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Número Zero


O livro “Número Zero”, do escritor Umberto Eco, já posso adiantar: é o máximo. “Em Nome da Rosa”, “Cemitério de Praga” foram os romances que eu li desse formidável autor. O primeiro, li há vinte anos. O segundo, li há quatro anos e encontra-se resenhado aqui no blog. Não preciso falar sobre esse grande intelectual. Seu currículo não deixa dúvidas de quem estamos falando. Portanto, podemos deixar as apresentações de lado e irmos direto à história. Vamos nessa? Comecemos com uma citação no livro:

 

“Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas, o prazer da erudição é reservado a perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela.” (pg. 20)


Esse texto amargo é do personagem central do livro, Colonna. Ele se sente um perdedor. Não conseguiu obter um diploma universitário e ganha a vida fazendo traduções em alemão, uma língua muito lucrativa no momento.

Vive no limite do aceitável economicamente. Sua ex-mulher, Anna, o convenceu que ele era um perdedor. E assim foi se sentindo um, até que uma oferta irrecusável, financeiramente falando, bate à sua porta, e vai virar sua vida de cabeça para baixo. E qual era essa oferta de trabalho?

Em abril de 1992, aos cinquenta anos de idade, Colonna chega a Milão para receber uma proposta financeira de um estranho homem chamado Simei, que precisa de um ghost-writer para escrever um livro chamado “Amanhã: Ontem”. O livro em questão trata-se, na verdade, de um jornal diário chamado “Domani” (Amanhã). O patrocinador do projeto, Comendador Vimercate, é um rico proprietário de hotéis, canais de televisão e tabloides.

Esse magnata excêntrico (seria o ex-primeiro-ministro italiano Berlusconi?) quer criar um simulacro de equipe editorial. Um jornal que nunca será impresso. O livro faria um relato sobre o porquê da não publicação desse jornal,  esclarecendo que este só não foi às bancas por causa da ausência de liberdade de imprensa e de algumas verdades incômodas por ele.

Todos, exceto Colonna e Simei, estão convencidos de que eles estão trabalhando na criação de um jornal livre e independente. Simei foi designado editor-chefe e Colonna, seu assistente. O trabalho do jornal na verdade não é informar, mas o contrário disso, desinformar. Seis editores, cinco homens e uma mulher são empregados para criar um conteúdo sensacionalista, como revelações de verdades chocantes que podem gerar convulsões políticas e sociais e arruinar a reputação dos ricos poderosos.

De acordo com Simei, o objetivo final do Comendador Vimercate é atingir o pequeno círculo de políticos e banqueiros que controla a economia italiana. A partir deste ponto, Umberto Eco segue três linhas narrativas: o trabalho diário da equipe editorial (em que ele satiriza os vícios do jornalismo contemporâneo), a história de amor entre Colonna e Maia, a única mulher do jornal  e a conspiração muito bem desenvolvida por Bragadoccio, outro colega de Colonna.

As discussões acaloradas de reuniões editoriais são narradas brilhantemente como uma sátira, ridicularizando a forma como os jornais e revistas distorcem os fatos, criando sensações a partir do nada. Quando Simei instrui seus subordinados sobre o modus operandi para divulgar as notícias de última hora, ele explica os princípios básicos da manipulação da informação disponível para alcançar o efeito desejado sobre o público leitor.

Um momento excelente do livro é quando Colonna profere palestras aos seus colegas sobre as técnicas de escrever retratação em resposta a uma carta de leitor insatisfeito acusando um artigo do jornal de mentiroso. Usando a imagem de Júlio Cesar (imperador romano) como assunto dessa correspondência imaginária, Colonna compõe uma retratação que, em vez de refutar os argumentos contidos na carta, ensina como reafirmar as suas alegações.

Algumas ideias de pautas chegam a ser extravagantes, mas, convenhamos, são muito engraçadas, como, por exemplo, a influência da poluição ambiental sobre o tamanho do pênis, a estranha longevidade de uma pizzaria impopular suspeita de ser um local para lavagem de dinheiro. Maia, a namorada de Colonna, era encarregada de escrever a seção de horóscopo do jornal.

Mas o momento onde em que Umberto Eco mostra seu poder de escritor é quando ele revisita alguns eventos históricos, fazendo conexões inesperadas e expondo conspirações ocultas. O personagem tragicômico, Bragadoccio, é quem monta uma conspiração com teorias bizarras, impulsionado pela mitomania e pela paranoia sobre o destino do líder fascista italiano Benito Mussolini. A sua teoria é que o líder fascista, o verdadeiro ditador, conseguiu escapar ileso para a Argentina, um destino bastante popular para muitos criminosos de guerra. E a evidência mais macabra da teoria de Braggadoccio é o relatório da autópsia de Mussolini, algo grotesco mas convincente.

Braggadoccio reconstrói cinquenta anos de história à luz de uma trama sulfurosa, em que surgem P2 maçônica, o suposto assassinato do Papa João Paulo I, o golpe de Estado, a organização conhecida como Gladio, a CIA, terroristas das Brigadas vermelhas, e muitas outras organizações e muitas tramas, subtramas e teorias da conspiração.

O livro “Número Zero” é um grande romance pela capacidade de Umberto Eco de contar uma excelente história e montar conspirações com explicações racionais, ditadas por narrativas inventadas ou não. Um manual perfeito de mau jornalismo, que o leitor agradecerá quando terminar a leitura. Um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.

 


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


< A trégua Sono >
Número Zero
autor: Umberto Eco
editora: Record

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