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Minha Luta 1: A Morte do Pai

Karl Ove Knausgaard, autor da (vamos chamar assim) série “Minha Luta” começa pelo título “A morte do pai”, que é o primeiro livro desta série que, se não me falha a memória, já está no terceiro volume no Brasil.

 

O livro causou um impacto tremendo na Noruega. Para que vocês tenham uma ideia, os livros de Karl Ove Knausgård chegaram à marca de 458 mil cópias, em um país de 5 milhões de habitantes.

 

O livro é um sucesso na Europa e nos Estados Unidos. O autor renuncia à ficção e mergulha no real, ou seja, no seu passado e no seu presente, não importando se ele tem nove anos, dezenove anos ou trinta anos.

 

O título “Minha luta 1 – A morte do pai” é uma luta, uma concentração desesperada para vencer cada batalha para reaver o seu passado e o seu presente utilizando o mecanismo da memória. O título do livro (Minha Luta) expressa a luta de criar e de sentir em si um excedente de tais forças e descarregar esse excedente, ou seja, sair de uma posição contemplativa e adquirir os hábitos de criador, em outras palavras, ser artista de sua própria existência. Claro que isso me faz pensar em Nietzsche através da estética da existência, na qual permite ao sujeito desenvolver uma arte de viver que favoreça a si. Esse modo de experimentação da vida é exclusiva do autor, ou seja, como ele se torna o que é. Uma tarefa em que ele acomoda vários aspectos de usar a natureza, inclusive as suas fraquezas, colocando-as de acordo com um plano artístico. Ser escultor de si mesmo para enfrentar o sofrimento do mundo, convenhamos, é de grande valia. Feita essa breve introdução, vamos ao livro.

 

“Minha luta” começa com uma meditação sobre a morte. Karl Ove Knausgaard descreve o que fisicamente acontece com nossos corpos depois de morrer, então ele lamenta o fato de que nossas sociedades estão organizadas de tal forma que esconde a morte de nossas vidas. Em seu cardápio filosófico existem pensadores variados, bem como evocações de algumas lembranças de uma adolescência vivida de uma forma confusa e ao mesmo tempo comum, como ir à escola, seus amores, tocar em uma banda. Ele fala sobre sua esposa, seus filhos, sua família. Ele explica momentos banais, tais como fazer chá, tocar uma guitarra. O texto, quando remete à sua família, é um banquete de detalhes microscópicos que a maioria dos romancistas omitiria, mas Knausgaard deixa de propósito. Detalhes do tipo “lambeu a cola, pegou o tabaco, deixando-o cair na bolsa” ou “Eu abri a tampa do café, coloquei duas colheres no meu copo”. Muitas linhas gastas sobre uma mosca zumbindo na janela. Tudo isso pode parecer enlouquecedor para quem ainda não leu o livro. No entanto, não senti nenhum incômodo lendo, pois tudo isso faz parte de um contexto maior, em que Karl Ove e seu irmão Yngve são confrontados com a tarefa de limpar a casa onde seu pai bebeu até morrer. Descobre que sua avó também está abusando do álcool e perdendo a memória. A casa encontra-se em estado decrépito com dejetos humanos e mofo. Sua memória vem por meio de flashbacks através do cheiro de detergentes de limpeza. Ele reflete sobre o processo de envelhecimento e a diferença de perspectiva entre uma criança e um adulto.

 

“Minha Luta 1 – A morte do Pai” não é um livro com tramas e sub-tramas. Em vez disso, é um trabalho sobre uma série de temas, sobre experiências, percepção e morte, mas ao mesmo tempo é uma história universal, que é emocionante e muito bem escrita. Um livro que conta a história do seu relacionamento com as pessoas mais próxima sem uma linguagem “desenvolvida para a banalidade da vida cotidiana”. Um pequeno catálogo sobre seus primeiros impulsos sexuais, seus argumentos com sua família, medos e preocupações, sobre suas reflexões sobre a vida e a morte, sobre ideias ou teorias são tecidas na história.

 

Um catálogo riquíssimo que já me deixou curioso para ler toda essa saga.

 

Um livro que merece um lugar na sua estante.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Biografias


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Minha Luta 1: A Morte do Pai
autor: Karl Ove Knausgaard
editora: Companhia das letras
tradutor: Leonardo Pinto Silva

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