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O Diário de uma Camareira

“Diário de uma Camareira”, de Octave Mirbeau, foi um gol de placa da jovem editora Xenon. A tradução de Mateus Kacowics é um primor e as notas no final do livro nos ajudam a contextualizar a época em que foi escrito. Um romance sulforoso, erótico, realista e ao mesmo tempo uma pintura ácida dos costumes sociais franceses da época. Caso queiram saber mais sobre o escritor, aqui vai o mapa da mina.

 

O livro já foi filmado por Luiz Buñuel e, no papel de Celestine, a protagonista da história, ninguém menos do que Jeanne Moreau, com uma atuação magnífica. Esse eu tive a sorte de assistir.

 

“Diário de uma camareira” já foi filmado por outros grandes cineastas como, por exemplo, por Jean Renoir, com Paulette Goddard no papel de Celestine. Esse eu não assisti no cinema. Mas posso afirmar sem medo de errar que o livro é infinitamente melhor que o filme. Não estou com isso desvalorizando os filmes de Buñuel e Renoir (que nem vi) de forma alguma. Mas o livro é bem mais rico, simples assim.

 

“O Diário de uma chamada Camareira” é a história de uma empregada doméstica que juntou suas observações sobre o inferno social da sociedade francesa do final do século XIX. Muito subversiva, este trabalho oferece uma sátira social e uma crítica pesada do mundo dos ricos e uma visão crua da condição de servos. Uma camareira que, através do seu diário, nos conta algumas histórias picantes e ao mesmo tempo selvagens da vida burguesa na França. Seus sentimentos podem ser compreendidos em uma de suas reflexões: Como é triste ser doméstica, que solidão! Você pode morar em casas cheias de gente alegre e barulhenta, mas você é solitária. A solidão não vem de viver só, vem de viver em meios a pessoas que não ligam para você. Gente para quem você vale menos do que um cão, ou de uma flor tratada como se fosse criança rica... pessoas das quais você só ganha os restos inúteis ou as sobras estragadas. (pg 83) Se olharmos as empregadas (ou, como dizia meu saudoso pai, “as técnicas em assepsia domiciliar”) que trabalham em nossas casas, muitas delas não diferem das reflexões feitas por Celestine, a protagonista e autora dos diários de uma camareira, há quase um século. Mas Celestine é diferente. Octave Mirbeau dá a sua voz a uma serva que já traz a subversão em si. Através de seus olhos, percebemos o mundo através de orifícios. Mirbeau nos mostra os lados ocultos e o mau cheiro da alta sociedade, os solavancos morais das classes dominantes e as torpezas da sociedade burguesa que ele ataca. Ao despi-las, mostra as roupas de baixo de suas falhas morais, sua hipocrisia e suas perversões. O que impressiona em Celestine é sua desenvoltura. Ela quer ser chique, tem roupas bonitas, gosta de boas comidas, de beber um bom vinho e fica indignada quando não participa dos grandes eventos, leia-se festas, dos patrões. O vocabulário de Celestine tem um refinamento. Não há vulgaridades em suas reflexões. Aliás, é uma leitora de Monsieur Paul Bourget, um autor contemporâneo de Octave Mirbeau, “cujas obras ostentam certa pretensão de profunda psicologia”. Mas que, na verdade, segundo o autor, é de uma superficialidade e de uma pretensão que tem no lugar-comum o seu grande achado.

 

A escolha do nome Celestine feita pelo autor tem uma conotação celestial. Mas não é bem assim que a banda toca. Ela é diferente disso. Existe algo vicioso, perverso em sua visão de mundo que é fruto de seu ambiente, mas em sua trajetória existe algo de sentimental. Ao contrário de muitas, ela tem o pleno domínio de suas escolhas. Frequenta vários corpos masculinos, mas tem o controle absoluto. Não é uma prostituta. De jeito nenhum. Mas uma mulher que está à frente do seu tempo. Uma mulher inteligente e observadora.

 

Tem a plena consciência de tudo que acontece ao seu redor e toma notas. Ela sabe o que está acontecendo dentro de cada casa e até mesmo conhece os piores segredos que todos escondem. Tudo começa em 14 de setembro, às três horas da tarde de um dia frio, cinza e chuvoso, quando Celestine desembarca na Normandia, em Mesnil-Roy, para começar um novo emprego, o décimo segundo em dois anos. Seus patrões, Sr e Sra Lanlaire, são um casal burguês detestável. E Mirbeau faz questão de realçar isso. A própria escolha do nome Lanlaire, você, leitor, poderá ver a origem dele nas notas no fim do livro. À medida que Celestine vai narrando suas dificuldades de adaptação aos Lanlaires, ela recorre a flashbacks, como, por exemplo, quando narra a perda de sua virgindade com um homem vulgar, a relação com sua mãe bêbada, seu caso de amor com um tuberculoso e outras séries de situações e sua imensa folha corrida entre lares variados. Mas é com Joseph, o jardineiro dos Lanlaires, que ela desenvolve uma relação mais estranha, quando ela fornece ao leitor suas preferências masculinas.

 

“Sempre tive um fraco por canalhas. Eles têm uma imprevisibilidade que me excita, um cheiro particular que me acende, alguma coisa de áspero e poderoso que me retém pelo sexo. Por infames que sejam os canalhas, não são tão infames como as pessoas de bem. E o que me aborrece em Joseph é que ele se passa por homem de bem. Eu gostaria dele se ele fosse francamente, frontalmente um canalha. É verdade que assim se perderia essa aureola de mistério, essa sedução pelo desconhecido que me atrai tanto em direção a este monstro." (pg 141) À medida que os diários são publicados, vemos que o caso Dreyfus na história da França naquela época também representa o momento chave neste romance.

 

Uma histeria nacionalista e antissemita ronda a tudo e a todos, dando ao romance um sentido ainda mais instigante.

 

Mas fico por aqui. Com certeza, indico “O Diário de uma camareira”, de Octave Mirbeau, como um dos grandes livros que li este ano.

 

Erotismo, decadência, fanatismo, perversões, tudo isso dentro de uma história em forma de diário que vai prender o leitor do início ao fim. Por isso, indico essa obra, que merece um lugar em todas as estantes.    


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Erótico, Romance


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O Diário de uma Camareira
autor: Octave Mirbeau
editora: Xenon
tradutor: Mateus Kacowics

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