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Identidade – entrevista a Benedetto Vecchi

Zygmunt Bauman continua sendo um dos maiores intérpretes do nosso tempo presente. Sua sofisticação intelectual entrelaça reflexões filosóficas e sociológicas. Solidez e liquidez são os seus dois conceitos basilares, com os quais ele discorre sobre duas épocas distintas da modernidade.

A modernidade sólida é a época em que as instituições eram “sólidas”, baseadas na tradição, ou seja, eram sólidas porque eram duradouras. Sujeitos autodeterminantes racionais cartesianos (penso, logo existo) incorporavam esses objetivos.

Vivemos a era da globalização, um fenômeno “extremamente complexo e multifacetado”. Uma de suas facetas é a tendência à homogeneização, integração, unidade e universalismo em escala global. A outra faceta é o fenômeno local heterogêneo, diferenciado, com suas diversidades e particularismos.

Esses dois momentos são faces da mesma moeda, estão intrinsecamente ligados. A globalização, no entanto, não é um processo uniforme; ele é desigual e combinado, pois se manifesta de forma diferente em vários contextos e tem diferentes efeitos para as pessoas, mas todos, de uma forma ou de outra, estão nele.

Em 1996, o cientista cultural jamaicano Stuart Hall (cujo livro “Identidades culturais na pós-modernidade” está aqui resenhado) foi um dos que primeiro que chamou a atenção para a explosão discursiva do conceito de “identidade”, que não se restringiu à academia, mas tornou-se tema cotidiano nos processos “intraindividuais”, na cena social e política.

Atualmente, a identidade é o papo do momento, um assunto de extrema importância e em evidência. Perguntas do tipo “quem você é” só fazem sentido se você acredita que possa ser outra coisa além de você mesmo.

O termo “identidade” por si só implica algo sólido, ou seja, uma continuidade na qual as pessoas se ancoram. A globalização corroeu a maioria das bases em que as pessoas ancoravam sua identidade. A nova centralidade do discurso não está onde costumava estar; tornou-se algo problemático, ou seja, uma luta, uma busca. Essas lutas são travadas em vários níveis, do local para o global.

A globalização está ligada às transformações nas esferas políticas, econômicas e sociais, e alcançaram a vida dos indivíduos. Nas sociedades tradicionais, a identidade dos indivíduos baseava-se em grande parte em sua posição social, hierarquia social, que por sua vez era determinada pelo nascimento.

Para entendermos melhor as sociedades tradicionais, é importante compreender o poder do Estado-Nação, que sempre definiu, classificou, segregou, separou e selecionou um imenso agregado de tradições, dialetos e modos de vida, que são requisitos fundamentais de unidade e coesão da “comunidade nacional”.

Durante o período de domínio do Estado-Nação, a “cena global” era um teatro político interestatal em que as ações como conflito armado e negociação sustentavam o princípio da soberania nacional. A identidade nacional desempenhou um papel crucial de legitimação na unificação política do Estado. 

Uma comunidade nacional coesa sobrepunha-se ao agregado de indivíduos do Estado. Pertencer significava, inequivocamente, pertencer a uma nação. Uma convenção arduamente construída. A identidade nacional não reconhecia competidores, muito menos opositores.

O termo “comunidades imaginárias” ou “comunidades imaginadas” implica frequentemente na negação da diversidade. Do ponto de vista da construção da nação, as diferenças na linguagem, cultura ou religião encontradas sob a jurisdição do Estado, toda a ausência da noção de progresso, não eram bem-vindas. O importante era que tudo estivesse dissolvido em uma forma nacional padrão fazendo uso dos poderes investidos. Fazer parte de uma tradição significa precisamente que algo que não se pode escolher, as instituições escolhem por nós. Quando as ideias liberais foram ganhando força nas sociedades “tradicionais”, a aceitação do princípio de igualdade fez com que hierarquias tradicionais começassem  a derreter. A ênfase nos direitos individuais teve uma grande importância, uma conquista que causou um grande impacto na modernidade sólida. Essa liberdade, no entanto, tinha um preço: o indivíduo livre e soberano, tendo rompido com o peso restritivo e repressivo das tradições, deve se tornar um inventor de si mesmo, autor de sua própria biografia.

As ideias liberais consideram a liberdade e a autonomia do indivíduo como os valores políticos primários. O estado ideal é percebido como uma coleção de cidadãos individuais livres. O liberalismo acredita que a verdadeira liberdade só surgirá se a liberdade for recusada aos inimigos da liberdade, se os inimigos da tolerância não forem mais tolerados; étnicos e outras subnacionais formas de comunidade tornam-se alvos da ação do Estado. 

Segundo Bauman, o nacionalismo e o liberalismo seguem estratégias diferentes, mas compartilham o mesmo propósito. Eles deixam pouco a pouco ou nenhum espaço para formas de comunidades além dos níveis do Estado e lealdade ao Estado.

