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Uma viagem à Índia

Gonçalo M. Tavares é um autor ainda pouco conhecido do grande público brasileiro.Então, vamos a uma breve apresentação desse autor que merece destaque: nascido em 1970, em Angola, já publicou mais de vinte títulos, a maioria traduzida em vários idiomas,e agraciado com prêmios e mais prêmios mundo afora entre poemas, contos e romances. Mas pouco a pouco esse autor vai ganhando entre nós a visibilidade que merece. Confesso que Uma viagem à Índia foi o primeiro contato que tive com sua escrita, e a impressão deixada foi à seguinte: se a qualidade for mantida, e creio que será superada, teremos entre nós, na Língua Portuguesa, mais um prêmio Nobel vindo de terras Africanas. É a aposta que faço com os leitores desse blog. Não me pergunte quando. Não sou “mãe Dinah”, nem tenho acesso a Orixás, mas o garoto vai longe. O que é uma excelente notícia para os fãs da Literatura de Língua Portuguesa, grupo no qual me incluo.

E vamos ao livro: Uma viagem à Índia é dividida em dez “cantos”, isso mesmo, tem a disposição de um longo poema, sem ser um poema. Não há qualquer elemento formal, como rimas, estrofes e versos, mas a escrita mistura poesia e prosa que se alongam em ruminações íntimas e questões metafísicas.

Podemos também dizer que o livro assume o lado ensaístico sem perder, no entanto, o fio da meada sempre presente nas lembranças incômodas do personagem. Essa formalidade através dos “cantos” na verdade indica o aspecto épico do livro, uma releitura de Camões em grande estilo. Essa é a ironia fina que o livro apresenta.

Tavares reutiliza a forma da epopéia inspirada nos Lusíadas, de Camões, para contar a história de Bloom, nosso protagonista, um homem absolutamente comum que faz uma viagem de Portugal à India, com escalas em Paris, Londres e Praga. O ponto de partida na verdade é outro: - sua fuga. Esse cidadão decide partir de Portugal após uma série de acontecimentos trágicos em sua vida e sua viagem se transforma em uma busca de autoconhecimento e esquecimento do seu passado. É nesse país místico, berço de grandes iogues, gurus e sábios, que o protagonista pretende se libertar do seu passado em busca de aprendizado espiritual.

Bloom tem em Ulisses, de James Joyce, a inspiração central. Vamos descobrindo aos poucos como a sua história está repleta de paralelismos com Os Lusíadas – apenas um dado: Os Lusíadas se passa em 1498 e a outra em 2003. Joyce concentrou a sua odisséia num só dia. Na viagem de Gonçalo Tavares, utilizando de uma enorme imaginação criativa verbal, faz a Odisséia de Bloom, de sua obra, durar por meses.

O personagem é errante e desorientado, sempre metido em confusões sociais e encrencas, porém, não podemos afirmar que Bloom é um “anti-herói”, pois se assim o fosse teríamos que acreditar que o heroísmo faz algum sentido, mas no caso do nosso protagonista, ser herói não tem o menor sentido.

Na modernidade, a experiência é muitas vezes mental. Porque Bloom sabe que não é real, é um personagem de ficção. Explico: Bloom é um personagem de ficção moderna que carrega a lâmina da ironia como arma para se defender do mundo.

Este Bloom, de 2003, vive em outro mundo, não o mundo das grandes conquistas e das grandes descobertas coletivas. É o oposto de qualquer forma de coletivo, é um individualista moderno. Alguém que parte sozinho, seguindo o percurso dos Lusíadas, em pleno século XXI, e volta sozinho em sua viagem mental e física, seguindo os acontecimentos mundanos, mesquinhos e mínimos. Nesta viagem à Índia, cada um de nós também é passageiro. E o personagem de ficção, Bloom, mantém sempre uma dupla distância em relação aos acontecimentos, justamente por sua consciência de ser um personagem.

Walter Benjamin em seu ensaio “O narrador” diz que a memória é o elemento artisticamente formador do épico. Na verdade, é preciso recordar para que algo seja transmitido. A recordação representa e integra os elementos artísticos na obra épica e, entre esses elementos, encontra-se o narrador.

Bloom viaja à Índia para esquecer seu passado. Viver o presente sem laços, um ser desmemoriado da modernidade:

“à procura do impossível: encontrar sabedoria enquanto foge; fugir enquanto aprende".

A idéia de "epopéia" é mais uma idéia revivida do que uma experiência genuína. Antes de encontrar o caminho aéreo para a Índia, Bloom vai perceber, em diversas cidades, que a humanidade é igual em toda a parte.

Acho que se há uma aprendizagem em Bloom, os resultados podem em parte ser esses. Ele deu a volta ao mundo para regressar a si próprio, numa Rua de Lisboa:

“A cidade tem a sinalização adequada para que quem regressa a casa não se perca no caminho. Mas o frio aumenta e Bloom não sabe para onde ir.”

Ao leitor desavisado que possa intimidar-se com a forma do livro, não se deixe acovardar. A leitura da epopéia de Bloom marcará corações e mente.

"Uma viagem à Índia" é uma senhora viagem.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


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Uma viagem à Índia
autor: Gonçalo M. Tavares
editora: Leya

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