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Guerra e Spray

Hoje falaremos de um artista mítico da cena do grafite. O seu nome é Bansky, identificado como um poeta visual dos tempos modernos. Antenado com os fatos sociais, é um artista comprometido, nada resiste a ele. Suas intervenções nos muros das cidades do mundo foram consideradas repreensíveis para alguns e muito subversivas para outros.

Ele gosta de provocar, chocar, perturbar a tudo e a todos. Você pode não gostar dele, mas inegavelmente Bansky te obriga a refletir e a pensar. Eu sou fã de carteirinha dele, por sua importância, por sua capacidade de quebrar as regras, ele permanece até hoje como um grande mistério. Nascido em 1974, foi na década de 1980 que ele começou a manusear o aerossol. Mas foi em 1992 e 1994 que ele se tornou realmente um grafiteiro, como parte de um grupo chamado DrybreadZ Crew (DBZ), de Bristol, ajudando os colegas Kato e Tes.

Filantropo, antiguerra e revolucionário, o artista usa sua arte como meio de comunicação para expressar claramente sua insatisfação com certos fenômenos sociais, certas situações políticas ou certas decisões adotadas pelos líderes mundiais. Reza a lenda que o seu nome verdadeiro seria Robert Banks, mas não é uma informação cem por cento confiável. Bansky insiste em permanecer anônimo, como o espírito do grafite, que envolve a criação de obras de arte no mais puro segredo. Sua arte é uma mistura de tudo que envolve a crítica, ironia, irreverência, humor, e, muitas vezes, contém mensagens muito claras, no contexto em que não são interpretadas literalmente.
Algumas pessoas gostam de pensar que Banksy poderia ser uma mulher ou um coletivo. Porque se não conhecemos a identidade do artista, as especulações são muito bem-vindas. Ele brinca com os códigos segundo os quais a sociedade gostaria que amássemos um artista antes de amar seu trabalho. Aqui, é apenas o trabalho dele que conta.

"Quem realmente desfigura nossos bairros são as empresas que rabiscam slogans gigantes em prédios e ônibus tentando fazer com que nos sintamos inadequados se não comprarmos seus produtos."

Uma figura amada no mundo da arte e ao mesmo tempo pesadelo das autoridades policiais, ele é conhecido como um terrorista na Grã-Bretanha. Sua capacidade de se comunicar mantendo o anonimato é a causa da mitologia que corre sobre a vida desse grande artista. Ele gerencia sua arte de uma maneira genial. Ele excita e provoca o público de uma maneira tão fascinante que o público sempre quer mais. Isso de diversas maneiras, embelezando, exagerando, dando ao seu trabalho uma perspectiva que até onde eu sei poucos conseguiram fazer.

Nas paredes, algumas das obras de Banksy denunciam a privação da liberdade, especialmente no muro de Gaza ou no muro de Jerusalém, onde ele pinta aberturas, paisagens da praia, nuvens, a escada que atinge o topo do muro ou crianças cavando um buraco. Ele também denuncia a sociedade de consumo apontando para emblemas da América consumista. O mais famoso grafite é a garotinha com o balão.

Finalmente, Banksy entra no formigueiro da arte contemporânea, dando aos seus colegas a seguinte mensagem: é inútil se levar a sério demais.

Seus disfarces causam um imenso burburinho, como, por exemplo, uma fotografia tirada na Jamaica, mas que parece não corresponder às informações frequentemente veiculadas. Ele foi visto em Nova York, será? Quem é ele? Essa é a pergunta de um milhão de dólares.
Nesta imagem icônica, dois policiais (aparentemente masculinos), cheios de uniformes típicos britânicos, são retratados se beijando, no que parece ser um abraço amoroso. Este trabalho foi originalmente pintado com spray na lateral do pub Prince Albert, na Trafalgar Street, perto do centro da cidade de Brighton. 