Enquanto o nacionalismo visa aniquilar a diferença, o propósito do liberalismo é aniquilar o diferente. Em ambos os casos precisam ser despojados de sua “alteridade”. Formas étnicas e outras formas de identidades locais devem ser fundidas na identidade nacional.

Segundo Bauman, Robert Musil, autor do livro “O Homem sem qualidades”,

“...foi um desses observadores sagazes que no início do século XX percebeu que a sociedade não funciona de uma maneira adequada, uma época em que alguns indivíduos haviam atingido os píncaros da sofisticação. O descolamento das responsabilidades de escolha para os ombros de indivíduo, a destruição de sinalizadores e a remoção das marcas históricas rematadas pela crescente indiferença dos poderes superiores em relação a natureza das escolhas feitas e a sua viabilidade foram duas tendências presentes, desde o início no desafio da autoidentificação. ( pg 57)

A globalização, o colapso do Estado-nação esvaziaram as instituições democráticas e privatizaram a esfera pública. A política da identidade fala a linguagem dos que foram marginalizados pela globalização. Os estados-nação não são mais capazes de controlar o fluxo de capital e informação através da mídia e das tecnologias de informação e comunicação em suas fronteiras. As fronteiras dos estados tornaram-se cada vez mais porosas, as forças globais impõem suas leis.

O surgimento do mercado global e outros fatores na forma de livre fluxo do capital estão forçando cada vez mais Estados a se tornarem membros de blocos de poder regionais para poderem ser mais competitivos na nova economia nacional.

No terreno cultural, vemos a homogeneização, isto é, a convergência cultural, o crescimento do capitalismo de consumo, que traz em seu bojo uma convergência de hábitos culturais e ideias hegemônicas, estilos de vida, símbolos populares e outros produtos culturais em massa que são comercializados por meio da tecnologia superior, criando assim uma demanda por eles em todo o mundo.

O indivíduo privatizado está isolado, impotente e indefeso. Os sentimentos de impotência são reforçados pelo fato de que os poderes que moldam as condições em que as pessoas têm que viver e resolver seus problemas estão se tornando cada vez mais globais.

A esfera pública é cada vez mais suplantada por produtores privados. Devido ao desenvolvimento tecnológico e à digitalização, as mídias agora têm que competir com as mídias locais e globais. Justamente porque o papel mais importante da internet na estruturação das relações sociais é a contribuição para o novo modelo de sociabilidade baseado no individualismo. 

O atomismo social isola o indivíduo, dando pouca esperança de unir forças com outros contra os poderes nacionais e globais para mudar as regras do jogo.

De fato, em nossa era contemporânea, a relação entre o indivíduo e a sociedade está mudando, porque os conceitos de identidade, indivíduo e individualidade estão se tornando sem sentido. O mundo exige do indivíduo uma busca constante e cada vez mais controvertida de identidade e rastreamento de parâmetros para padronização, a fim de obter o “papel” dos indivíduos, porque, hoje, a identidade é uma tarefa. 

Ser indivíduo na sociedade líquida não significa simplesmente ser bom consumidor, mas também ser produto competitivo no mercado global. Os indivíduos, não podendo mudar o que realmente importa, dedicam-se à prática trivial do consumo. A cultura do consumo também se tornou mais do que mero consumo de bens de consumo e commodities, tornaram-se importantes maneiras pelas quais os indivíduos adquirem e expressam identidade.

A gestão autônoma de nossa corporeidade, responsabilidade pessoal, que tem a “responsabilidade de ser indivíduos”, deriva do conceito de “ter”, e não de “ser”. Ter meios para possuir porque ter alguma forma de controle é capaz de gerar segurança em um mundo sem seus sólidos pontos de referência. 

O consumo tem características ambivalentes: alivia a ansiedade, porque o que se tem não pode ser retomado, mas também exige que os consumidores consumam cada vez mais, já que o consumo anterior logo perde sua peculiaridade recompensadora.

E nessa espiral viciosa, que corre entre a posse e o consumo, é o efeito mais evidente do que Bauman chama modernidade líquida, que – ao contrário do pós-modernismo – tem uma relação contínua com o processo de modernização, que tem suas origens nos tempos modernos – mas prolonga e intensifica até atingir a liquidez do nosso tempo, caracterizada pelo consumismo desenfreado.

Para Bauman, o termo “identidade” implica uma atividade sem fim, que é sempre incompleta e que nunca termina. A busca frenética por uma identidade é um resíduo dos tempos pré-moderno e pré-globalização. É uma combinação de múltiplos processos contraditórios associados à globalização.

“Identidade”, de Zygmunt Bauman, é um livro que nos ajuda a compreender o mundo indecifrável que estamos vivendo. Eu indico sem pestanejar. Um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.


Data: 02 maio 2019 (Atualizado: 02 de maio de 2019) | Tags: Psicologia


< Identidade cultural na Pós modernidade O Povo Brasileiro. A formação e o sentido do Brasil >
Identidade – entrevista a Benedetto Vecchi
autor: Zygmunt Bauman
editora: Zahar
tradutor: Carlos Alberto Medeiros
ilustrador: Capa: Sergio Campante

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