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O Falcão Maltês

Faz muito tempo que não rola uma resenha de um livro policial pelas bandas de cá. Não me lembro o último. Mas nada melhor do que recomeçar com um clássico. E o nome do livro é “O Falcão Maltês”, de Dashiell Hammett. Muitos o conhecem, outros o conhecem de nome. E muitos, provavelmente, desconhecem completamente esse autor. Vamos fazer uma breve biografia do autor. Pela biografia, muitos entenderão a personalidade do seu herói, Samuel Spade.

Minha edição tem um prefácio maravilhoso de Ruy Castro, que nos ajuda a ler e a entender a obra desse extraordinário autor, dono de uma autenticidade fervorosa, um dos criadores do gênero policial noir.

Dashiel Hammett foi criado na Filadélfia e em Baltimore, deixou a escola aos 14 anos e teve vários empregos antes de se tornar um agente da Agência nacional de detetives Pinkerton em 1915. Serviu na Primeira Guerra como sargento. Começou sua carreira como escritor em 1922 e, nos doze anos que se seguiram, escreveu vários romances, roteiros, contos. Ele deixou de escrever depois de 1934 e se concentrou no ativismo político. Casou-se com a escritora Lilian Hellman, autora de “Children’s Eyes” e “The Little Foxes”, peças que alcançaram grande sucesso no teatro americano.

Era um antifascista determinado. Serviu na Segunda Guerra Mundial por dois anos. E ganhou uma medalha quando voltou: um enfisema. Mas tudo isso não significou nada quando foi convocado a depor por atividades antiamericanas e se recusou a entregar membros do Partido Comunista dos EUA. Por se recusar, ele foi condenado a cinco meses em uma prisão federal. Impopular com o público americano com suas opiniões políticas controversas, Hammett passou os últimos dez anos de sua vida como um recluso. E veio a morrer em 1961.

Como já disse, Hammett começou a escrever “O Falcão Maltês” depois de servir na Primeira Guerra Mundial. Em um ambiente de muitas críticas por falharem com o povo americano pelo envolvimento em uma guerra desnecessária. Não foi à toa que Hammett, através de seu personagem Samuel Spade, criticou todos os níveis de autoridade, revelando sua impotência e possível corrupção. E, claro, a ganância e a opulência e ao mesmo tempo a pobreza excessiva que marcaram a década de 1920.

Vamos a ele?

Vou adiantando uma dica: leiam numa lufada só. O livro nos fornece muitos motivos para isso. É sensacional a narrativa, mas, como os personagens não são confiáveis, pode acontecer de você se perder durante a leitura.

No primeiro parágrafo do livro, vemos Hammett descrever o protagonista Samuel Spade:

“O maxilar de Samuel Spade era longo e ossudo, seu queixo em V proeminente sob o V mais flexível da boca. As narinas curvavam-se para trás, fazendo um outro V menor. Os olhos amarelo-pardos eram horizontais. O motivo V era retomado de novo por espessas sobrancelhas saindo de duas rugas gêmeas sobre o nariz adunco erguendo-se na parte externa, e o cabelo castanho claro descia das têmporas altas e achatadas, em ponta sobre a testa. Dava a impressão um tanto divertida de um demônio loiro” (pg 11)

Vemos aqui os traços faciais de Samuel Spade, que é uma versão loira de Satanás. Essa descrição nos mostra o protagonista como um homem de moral imperfeita. Na tradição cristã, Satanás é o grande enganador. Então, a descrição prenuncia que ele é esse homem, ou seja, um homem que sabe enganar.

Spade é um detetive particular que divide um escritório: Spade & Archer. O livro começa quando Effie Perine, que é sua assistente, descrita como magricela de aparência infantil, entra na sala particular do escritório de Spade anunciando a chegada de uma linda mulher chamada Srta Wondely. No instante em que ele enrola o cigarro, ele pergunta o que ele poderia fazer por ela.

Mostrando uma angústia emocional acrescida de frases desconexas, a Srta Wonderly fala sobre o desaparecimento de sua irmã adolescente chamada Corine, que havia fugido para San Francisco com um tal de Floyd Thursby. Ela parece uma “donzela” em apuros que usa de sua fragilidade para seduzir Spade. E lhe pede que a ajude antes que seus pais voltem da Europa em duas semanas.

No meio da conversa, Miles Archer (seu sócio) invade a sala surpreendendo Wondely. Spade apresenta Miles Archer como seu parceiro e informa sobre os detalhes. Eles são céticos em relação à história dela, mas o dinheiro oferecido por ela faz o risco valer a pena. Ela pede que Archer ou Spade sigam Floyd Thursby à noite a partir das oito horas, Archer assume a tarefa.

Naquela mesma noite, Spade acorda com um telefonema dizendo que seu parceiro Archer foi morto. Quando ele chega à cena do crime, conversa com um policial chamado Tom Polhaus sobre a possibilidade de um indivíduo chamado Thursby ter matado Archer.