Bansky permanece em segredo e recusa a fama resultante de sua abordagem. Recusa-se a ser como as celebridades artísticas, que são capazes de fazer de tudo para que seus rostos sejam expostos em uma capa de jornal ou de revista. Ele odeia esse tipo de atitude.
Banksy realiza seus estênceis em todas as paredes do mundo. Em 2005, ele começou a pintar na parede de Gaza para restaurar a esperança do povo palestino. Encontramos seu estilo particular em todos os lugares: Nova York, Londres, Paris, Veneza... Ele também abriu um hotel em Belém, uma espécie de museu de hotel, cujos lucros são reinjetados em projetos locais. Bansky sabe como deixar uma marca.

A atitude de Banksy em relação às grandes marcas é ambivalente. Ele se opõe à marca corporativa e se tornou sua própria marca no processo. Nos últimos anos, as próprias marcas, como Nike, que Bansky despreza, o abordaram lhe oferecendo milhões para fazer campanhas publicitárias, mas ele sempre recusa. A lista de trabalhos que lhe foi oferecido é enorme. É como um currículo reverso, meio estranho. A razão da recusa? Deixem que ele mesmo responda: 

"Porque eu não preciso do dinheiro e não gosto de crianças trabalhando até os ossos por nada. Gosto da frase de Jeremy Hardy: 'Minha filha de 11 anos me pediu um par de tênis no outro dia. Eu disse: Bem, você tem 11 anos, faça você mesma'. Eu quero evitar essa merda, se possível. "

Este trabalho de Banksy refigura a icônica pintura impressionista Bridge Over a Pond of Water Lillies (1899), de Claude Monet. O original de Monet revela uma cena tranquila de seu próprio jardim, com uma rica vegetação refletida nas águas calmas. Banksy replicou a pintura original de Monet quase exatamente, usando os mesmos materiais que Monet. No entanto, Bansky adicionou dois carrinhos de compras descartados e um cone de trânsito à lagoa.

Monet(y) (2005)

Ao usar carrinhos de compras, uma imagem associada ao consumismo, a mensagem de Banksy é que a sociedade está focada em bens materiais, comprando mais do que o necessário em uma tentativa fútil de nos sentirmos felizes e realizados. Além disso, ao representar esses objetos criados pelo homem como descartados em um cenário natural de outra maneira bonito, ele critica o desrespeito da sociedade contemporânea pela natureza em favor do fetichismo das mercadorias e da produção de resíduos excessivos. Até o título da obra de Banksy subverteu o significado do original, com a palavra “dinheiro” sendo uma brincadeira com Monet, que pode ser lida como uma crítica à comercialização da arte.
Mona Lisa Bazooka (2007-2008)

Neste trabalho, Banksy exibe uma das pinturas mais famosas do mundo, a Mona Lisa (1503-4). Em sua peça, a protagonista feminina usa um fone de ouvido enquanto mira um lançador de foguetes em seu estilo típico de estêncil em preto e branco. A peça apareceu pela primeira vez no distrito de Soho, no oeste de Londres.

Embora a justaposição de Banksy da mulher mais famosa da história da arte com uma poderosa arma moderna possa certamente ser bem-humorada e atrevida, há mais coisas que podem ser lidas na imagem. Enquanto a Mona Lisa de Da Vinci parece graciosa e passiva, Banksy lhe dá uma sensibilidade poderosa, confrontadora e ativa. Sua expressão facial permanece tão calma quanto no original. No entanto, ao lado da arma poderosa, seu sorriso acolhedor parece um pouco ameaçador. Também pode ser lido como uma declaração de como os cidadãos desafortunados se tornaram diante das realidades da guerra em andamento, sempre ocorrendo em algum lugar distante de suas próprias vidas tranquilas.

