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Todo dia me atiro do térreo

Definitivamente "Todo dia me atiro do térreo", do jornalista Lula Falcão, mostra como um bom título é capaz de seduzir ao primeiro contato e traduzir o tom exato de uma história. E nesse caso, é pelo título que somos convidados a ler esta obra que nos envolve por suas "sacadas" rápidas, seu humor preciso, irônico e perverso,que não poupa o leitor das ciladas da vida e tão pouco a própria protagonista: Maria Lúcia.

Li o livro em um dia. O tom é direto, se fosse um filme a edição entre uma cena e outra receberia um corte "seco", e a vida é contada de forma pragmática e sem nenhuma dose de piedade. As doses são de vodka mesmo. E pura.


"Todo dia me atiro do térreo" é narrado em primeira pessoa, por Maria Lúcia, um personagem fictício e bem dos nossos tempos. Tempos rápidos, de conversas curtas e verdades explicitadas em 140 caracteres (número máximo de caracteres que o Twitter permite). Outra delícia do livro é esta: ele é todo escrito em forma de "postagens", como se realmente estivéssemos acompanhando as postagens bizarras e o humor ácido de Maria Lúcia.

Sua rotina é pontuada por seu humor que oscila entre uma postagem e outra, mantido por algumas doses de vodka, sexo virtual e pensamentos descartáveis. Maria Lúcia leva uma vida solitária, regada por frustrações e pela falta de perspectiva que a colocam no meio do caos. Acuada por uma realidade diferente da imaginada, ela lança "pérolas" de ironia que compartilha na rede com outros desocupados ou igualmente perdidos. Ela pontua uma geração que tem acesso a tudo, conhece as ferramentas e caminhos para chegar a qualquer lugar, mas se perde nesse turbilhão de possibilidades e informação gratuita.

Como muitos, ela chega aos 30 e poucos anos, com um currículo de experiências diversificadas, tentando acertar, sem saber ao certo o que deseja. Sem uma definição profissional ou, um norte pessoal e afetivo ao qual ela possa se agarrar e seguir, Maria Lúcia dá voz e destila sua ironia. Ela faz citações dos bons livros que leu. Foi atriz, mas sua arte e seu “corpinho” não garantiram uma carreira duradoura. Logo, foi para a área de produção cultural e se vira na vida como pode.

Esse livro foi lançado em 2011, mas não perdeu seu vigor, nem perderá, pois retrata de forma extremamente crítica e divertida nossos tempos vividos em redes, twitters, facebooks, onde a comunicação se dá através de "posts" e tudo – ou quase tudo – é dito entre abreviações e caracteres. Além de contar com o prefácio da escritora e roteirista Adriana Falcão, e "orelha" assinada pelo colunista Xico Sá.

Se você estiver a fim de uma leitura diferente, um quase Bukowski de nossos tempos virtuais, em versão feminina, leia "Todo dia me atiro do térreo" e conheça Maria Lúcia.

Depois, deixe um comentário com sua opinião. Esse livro merece estar na sua estante. Uma leitura que a princípio parece "leve", mas que através de sua irreverência nos faz pensar.

Sobre o autor:

Lula Falcão é Jornalista com mais 30 anos de estrada nas redações dos principais veículos de comunicação do País: O Globo, VEJA e o Estado de S. Paulo. Participou ainda do Centro de Criação de Projetos Especiais da Companhia de Notícias (CDN) e foi colaborador de publicações brasileiras em San Francisco e Nova York (EUA). Ganhou o prêmio de jornalismo (nacional) da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), em 1995. É co-autor de Frevo – 100 anos de Folia (história do frevo) e autor de Todo dia me Atiro do Térreo (ficção).

Texto/Colaborador(a): Paula Dias


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Sátira


< Anna Kariênina A ponte invisível >
Todo dia me atiro do térreo
autor: Lula Falcão
editora: FDigital

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