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Pais e filhos

Começo com uma pequena introdução ao livro “Pais e Filhos” colocando algumas questões que poderão nos ajudar a entender esta obra. Existem alguns críticos que ao analisarem este romance enxergam algumas possibilidades de identificá-la com o pensador alemão Friedrich Nietzsche. Tal identificação se dá a partir do conceito de niilismo formulado pelo personagem central do livro, Bazárov, que se auto proclamava um niilista.

A pergunta que se faz é: em que sentido a prosa do autor russo Turguêniev pode ser caracterizada como niilista? Vamos lá.

Nietzsche sempre foi um filósofo desconfiado de todo dogmatismo. Ele coloca sob suspeita toda e qualquer certeza, e para isso, apela para a genealogia, investiga as condições em que se dá o surgimento dos valores de uma determinada época e busca captar o que está por trás e quais são os seus verdadeiros interesses em uma determinada concepção de mundo. Desse modo, a “Genealogia” é uma crítica, uma verificação que Nietzsche faz sobre o duplo aspecto que existe nos juízos de valores. Sua crítica vai além da perda de um referencial (Deus) e chega à afirmação de uma diferença que se origina nas forças (ativas e reativas). O intuito da Genealogia da moral é o de despertar no leitor uma reflexão e uma ação mais consciente da realidade. Os valores necessitam ser repensados.

O niilismo surgiu na Europa no século XIX. Decadência, pessimismo, e niilismo eram termos frequentemente utilizados por escritores, críticos e filósofos europeus. E surge, neste momento, uma questão: Nietzsche realmente inverteu os valores com algum saldo positivo ou, ao contrário, sua posição não passa de um niilismo destrutivo levado às ultimas conseqüências? Nietzsche concebe o que ele chama de vontade de potência, que é a superação do niilismo. A metafísica da vontade de potência parece ser a superação do niilismo, uma vez que este é pensado como apenas uma “derrubada” dos valores supremos.

Na Rússia do século XIX, o termo niilista surgiu como tentativa de definição para grupos revolucionários em luta contra o Czarismo. Era uma palavra utilizada para denegrir um movimento revolucionário, contra a ordem estabelecida, o atraso, o imobilismo da sociedade e os seus valores.

Na obra “Pais e filhos”, de Turguêniev, o conceito ganhou um tom popular. Esse romance havia sido escrito após as tensões entre o regime czarista retrógado e uma modernidade em plena gestação na Europa. O romance tem como base o conflito entre gerações, está contextualizado em um período no qual a sociedade “importava” os valores da modernidade européia.

A narrativa de Turguêniev expressa a laceração na qual afundava o mundo no Século XIX, tornando-o uma era de decadência em que ganha a primazia do niilismo como princípio desorganizador que arruína as instituições e valores.

Turgueniêv caracteriza os niilistas como aqueles que negam tudo aquilo que é fundado na tradição, sobre a autoridade ou sobre qualquer realidade definitiva. O personagem central seria um niilista por excelência.

Feitas essas considerações, vamos ao livro.
“Pais e Filhos” inicia com Nikolai Kirsanov esperando ansiosamente, em uma estação de carruagens a cavalo, seu filho Arkadi que acaba de se formar na escola. Quando Arkadi chega, no entanto, seu pai fica surpreso ao ver que ele trouxe seu amigo, de Bazarov, para ficar com ele em sua fazenda. Bazarov é um estudante de medicina que serve como mentor de Arkadi. Ele é calmo, frio e desapaixonado. O conceito de niilismo aqui é introduzido na apresentação de Barzov, nesse trecho:

“- O que Bazarov é? – sorriu Arkádi. – Tio, o senhor quer que eu lhe diga o que ele é, precisamente?
- Faça-me esse favor sobrinho.
- É um niilista.
- Como? – perguntou Nikolai Petróvitch, enquanto Pavel Petróvitch se punha imóvel, a faca erguida no ar com um pouco de manteiga na ponta da lâmina.
- Ele é um niilista – disse Nikolai Petróvitch. – Vem do latim nihil, nada, até onde posso julgar; portanto essa palavra designa uma pessoa... que não admite nada?
- Digamos que não respeita nada – emendou Pável Petróvitch e novamente se pôs a passar a manteiga no pão.
- Aquele que considera tudo de um ponto de vista crítico- observou Arkádi.
- E não é outra coisa? – indagou Pável Petróvitch
- Não, não é a mesma coisa. O niilista é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio aceito sem provas, com bases na fé, por mais que esse princípio esteja cercado de respeito.” (pg 46,47)


Arkádi e Bazárov representam a intelectualidade emergente, formada por universitários provenientes de classes abastadas. Insatisfeitos com os rumos modernizadores que a Rússia estava tomando. A ciência tornava-se o refúgio do conhecimento possível e, por conseguinte, o único guia de vida individual e social do homem. Esses dois amigos universitários aceitam os preceitos positivistas, cada um de sua maneira, por ser o único válido e deve ser estendido a todos os campos sociais da atividade humana:

 

“Um químico honesto é vinte vezes mais útil do que um poeta”.(pg52).
Eram comuns à época, sobretudo na universidade, jovens dizendo que um bom sapateiro seria mais útil que um Goethe – pois a humanidade precisa mais de sapatos do que de poesia.
Apesar de afirmar que não se dedica à causa alguma, Bazárov se engaja num conflito de gerações. Antagonista da velha aristocracia russa, busca uma sublevação e renovação de todos os modos de vida, pessoal e social, profanando e dissolvendo os valores anteriormente estabelecidos
“Princípios não existem absolutamente, será que você não percebeu isso até agora? Só existem sensações. Tudo depende delas.
- Como assim?
- Muito simples. Eu, por exemplo: adoto uma atitude de negação por causa da sensação. Tenho o prazer em negar, o meu cérebro está constituído deste modo, e basta! Por que gosto de química? Por que você gosta de maçãs?É tudo igual. As pessoas nunca conseguirão penetrar mais fundo do que isso. Não é qualquer um que vai lhe dizer tal coisa e eu mesmo, de outra vez, não o direi mais”. (pg 195)


O niilismo “à moda” russa acabou evoluindo para um movimento revolucionário de cunho anarquista e mesmo terrorista. Em “Pais e Filhos”, Bazárov não chega a tais extremos. Seus conflitos são de natureza emocional. Ele não tarda a entrar em conflito com o gentil e romântico Nikolai Petróvitch e, de maneira mais brutal, com seu irmão Pavel Petróvitch, em um duelo bizarro – uma das grandes cenas do livro. Tem uma paixão não correspondida com uma bela e sedutora mulher e retorna a casa dos pais. Não seguirei por esse caminho, pois corro o risco de contar tudo! Terei de parar por aqui, para que o leitor saiba por si o fim da história.

Para finalizar, posso dizer com toda a tranqüilidade que Turguêniev foi um dos grandes escritores que a Rússia produziu.

“Pais e Filhos” revela um escritor conhecedor da natureza humana e possuidor de um estilo único. A narrativa se desdobra em sucessivos diálogos, por meio dos quais os personagens ganham voz e também, aos poucos, uma existência concreta. Os personagens aparecem diante do leitor e suscitam de uma forma bastante clara, várias questões que continuam bem atuais. Não há dúvidas, estamos diante de uma obra extremamente atual. Um clássico imperdível que deve estar em sua estante.

Ivan Turguêniev, escritor Russo, nascido em 1818 e falecido em 1883. “Pais e filhos” foi escrita e reescrita entre o fim de 1860 e o início de 1862.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


< Um Casamento Feliz O Agente Secreto >
Pais e filhos
autor: Ivan Turguêniev
editora: Cosac Naify

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