Tinta em spray – Londres
Raiva, o Atirador de Flores (2005)

Este trabalho mostra um homem vestido com o que associamos ao equipamento antimotim tradicional, com uma bandana que obscurece o rosto e o boné para trás. Sua postura é de uma pessoa prestes a tomar um coquetel molotov; ele está mirando e está pronto para jogar sua arma. No entanto, em vez de uma arma, ele segura um ramo de flores (que é a única parte do mural que aparece em cores.) Esta peça está localizada em uma parede ao lado de uma garagem em Jerusalém, na estrada principal para Beit Sahour, Belém.

Ao substituir uma arma por um ramo de flores, Banksy está defendendo a paz em vez da guerra, e ele optou por instalar essa mensagem de paz em uma área de alto conflito. O trabalho também traz a mensagem de que a paz vem com o trabalho duro e ativo. O buquê de flores deste trabalho, além de simbolizar paz, vida e amor, também pode ser entendido como uma comemoração de vidas perdidas em um conflito religioso antigo. É um bom exemplo do uso da arte por Banksy para transmitir mensagens de importância social.

Estêncil e tinta spray – Belém

Pintura - muro de barreira da Cisjordânia

Este mural mostra dois meninos brincando com baldes e pás, como crianças criando castelos de areia na praia. Os meninos, um de pé e o outro ajoelhado, olham de volta para o espectador, representado na estética estêncil típica de preto e branco de Banksy. Logo acima dos meninos, o artista criou a ilusão de uma seção quebrada da parede cinza na qual o mural foi criado. Através desse buraco falso, é visível uma imagem fotorrealista de um paraíso de praia tropical, com areia, água e várias palmeiras.

Tal como acontece com muita arte de rua de "guerrilha", a localização da peça desempenha um papel central em seu significado. Banksy gravou esse trabalho na parede da barreira da Cisjordânia israelense-palestina em agosto de 2005, juntamente com outros oito murais (incluindo uma pomba com colete à prova de balas e um alvo em forma de coração sobre o peito, uma criança embaixo de uma escada que se estendia até o topo do muro e a silhueta de uma jovem sendo levantada por um monte de balões). Enquanto os israelenses consideram o muro uma proteção contra o terrorismo, os palestinos afirmam que seu objetivo é a segregação racial.

Enquanto Banksy estava criando essa imagem, "as forças de segurança israelenses dispararam no ar de forma ameaçadora e havia algumas armas apontadas para ele". No entanto, Banksy questionou: "Quão ilegal é vandalizar um muro se o próprio muro foi considerado ilegal pelo Tribunal Internacional de Justiça?".

Esta peça brinca com a noção de que a grama pode ser mais verde e a paisagem (talvez ambiental, talvez política) pode ser melhor do outro lado dessa grande barreira (embora saibamos que não é). O artista também pode estar sugerindo que um melhor cenário político só poderia surgir se a barreira fosse destruída. Ao incluir crianças nisso, e vários outros murais na parede, o artista nos obriga a considerar o preço que o conflito local assume para os inocentes. O espectador está ainda mais fortemente envolvido no trabalho através do olhar direto das crianças.

Ao pintar esses murais em 2005, Banksy conversou com um palestino, que lhe disse: "Você pinta a parede, a faz parecer bonita". E Banksy respondeu: "Obrigado". O palestino disse então: "Não queremos que seja bonito, odiamos esse muro, vamos para casa".
Pintura - muro de barreira da Cisjordânia

Fico por aqui, sem antes dizer que algumas imagens desta resenha não se encontram no livro. Como algumas de suas opiniões que foram citadas aqui, mas não se encontram no livro. Mas não importa. O importante é conhecer esse grande artista. Talvez um dos mais originais dos tempos atuais. Indico sem pestanejar essa obra de arte, que merece um lugar de honra na sua estante.


Data: 11 dezembro 2019 (Atualizado: 11 de dezembro de 2019) | Tags: Arte


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Guerra e Spray
autor: Bansky
editora: Intrínseca
tradutor: Rogério Durst

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