Quando Spade volta para sua casa, acaba recebendo uma visita nada agradável do mesmo Polhaus e do tenente Dundy, um policial arrogante, que começa uma série de perguntas capciosas sobre o assassinato. Os policiais revelam que Thursby também foi morto trinta minutos depois de Archer ter sido assassinado. Spade explica que Archer estava perseguindo Thursby por causa de uma cliente. Eles dão a entender que esse crime teria sido cometido por vingança. Spade responde:

“- Talvez. E aqui está uma coisa que você não deve esquecer, meu amor. Contarei ou não, como me agradar. Já foi longe o tempo em que eu chorava porque os policiais não gostavam de mim” ( pg 25)

 

Spade se recusa a dar detalhes sobre sua cliente à polícia, até que ele fale pessoalmente com a Srta Wonderly primeiro. Spade vai ao hotel da Srta. Wonderly e descobre que ela fez o check-out naquela manhã. Um funcionário de hotel chamado Sr. Freed diz a Spade que viu Miles sentado no saguão na noite anterior. Spade também descobre que Miss Wonderly deixou um novo endereço – o Ambassador, um hotel em Los Angeles. 

Quando ele vai ao quarto de hotel da Senhora Wonderly, ela logo revela que não tem irmã e que toda a sua história é uma mentira. Seu verdadeiro nome é Brigid O'Shaughnessy e age de uma forma nervosa e com medo enquanto implora pela proteção de Spade. Ele pergunta o que aconteceu na noite anterior, e ela diz que ela e Thursby deram uma caminhada, jantaram e voltaram para o hotel. Então Thursby saiu e Archer (ex-sócio de Spade) o seguiu. Ela soube dos assassinatos pelos jornais matutinos. Ela se mudou para um apartamento porque seu quarto de hotel foi revistado.

Ela responde se desculpando perlas mentiras que contou sobre sua irmã falsa, mas ele reconhece ser incapaz de confiar em qualquer coisa que ela diz.

“- Muito bem, então Sr Spade, não sou, de forma alguma, a pessoa que finjo ser. Tenho oitenta anos de idade, sou incrivelmente perversa, uma falsária de profissão. Mas se é uma pose à qual me acostumei não vai esperar que a abonde, não é?”( pg 56)

Ela se fragiliza e ele topa ajudá-la tanto quanto puder, desde que ela forneça informações sobre os assassinatos. Brigid se esforça para usar sua magia de femme fatale com Spade. Sua tática é aparecer como uma vítima desprotegida e carente de proteção masculina. Ela chora, gagueja, implora, chora e cora, estremece, morde o lábio, olha para ele de modo assustado. Ela diz que Thursby se aproveitou da sua impotência e dependência para traí-la.

E ele quer saber mais sobre o relacionamento dela com Thursby. Brigid diz que o conheceu em Hong Kong, mas que ele se aproveitou dela. Spade pergunta se ele matou Archer e ela diz que sim. Mas não soube dizer como ele foi morto.  Ela implora para ele não falar nada à polícia. Ele coloca como condição uma compensação financeira. E ela lhe dá US$ 400,00, e ele topa.

Quando Spade chega no dia seguinte ao seu escritório de manhã, Effie (sua secretária) informa que Iva Archer (mulher de seu sócio) está esperando-o em sua sala particular. Atrás de sua porta fechada, Iva e Spade se beijam e se abraçam.

É isso mesmo: o nosso detetive protagonista traía seu sócio. Ela pergunta se ele tinha matado seu marido Archer, por ciúmes dela. Chocado com a pergunta, ele se afasta dela, em vez de responder. Ela começa a chorar, ele a abraça novamente e diz que vai visitá-la em sua casa no dia seguinte. E o mais intrigante de tudo:  ele substitui “Spade & Archer” da porta de seu escritório para apenas “Spade”.  

O caso de Spade com a esposa de seu parceiro o faz um “anti-herói”. É um prenúncio importante de sua arte de enganar, através de sua dissimulação. Um homem que é capaz de muitas coisas moralmente duvidosas.

Até que o personagem Joel Cairo nos é apresentado com suas roupas extravagantes, joias e perfumes. No romance, podemos ver que Joel Cairo é um contraponto à masculinidade estereotipada de Spade. Cairo é a primeira pessoa a mencionar a existência de um “pássaro preto”, símbolo sobre o qual a história irá se desenvolver. Todos querem colocar as mãos nesse pássaro a qualquer custo.

As discussões entre eles começam a ficar ásperas por causa do “pássaro preto”, até que Cairo aponta uma pistola e Spade, que não é bobo, aplica-lhe um golp,e levando-o ao nocaute. Quando Cairo acorda, ele já está sem sua pistola. Ele acha em seu bolso um recorte de jornal, o que confirma uma ligação de Cairo com Thursby, e Brigidi de alguma forma.

