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Roda-gigante - um romance sobre sexo, bebedeiras e desencontros

Tive um imenso prazer em ler o livro “Roda-Gigante”, do escritor e jornalista Henrique Chveidel, da editora Lacre, uma editora que acertou ao apostar suas fichas no autor e na obra em questão.

O livro retrata a vida de sete jovens da classe média carioca, no final dos anos 80. Para contextualizar essa história e para que seus personagens se apropriem de suas tramas e escolhas, precisaremos tecer alguns comentários sobre essa década tão falada – para o bem ou para o mal.

Na década de 80, vivenciamos a abertura política do Brasil e, paralelamente, experimentações em todos os níveis. Nossa economia, por exemplo, foi marcada por “planos econômicos” e pela inflação em quase três dígitos, algo em torno de 100% ao mês em determinados momentos, e tivemos, somente nesta época, três moedas: o Cruzeiro, o Cruzado e o Cruzado Novo. Vimos o retorno dos exilados ao país e novos ventos sopraram em nossas relações políticas com o mundo. No plano Global, como não poderia deixar de ser, em 1989, a queda do Muro de Berlim e das ideias autocráticas trouxeram esperança e futuro a uma Europa dividida. Se na década de 70, aqui no Brasil, vivenciamos a rigidez de um modelo político ditatorial, a década de 80 surge como um contraponto, com a descontração de um novo cenário.

Fechado esse parêntese, com cenário definido, vamos voltar ao livro. As tramas, embora paralelas, giram em torno de um eixo comum: a liberdade e os seus excessos. Os personagens são plenamente factíveis e universais, pois podem ser encontrados em qualquer lugar do mundo. Afinal, gente perdida é o que não falta. Mas, estranhamente, pela ironia do destino “mulheres e homens perdidos, são os mais procurados”.

A liberdade é o centro de toda problemática do livro. Não que o autor pretenda tecer uma discussão acadêmica sobre o existencialismo em suas páginas, mas seus personagens são existencialistas sem terem lido uma única linha de Sartre, Camus, kierkegaard. Porém, sub-repticiamente, essa é uma discussão que impera nas relações entre os personagens e o que torna o romance próximo e delicioso.

Nas relações interpessoais, podemos fazer as seguintes indagações: “Até que ponto o modo de vida do outro impõe limites à minha liberdade, e até que ponto esta limitação se constitui num bem para mim?", “E se, ao afirmar livremente minha forma de viver, esta forma acarretar um dano ao outro?” ou “Até que ponto ser livre não implica em transformar o outro em um simples objeto para realização de minha liberdade?” Chris, uma das personagens, é refém de seus instintos sexuais e casada com Val, outra mulher, que objetiva apenas um relacionamento seguro e duradouro, mas se vê no olho do furacão quando Chris conhece André.

Chris desperta desejos inconfessáveis em qualquer homem, em qualquer mulher. Ela não encontra limites para se sentir livre sexualmente. Ao seduzir André, ele se torna sexualmente dependente desta relação e recorre ao álcool e uso de drogas, ao se sentir manipulado, vivendo um ciclo de depressões. Val tenta seduzi-lo na tentativa de diminuir sua própria dor, ao ver Chris mantendo uma relação clandestina com ele. Todos têm uma vida cartesiana durante o dia, ou seja, trabalham em seus empregos, são bem sucedidos, levam suas rotinas normais, porém, à noite, todos celebram as suas “liberdades” e seus “excessos”. Tudo isso: - “pro dia nascer feliz”, como diria nosso querido Cazuza.

Encontramos nesse livro relacionamentos irônicos, urbanos, pessoas que se atacam mutuamente, mesmo de "brincadeira", mas o tempo todo. Competições, manipulações. Um pacto de “não cumplicidade” em nome da liberdade de sempre fazer a escolha mais conveniente e interessante a todo instante. E o que sobra são as brigas, os ciúmes, as traições e decepções.

O autor nos leva a conhecer, através de sua “polaróide”, os bares famosos do Rio, na década de 80. Álcool, “baseados”, ataques de ciúmes, barracos em festas, numa linha do tempo que alterna “encontros recentes” e “meses depois”.

E nesse cenário, outros se juntam ao trio citado acima, como: Arthur, amigo de André, que sempre se portou como um simples amigo de Chris, mas acaba se submetendo aos caprichos sexuais dela; Adriana, uma ricaça que se vê sozinha e abandonada pelo namorado, encontra nos braços de Chris um apoio afetivo. Todos fazem suas escolhas, todos são produtos de suas liberdades, pois é na ação livre que todos escolhem seus destinos.

O leitor se vê envolvido por um texto ágil, inteligente e uma narrativa fluída e bem amarrada. O humor leve conquista página a página e quando percebemos, estamos cúmplices dos protagonistas e de suas fraquezas, paixões, incertezas e desejos inconfessáveis. O livro é uma grande salada mista de acontecimentos.

Cada geração tem uma imagem alucinatória sobre si mesma. Roda Gigante traça um bom retrato sobre alguns “tipos” que certamente viveram essa década de 80 - intensamente.

Um livro que merece atenção especial e entra para a estante dos Bons Livros Para Ler - e merece fazer parte da sua também.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


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Roda-gigante - um romance sobre sexo, bebedeiras e desencontros
autor: Henrique Chveidel
editora: Lacre

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