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Inverno do Mundo

Foram anos aguardando o retorno do escritor britânico, Ken Follet às prateleiras.

Em 2010, ele voltou em grande estilo com o primeiro livro de sua trilogia "Queda de Gigantes" que li rapidamente. E este ano, o segundo volume já está entre nós: "O inverno do mundo". Mas antes, para os que ainda não leram o primeiro livro, vou fazer algumas considerações para que o leitor possa pegar essa obra e ler, sem pausas, o primeiro e segundo livro desta trilogia sensacional.

Lembro-me muito do primeiro livro "Queda de gigantes", pois nada mais saboroso do que ver a ficção "brincando" com a história real, personagens reais conversando com personagens da ficção. O primeiro volume desta trilogia terminou exatamente no momento em que o Tratado de Versalhes foi instaurado e a Alemanha deveria pagar a conta da guerra aos vencedores, no ano de 1924.

O cenário do primeiro termina neste ponto. Mas Algumas considerações sobre a história real precisam ser feitas antes de entrar no segundo livro "O inverno do mundo".



Quando o economista John Maynard Keynes viajou com a delegação britânica, representando o Tesouro, para negociar o Tratado de Versalles, realizado em 1919, quando terminou a Primeira Guerra Mundial, ficou estarrecido com as negociações, pois, segundo ele, os alemães nunca poderiam pagar o preço proposto pelos vencedores, tudo isso foi o suficiente para publicar um livro chamado: “As Consequências Econômicas da Paz” em que criticou duramente os termos do Tratado. Nesse livro, não sobrou ninguém: Woodrow Wilson (Presidente dos Estados Unidos), ele chamou de cego surdo Don Quixote; Lloyd George, o líder britânico foi chamado de um visitante meio humano, habitante das florestas encantadas e magicamente assombradas dos celtas antigos. Não sobrou ninguém. Das ofensas pessoais partiu para suas profecias sinistras e que, infelizmente, foram comprovadas na prática. A conclusão do livro de John Maynard Keynes foi: - os estadistas de Versalhes ganharam a guerra e ao mesmo tempo conseguiram perder a paz. E foi exatamente, se podemos dizer, o motivo principal para uma guerra estúpida desencadear alguns anos depois uma outra grande guerra, na qual milhões de vida foram vítimas das atrocidades cometidas. Qualquer negociação em que se substitui a razão pela raiva, as consequências são nefastas.

Feito isso, vamos ao "Inverno do Mundo".

Contra o pano de fundo de uma depressão mundial que resultou em desemprego generalizado, o Cabo Hitler, detentor de uma Cruz de Ferro, medalha dada pelos feitos de guerra, organizou uma falange terrorista e tomou de assalto o poder, pavimentando uma ideologia totalmente desprovida de sentido. Digo isso, pois tive a curiosidade mórbida de ler o "Mein Kampf", que é um festival de horrores teóricos, históricos, filosóficos, no meio de um devaneio estético promovido pelo diretor de marketing Joseph Goebbels.

O "Inverno do Mundo", o volume igualmente de muitas páginas, segunda parte da trilogia, é aberta em um ano crítico de 1933. Tendo como pano de fundo a “grande depressão mundial” que resultou em um desemprego generalizado, e ascensão de Hitler ao poder. Follet armado de um amplo conhecimento dessa época vai armando a trama do livro. Primeiro contando as atividades dos camisas pardas consolidando-se no poder, destruindo redações de jornais, brutalizando adversários políticos passando por cima do parlamento, todas as práticas bárbaras que desembocam no antissemitismo brutal.

O incêndio do Reichtag (parlamento alemão) já revela o primeiro sintoma do que viria a acontecer. Cenas de bandidos uniformizados de camisas pardas roubam um restaurante pertencente a um homem gay e é entregue a cães famélicos para façam o trabalho sujo: trucidar o rapaz. Além dessas bestialidades que aconteceram na vida real, vivenciadas no livro por personagens da ficção, também vemos os deficientes mentais sendo enviados para um hospital que nunca irão voltar.

Praticamente todos os personagens principais de "Queda de Gigantes" reaparecem no novo livro. A maioria deles assume papéis de apoio, enquanto seus filhos assumem a frente de um complexo de narrativas que se cruzam. "Inverno do Mundo" é contado através dos olhos de cinco famílias inter-relacionadas – americana, alemã, russa, inglesa e galesa.

Carla Von Urich e Eric Von Urich, nascidos de pai alemão, (Walter Von Urich e mãe inglesa, Maud Fitzhebert, eram sociais democratas), enquanto a irmã é uma social democrata, o irmão Eric é um nazista convicto.

Carla descobre a tristeza daquele momento ao ver sua família sendo engolida pela onda nazista, e seu pai, um social democrata, ser barbaramente assassinado ao descobrir corajosamente a clínica onde crianças, com problemas mentais, eram assassinadas.

Os irmãos americanos Woody e Chuck Dewar, cada um com seus segredos, tomam rumos distintos: um em Washington, outro nas selvas sangrentas do Pacífico.

Lloyd Willams, filho bastardo de um nobre Earl Fitzhebert (irmão de Maud Fitzhebert), com a governanta Ethel Leckwith, que renega o filho, descobre sua participação como voluntário da Guerra Civil Espanhola.

Daisy Peshkov, uma alpinista social bem orientada que só se preocupa com os prazeres da boa vida, vê sua vida transformar-se duas vezes. Na primeira, quando casa com o filho legítimo de Fitzhebert, um filho da nobreza britânica, e acaba por descobrir suas traições; e na segunda, quando finalmente conhece Lloyd Willams.

Outro personagem vital é Voloya, primo de Daisy, crítico de Stalin que assume um papel de destaque na inteligência soviética ao trabalhar na embaixada da União Soviética em Berlin.

A violência das histórias segue a crueldade do momento histórico da época, mas nada que fuja ao padrão da época. As cenas do Pacífico são narradas no livro através de um resumo pequeno, e Ken Follet faz uma análise, no mínimo curiosa, para explicar o apetite do Japão em ser um império: para o Japão a única segurança seria possuir o seu próprio império, como os britânicos faziam, ou pelo menos dominar seu hemisfério, como os E.U.A. Para isso eles precisam que o Extremo Oriente seja o seu quintal. Simples assim.

À medida que o livro avança, vemos outros momentos extremamente incríveis, como: a marcha irreversível da tecnologia; a luta entre o comunismo e fascismo; o início dos conflitos dos valores americanos nos campos de batalha; o aparato científico sendo direcionado às armas nucleares, o que iria mudar a "temperatura" da guerra mais adiante, dando espaço a uma nova forma de guerra – Guerra Fria.

Se vocês pensam que essa resenha faz um resumo do livro, não quero enganar ninguém, mas o livro têm muito mais personagens, muito mais subtramas, infinitas descobertas que colocarão seus corações na boca.

Um livro tão bom quanto "Queda de Gigantes".

Se você gosta de história, se deleita com um enredo inteligente, e vibra com um livro que o captura da primeira à última página: suas preces foram atendidas e Ken Follet voltou!

E só podemos encerrar com um aviso: essa trilogia merece um lugar na sua estante. Leia os dois volumes e aguarde, em breve, pelo terceiro, no qual a Guerra Fria promete assumir contornos ainda mais vertiginosos.

Uma excelente leitura.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


< Frank Lloyd Wright Japanese Netsuke >
Inverno do Mundo
autor: Ken Follet
editora: Arqueiro
tradutor: Fernanda Abreu

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