Spade questiona Brigid, e ela confessa que havia sido contratada para roubar o falcão na Turquia, mas ela não sabe o que aconteceu com ele desde então. Bigid diz que o “pássaro”, que na verdade é um falcão, pertencia a um russo chamado Kemidov. Ela afirma não saber onde está a estatueta.

Aqui cabe uma explicação para a história do falcão maltês:

“Que sabe o senhor sobre a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, mais tarde chamada Cavaleiros de Rodes, e outros títulos?

Spade acenou com o charuto. – Não muito... apenas que me lembro de história na escola... Cruzados ou qualquer coisa assim.

- Muito bem. Então não se lembra que Solimão, o Magnífico, expulsou-o de Rodes em 1523?

- Não

- Bem, expulsou-os, e eles se estabeleceram em Creta. E aí ficaram durante sete anos, até 1530, quando o persuadiram o Imperador Carlos V a dar-lhes – levantou três dedos roliços e contou neles – Malta, Gozo e Trípoli.

- Sim

- Sim, mas estas condições: deviam pagar ao imperador, todos os anos, o tributo de um – ele ergueu um dedo – falcão, como reconhecimento de que Malta estava ainda sob o domínio da Espanha, e de que, se eles algum dia deixassem a ilha, ela reverteria à Espanha. Compreendeu? Ele lhes dava a ilha, mas enquanto a estivessem usando não poderia dar ou vender a ninguém mais” (pg 112)

Bem, a verdade sobre esta história está aqui:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tributo_do_Falc%C3%A3o_Malt%C3%AAs

Esses falcões, no entanto, eram pássaros vivos, e não estátuas de joias. A ideia de que o falcão é uma estátua incrustada de joias foi inventada por Hammett.

Feita essa observação, vamos seguir a história.

Spade sabe que essa última parte era uma mentira. Ele, indiferente, diz a Brigidi que conheceu Joel Cairo. Ela fica assustada e inquieta, e fica surpresa que o nosso detetive o conhecesse. Ele observa a reação dela. E lhe avisa a que foram oferecidos cinco mil dólares a ele para encontrar o pássaro.

Ele descobre que Brigid O'Shaughnessy tem algum tipo de conexão com esse pássaro. Ela diz a ele que não tem esse pássaro. E combina de se encontrar com Joel Cairo.

Spade e Brigid jogam um com o outro, misturando verdades com mentiras. Ele não quer que Brigid saia, então ele diz a ela que o apartamento está sendo vigiado, quando não está. Ele propõe que ela fique na casa de sua secretária, por enquanto.

A principal mentira que Brigid conta é que ela não sabe onde está o falcão, o que prova ser falso mais tarde no romance. Ela também afirma não saber por que é tão valioso, mas provavelmente sabe exatamente por quê. Spade tenta arrancar informações dela, mas o que ela diz a ele é apenas parcialmente verdade. A coisa mais honesta que Brigid diz é que ela é uma mentirosa.

O detetive fervoroso e a femme fatale passam a noite juntos, provavelmente motivados por uma mistura de luxúria e desconfiança. Ambos precisam obter informações um do outro. Ambos também estão acostumados a usar o sexo para conseguir o que desejam. Em um romance cheio de negociações obscuras e ambiguidades morais, o que seu encontro sexual realmente significa para Brigidi ou Spade em um nível mais profundo, entretanto, é difícil de determinar. Talvez não. O sexo como forma para buscar o que é mais valioso no submundo do crime: informação.

Um novo personagem desta história aparece. Ele é um homem sem princípios, tem um desejo insaciável de encontrar o falcão. Sua fisionomia de um glutão deriva de seu apetite por dinheiro. Os dois começam uma barganha. Embora com estilos diferentes de negociação, cada um tem algo que o outro deseja, e os dois precisam descobrir o que o outro sabe ou não sabe e se está disposto a compartilhar ou não.

Enquanto isso, a credibilidade de Brigidi começa a despencar como a Crise de 29. Brigidi desaparece. Sua secretária diz que ela não apareceu na casa dela.

A busca para encontrar o pássaro preto levou a esse ponto culminante da história. La Paloma, o navio de Hong Kong, reuniu todos os personagens principais. É óbvio que o navio tem alguma relação com a estatueta. O falcão chega misteriosamente à porta de Spade nas mãos de um homem moribundo. Por fim, Spade sabe quem está com o pássaro – ele sabe. Quem? Bem, fico por aqui. Não dá mais para falar dando um spoiler.

Apenas uma coisa eu posso adiantar a todos vocês que têm o hábito de ler este site: “ O Falcão Maltês”, de Dashiell Hammett, é um livraço, que merece um lugar de HONRA na sua estante.


Data: 22 abril 2021 (Atualizado: 22 de abril de 2021) | Tags: Policial


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O Falcão Maltês
autor: Dashiell Hammett
editora: Brasiliense
tradutor: Cândida Villalva
gênero: Policial;

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