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Ressurreição

“Ressurreição” não é um livro indicado para os niilistas, cínicos e congêneres. É um livro que faz duras críticas à forma de se usufruir a propriedade da terra na Rússia do século XIX e início do XX. O livro fala sobre as injustiças do sistema de Justiça daquele país, fala da crueldade e da estupidez que reside nas punições judiciais, da ociosidade dos abastados e da corrupção dos militares, e traz também uma crítica velada à religião e à forma como ela corrompeu as ideias de Jesus.

O recurso filosófico que Tolstoi disponibilizava não estava na violência, mas na sua filosofia naturalista, pacifista, cultivando hábitos simples, refugiando-se sempre nos braços da natureza como um sábio eremita. Acreditava que as grandes transformações não viriam de revoluções, mas através das transformações morais e individuais. Daí o nome do livro: Ressurreição.

O romance “Ressurreição” foi baseado em uma história verdadeira que Tolstoi conheceu numa conversa com o jurista e escritor russo Anatóli Fiorodorovitch Kóni, o mesmo jurista que forneceu a Dostoievski informações sobre casos de justiça criminal, mais tarde aproveitados no romance “Irmãos Karamázov”. O jurista comentou com Tolstoi o caso de um jovem aristocrata que havia solicitado seus serviços de advocacia. Convocado para integrar um júri, o jovem aristocrata espantou-se ao reconhecer na acusada uma criada a quem ele mesmo havia seduzido e engravidado anos antes na propriedade de uma tia. Abandonada por ele, expulsa da casa da patroa, a jovem tornou-se prostituta, até ser presa, acusada de roubo. Com remorsos, o jovem aristocrata propôs-se a ajudá-la e casar-se com ela. No entanto, ela veio a falecer de tifo no presídio, após a condenação.

Tolstoi se emocionou com a história por ter vivido algo semelhante. Em sua juventude, seduziu uma criada na fazenda de um parente, que depois a expulsou de casa; ele mesmo tinha também um filho bastardo de uma camponesa em sua propriedade.

As considerações acima foram retiradas do prefácio de Rubens Figueiredo ao livro “Ressurreição”, do qual é o tradutor e que dispensa apresentação. Mas, para aqueles que não o conhecem, Rubens Figueiredo é tradutor, romancista, contista, vencedor de diversos prêmios, e aqui aproveito para dar uma dica: toda tradução de Rubens Figueiredo traz um selo de qualidade de altíssimo nível. Um dos intelectuais mais brilhantes de sua geração que nos proporciona mais essa preciosidade, “Ressureição”. Valeu mestre!

Vamos ao livro? “Ressurreição” é uma transformação; nas palavras de Tolstoi, uma ressurreição. Tudo começa quando Nekhyludov, estudante universitário que passava seus verões com suas tias, veio a conhecer e gostar de uma camponesa, seu nome, Katiucha. Estabeleceram uma relação e Nekhyludov apaixonou-se por ela. Quando ele retorna três anos depois, a vida militar lhe tinha transformado, tornou-se egoísta e depravado, e a seduziu. No dia seguinte, ele deu a ela dinheiro como se estivesse pagando por uma noite de sexo, e seguiu para o seu regimento. Quando ele voltou depois da guerra, soube que ela tinha ficado grávida e tinha ido embora. Ficou aliviado, e resolveu esquecê-la. Acabou expulsa da casa de suas tias ainda grávida, e seu bebê morre. E após várias tribulações acaba se tornando prostituta.

Anos mais tarde, numa dessas coincidências, Nekhyludov, aparece em um júri, no julgamento de um homicídio. Quando chega o momento do julgamento, ele reconhece a ré: Katiucha. O primeiro sentimento foi de desprezo e piedade. Em um segundo momento, ele teme ser descoberto por ela. Mas Katiucha não o reconhece e, aos poucos, Nekhyludov começa a sentir um profundo remorso, sentindo-se responsável por tudo aquilo que ela estava passando.

