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Morrer de Prazer - crônicas da vida por um fio

Ruy Castro como ele se autodefine é “um carioca nascido longe de casa.” Um escritor de mão cheia que dispensa maiores apresentações. Autor de inúmeras biografias (hoje ameaçadas de extinção, falarei a respeito disso na próxima postagem por aqui) e romances. Seus livros foram publicados nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Portugal, Espanha, Itália, Polônia, Rússia e Turquia. E isso se deve exclusivamente ao seu  talento. Dono de um texto de alta qualidade, de opiniões originais e de uma reflexão bem apurada. Seu último livro, “Morrer de Prazer  - Crônicas da vida por um Fio”, é uma viagem pelo tempo.

A capa do livro é a imagem que simboliza a relação de Ruy com a vida: pés enfiados na areia.Não há nostalgias, saudades da infância,  comparações entre o Rio de Janeiro de ontem com o de hoje. Não há um congelamento da melhor parte de sua vida de jovem para defenestrar a vida dos jovens de hoje. Até porque tudo muda. Mas há um consenso explícito nessas crônicas que você leitor certamente encontrará: somos apresentados a um amor imenso por essa cidade e a gratidão “desse carioca nascido fora de casa.”

Isa Pessoa, da Editora Foz, teve extrema sensibilidade na seleção dos textos e crônicas ao adaptar aquilo que foi dito na fervura de uma determinada circunstância ou notícia  para os dias atuais. E o resultado ficou simplesmente ótimo. Uma leitura para morrer de prazer.


Existe uma máxima que diz o seguinte: “Quem quer fazer algo encontra um jeito, quem não quer fazer, arranja uma desculpa.” E é dessa forma que o livro começa. Ruy Castro jogou-se na vida, longe de mamãe e papai, do conforto de uma mesada e foi à luta. Não só à luta, mas também namorar muito e ouvir muita música. Darcy Ribeiro, que também era adepto de namorar muito, como vice-governador do Rio, anunciou que depois do sambódromo, mandaria construir o beijódromo.

Frequentador do Solar da Fossa, uma república de criativos, ele nos conta sobre os moradores desse lugar que antes era um convento de freiras, mas em 1968 era onde os aspirantes ao sucesso habitavam. Local frequentado por grandes artistas como: Paulo Leminski, Beth Faria, Ítala Nandi, Maria Gladys, e o já famoso Zé Keti.  Sobre o  Solar da Fossa, Toninho Vaz dedica um livro inteiro com deliciosas passagens,  já publicado no blog ( também vale cada página).

O livro passa por diversos assuntos como, por exemplo, uma crítica à contracultura, mas faz os devidos adendos sobre as opções da época: ser um politizado ou um alienado adepto da contracultura. Se colocarmos na balança, vamos constatar que nosso atual sistema incorporou muitos dos princípios apregoados pela contracultura. É claro que algumas coisas eram muito chatas e continuam chatas, concordo plenamente com Ruy Castro, mas um exemplo bem sucedido da contracultura foi Steve Jobs, um cara típico dos 1960-70, andava descalço, experimentou o LSD e foi à Índia atrás de guru(s). Steve foi adepto dos valores comunitários que emanavam de escritores como Neal Cassidy e o grupo de rock psicodélico Greateful Dead entre outros. Alguém me perguntará, o que esses valores têm a ver com os dias de hoje? Tudo!

Quando vemos a internet com suas comunidades, redes de relacionamento e compartilhamento, podemos dizer que isso tem a ver com os valores e ideais da contracultura. E isso não é uma ilação - é fato! Porém, nenhuma revolução tecnológica veio para mudar o homem e assim, continuamos os mesmos de sempre. Ganhamos velocidade, aplicativos e uma nova forma de sorver a vida. E ponto.

Em seu livro, “Morrer de Prazer”, Ruy nos fala sobre seu câncer na garganta, radioterapia, quimioterapia e a necessidade de escrever a biografia de Carmem Miranda e o desconforto que tudo isso lhe causava. E ao mesmo tempo sua fixação pelas saborosas empadinhas de que tanto gosta e o efeito na garganta que esse prazer lhe dava. Sobre alcoolismo o tema é contado com detalhes:“Enquanto Alice tirava o carro, abri a geladeira e, tremendo muito, servi-me de quatro copos de vodca – pura, gelada, do freezer. Copos, não doses. Cheios, cada qual tomado de um gole, e que sempre, como sempre, desceram como água. O tremor nas mãos não traía o nervosismo. Tremia porque acabara de acordar e estava sem beber havia horas. Ainda não descobrira como beber dormindo.” (pg171)

Um outro bom momento do livro está na reflexão sobre a geração de 1969, os heróis como Carlos Castaneda, Timothy Leary, William Burroughs, Aldous Huxley que revelavam através das citações dos poemas de Blake a abertura das “portas da percepção” a mundos interiores a serem redescobertos, enfim uma justificativa filosófica, um sonho mágico que descambou para um negócio chamado narcotráfico que movimenta bilhões de dólares. Um P.I.B. clandestino que já chegou a ultrapassar os P.I.B oficiais. Principalmente em países como Colômbia, Bolívia e Peru. No Brasil o tráfico só faz vítimas. E 1969 errou! Sentencia Ruy Castro.

Mas como digo sempre aos que frequentam esse espaço, o livro tem muito mais. É um tributo à vida, ao Rio de Janeiro, que segundo ele, lhe deu tudo. Sem medo, revela suas mazelas. Mas, com a nova lei sobre biografias que está vindo por aí, Ruy Castro pode ser condenado a pagar uma indenização a si mesmo pelos danos morais  imputados a si próprio. É claro que é uma brincadeira. Mas estamos chegando a épocas profundamente delicadas. mas Ruy Castro é um escritor que goza de profundo respeito entre seus leitores. E por mais incrível que pareça, estamos vivendo um momento onde biografias não autorizadas nesse país podem constituir crime. A que ponto chegamos...Mas sobre essa questão, como falei acima, ficará para a próxima postagem.

Por ora, peguem esse livro, leiam “Morrer de prazer”, levem para a praia, coloquem na mesinha de cabeceira - degustem - e se deparem com uma obra que merece um lugar na sua estante.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Crônica


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