumas olheiras, além da necessidade de inventar algumas desculpas para justificar os possíveis atrasos.

Algumas considerações: sua cara estará como quem chegou de uma noitada de arromba. De duas, uma, ou você inventa que estava no hospital tratando de um ente querido, ou vai ter que inventar que seu cachorro estava doente e levou a noite só com preocupação. Ou optar pela clássica: “tive insônia por causa das minhas preocupações com o trabalho.” Essa é boa, pois o seu chefe poderá até sugerir um aumento pra você, por vê-lo vestir a camisa da empresa. Pronto. Um leque de opções estão dadas, basta você escolher uma.

Último aviso, se você espera uma história de amor simples e previsível não leia “Um Dia”. Não é apenas a história de dois grandes amigos, cujo amor os completa, mas é um romance onde o previsível termina e a vida começa.

Como é de costume aqui nesse blog vamos repetir o velho refrão: vamos ao que interessa, ou seja, o livro.

“Um Dia” é daqueles livros gloriosos, que quando você fecha se sente como se estivesse perdendo dois amigos muito queridos: Dexter Mayhew e Emma Morley. David Nicholls domina a arte da prosa com um apelo muito grande. É despretensioso, incrivelmente fácil de ler, e ainda assim impressionantemente literário.

Cada capítulo conta a história do mesmo dia, 15 de julho, ano após ano. Em alguns desses anos, eles estão próximos – geográfica ou emocionalmente – , noutros , não estão; mas estão sempre de alguma forma ligados um ao outro, pensando um no outro, e como em todas as histórias desse tipo, o leitor sabe que eles devem estar juntos muito antes de chegar ao final.

A história começa no dia após a formatura dos dois jovens na Universidade de Edimburgo. Eles estudam juntos, mas só se conhecem de verdade no dia da formatura. Depois de algumas bebidas além da conta, Dexter e Emma acabam na cama dela. Ela gosta dele, mas sabe que ele não é de uma mulher só. Ele se pergunta “como é que nunca tinha reparado nela antes”, mas sabe que precisa seguir seu caminho, antes que as coisas saiam dos planos. O dia amanhece e a data é 15 de julho de 1988, dia de São Swithin's. Nesse dia há uma tradição: se chover no São Swithin, choverá nos próximos quarenta dias, ou durante todo o verão.

Dexter é um desses caras bonitos, de família rica e destinado ao sucesso. Nicholls faz Emma dizer: O rosto era daqueles em que você enxerga os ossos por baixo da pele, como se até a caveira fosse bonita (pg. 15)

Emma é natural da cidade de Leeds, Inglaterra, sofre um pouco de baixa autoestima, possuidora de uma consciência social, leva a vida muito a sério. Emma está assustada com a ideia de que está prestes a embarcar em uma nova vida adulta, independente, e se sente mal-equipada para essa tarefa.

“...uma vida adulta e independente. Mas ela não se sentia adulta. Não estava preparada, de jeito nenhum. Era como se um alarme de incêndio tivesse disparado de madrugada e ela se encontrasse no meio da rua com as roupas emboladas no braço.Se não tinha aprendido nada, o que iria fazer? Como preencheria os próximos dias? Não tinha a menor ideia."

O negócio era ser corajosa e ousada e realizar alguma coisa, pensou consigo mesma. Não exatamente mudar o mundo, só um pouco “a sua volta. Sair por aí com um diploma com honras de primeiro lugar em duas matérias, muita paixão e a nova máquina de escrever Smith Corona e trabalhar muito em... alguma coisa. Mudar a vida das pessoas através da arte, talvez. Escrever coisas bonitas. Agradar aos amigos, continuar fiel aos seus próprios princípios, viver plenamente, bem e com paixão. Experimentar coisas novas. Amar e ser amada, se possível. Comer com moderação. Coisas assim.” (pg. 22)

Emma tem certeza que após essa primeira noite, ela nunca mais iria ouvir a voz de Dexter novamente. Como ela estava errada! Naquela noite, aparentemente casual, eles dão início a uma amizade que se tornaria o relacionamento mais significativo em suas vidas.

Depois dessa noite, seguem seus rumos e se tornam grandes amigos. O mais interessante desse livro é que cada capítulo se passa em um “15 de julho”. Ano após ano, sempre no mesmo dia, ficamos sabendo o que está acontecendo na vida deles. E, mesmo sendo apenas um único dia por ano, conseguimos acompanhar toda a história de vida desses personagens! Uma amizade simplesmente invejável. Daquelas que sonhamos ter.

No decorrer da leitura, veremos que o destino de ambos adquire diferentes rotas nessa estrada chamada vida. Dexter não precisa dar duro no trabalho, seus anos são vividos de forma hedonista na TV como apresentador de um programa de juventude, na década de 90. Drogas, cocktails e mulheres fazem parte de sua rotina. Emma trabalha como professora numa escola e vai tocando sua vida afetiva entre vários relacionamentos confusos e errantes.

Com pura emoção e um humor fino, o livro abrange uma amizade de 20 anos, em que o leitor irá mergulhar na surpreendente vida desses dois personagens principais. A prosa de Nicholls é rápida e sem desculpas. As páginas alternam entre diálogos, monólogos interiores e observações poéticas. Vemos Emma e Dexter em situações humanas identificáveis. Eles lutam como todos nós com as grandes questões sobre amor, relacionamentos, carreiras e erros.

Entre muitas coisas, “Um Dia” é um romance convincente e cativante. A alegria que Emma e Dexter encontram um no outro, a paquera, as brincadeiras que às vezes escondem o ressentimento, a forma como as mudanças de relação evoluem com o passar dos anos, tudo isso os tornam reais e próximos.

O autor não romantiza qualquer personagem. Embora, sem dúvida, durante a leitura haverá leitores que torcerão para que Dexter e Emma finalmente “fiquem juntos”. Será que eles vão ficar ou não? Não cortarei esse prazer de vocês. Leiam e verão.

A frase do livro: “Você pode viver sua vida inteira sem perceber que o que você está procurando está bem na frente de você” me fez lembrar o clássico A Fera na Selva, de Henry James e a inesquecível história de amor vivida por seus personagens John Marcher e May Bartram. Mas esse é outro romance...

“Um Dia” é um livro para maiores; com enredo apaixonante, escrito de forma direta e com muito humor. Eu não esperaria o dia 15 de julho para lê-lo. Começaria hoje mesmo.

David Nicholls acertou na mosca. Sorte do leitor. Imperdível!


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


< Matias na cidade O marido perfeito mora ao lado >
Um dia
autor: David Nicholls
editora: Intrínseca
tradutor: Claudio Carina

compartilhe

     

você também pode gostar

Resenhas

Crônica do Pássaro de Corda

Resenhas

O irmão alemão

Resenhas

O último dia de um condenado