Devido a um processo viciado, descuidado pelo júri, acaba condenada a quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Impulsionado por sua consciência inquieta, Nekhyludov vai a um advogado para discutir a possibilidade de um recurso.

Ao longo de suas reflexões ele vai percebendo todo o mal que cometeu e sente que sua vida é vazia. Sente uma necessidade de purificar sua alma e decide quevai casar com Katiucha e abrir mão de suas terras.

Semelhante a Levin no livro “Anna Karennina” (resenhado aqui no blog), Nekhyludov passa por uma transformação, em outras palavras, por uma “Ressurreição”. E Tolstoi faz a seguinte reflexão sobre o protagonista:

“Em Nekhyludov, como em toda a gente, havia duas personalidades. Uma, espiritual, que buscava para si apenas um bem que também fosse um bem para os outros, e a outra, animal, que buscava o bem só para si e, a fim de obter esse bem, estava pronta a sacrificar o bem do mundo todo”. (pg64) 

Nekhyludov vai à prisão e revela sua identidade a Katiucha. Como não poderia deixar de ser, ela trata-o com frieza. Orgulha-se da profissão de prostituta e sempre o repele. Até que o nosso protagonista, em mais uma de suas visitas, diz que quer se casar com ela, mas ela recusa, retirando-se para sua cela irritada com ele.

Ele faz de tudo para conseguir a liberdade dela. E torna-se uma pessoa desgostosa com a ignorância e a frieza dos seus amigos poderosos, que lhe dizem para não se preocupar com isso e o aconselham a viver a sua vida e não ser arrastado pelas preocupações das classes mais baixas. Ele enxerga essa hipocrisia em todo o sistema jurídico, burocrático, onde funcionários servem a seus próprios interesses. A partir daí, Tolstoi se aproveita de Nekhlyudov para atacar a sociedade russa.
Nekhlyudov está convencido de que o terrível sistema é manipulado contra os pobres. E ele segue Katiucha e centenas de outros prisioneiros em uma longa viagem até a Sibéria. Conversa com presos políticos que foram considerados ameaças à sociedade, e descobre que muitos deles lutam apenas para estabelecer um sistema mais justo. Ele agora despreza a classe de homens a que pertence. Vende suas terras a preços baratos para os camponeses.

“Uma das superstições mais costumeiras e difundidas é a de que cada pessoa tem determinadas qualidades só suas, que existe a pessoa boa, a má, a inteligente, a tola, a enérgica, a apática etc. As pessoas não são assim. Podemos dizer sobre uma pessoa que ela é boa com mais frequência do que má, inteligente com mais frequência do que tola, enérgica com mais frequência do que apática, e o contrário; mas seria falso dizer sobre uma pessoa, que ela é boa ou inteligente, e sobre outra que é má e tola. Mas sempre dividimos as pessoas dessa maneira. E isso é errado. As pessoas são como rios: a água é a mesma para todos e é igual em toda parte, mas cada rio é ora estreito, ora rápido, ora calmo, ora limpo, ora frio, ora turvo, ora morno. Assim também são as pessoas. Cada um traz em si um germe de todas as qualidades das pessoas e às vezes se manifesta uma, às vezes outras, e não raro acontece de a pessoa ficar de todo diferente de si mesma, enquanto continua a ser exatamente a mesma. Em certas pessoas, essas transformações ocorrem de maneira especialmente abrupta. E Nekhlyudov era uma delas. Tais transformações ocorriam por motivos físicos e também espirituais. E nele agora ocorria uma transformação desse tipo”. (pg192)


Como eu disse lá no primeiro parágrafo, este livro não é convidativo para cínicos, niilistas e congêneres. É para aqueles que acreditam na “Ressurreição”, que acreditam na literatura como força transformadora, e Tolstoi acreditava piamente nesse poder. Fica a sugestão: eu também acredito na força da literatura, a ponto de sugerir que este livro merece um lugar de destaque em sua estante.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


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Ressurreição
autor: Leon Tolstoi
editora: Cosac Naify

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