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A Lenda do Santo Beberrão

Joseph Roth é um autor conhecido em nosso blog através do seu grande romance “Hotel Savoy”, que já comentei. E não podemos nos dar ao luxo de passar em branco qualquer obra desse autor por considerá-lo um dos grandes mestres da literatura universal. Tenho a certeza de que mais publicações desse autor acontecerão no ano que vem. Assim espero. Hoje falaremos do livro “A Lenda do Santo Beberrão.” Neste trabalho, publicado meses antes de sua morte prematura, Roth dedica suas atenções aos perdedores. Nessa história tem algo pessoal, pois estranhamente prenuncia a morte desse grande escritor. O próprio Roth era um alcoólatra, escreveu esta novela com plena consciência do que estava falando. Conhecia o personagem como ninguém.

O santo bebedor é um homem sem-teto em Paris chamado Andreas KartNak, que vivia sob as pontes do rio Sena. Um polonês que deixou sua cidade natal de Olsochoiwice na Silésia para trabalhar nas minas de carvão francesas. Foi preso por não aguentar ver seu chefe batendo covardemente na esposa, Carolina, de quem ele havia se tornado amante. E acaba matando-o. Quando foi libertado virou um mendigo, vagueando em torno de Paris durante o dia e dormindo debaixo das pontes durante à noite. É um bêbado, sujo, vestido com uma camisa rasgada. Mas um homem sem malícia que apenas vive o presente de generosidade, incapaz de atacar o bem dos outros, um homem que, nas suas próprias palavras, se classifica como um homem de honra. Ele é natural e espontâneo.

O livro começa com a chegada de um homem gentil de boa aparência e oferece duzentos francos a Andreas. No entanto, impôs uma condição, que ele viesse a pagar o dinheiro recebido para o santuário da “pequena Santa Tereza de Lisieux” na capela de St. Marie des Bastignolles. E misteriosamente esse doador desaparece nas sombras. A sua gratidão é imensa, vai tentar fazer de tudo para pagar a “pequena Teresa” como ele a chama. Tenta reconstruir sua vida. Compra um terno novo, uma carteira e convence um homem rico para contratá-lo para um trabalho temporário.

Mas Andreas não é um homem ardiloso e perde dinheiro para más companhias e ladrões, ele pode ser facilmente enganado por um rosto bonito ou por um atributo físico feminino que lhe chama a atenção. Um homem muito fácil de ser enganado e persuadido devido a uma atitude inocente perante a vida. Um homem incapaz de viver na sociedade moderna. Ele não consegue agir, a vida flui como o rio Sena, ele segue o curso das águas. A vida para ele não é algo para ser pensado, examinado e analisado, mas algo que só acontece com ele. Cada vez que ele perde dinheiro com mulheres, em vinhos e Pernod um milagre acontece. Ele precisa pagar a sua dívida com a sua vida como uma bela revelação.

Todos os domingos, ele resolve que vai pagar a sua promessa, sua dívida com a “pequena Teresa”. Ele ouve os sinos da igreja tocando, mas sempre algo o impede de cumprir o seu dever. Até que um dia... Vou ter que parar. O livro é muito pequeno e acho que já entreguei algumas coisas que não precisava. O livro tem setenta e quatro páginas. Você pode ler rapidamente em duas horas ou menos. Mas fique certo(a) de que a qualidade dessa história é imensa. O autor transforma sua tragédia pessoal em uma luz, uma fábula moderna com gosto de Pernod e tristeza, mas de uma imensa generosidade que Roth extrai de um santo beberrão. Um autor que sem dúvida alguma está entre os maiores escritores do seu tempo, e, portanto, “A Lenda do Santo Beberrão" é um livro que merece um lugar na sua estante.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


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A Lenda do Santo Beberrão
autor: Joseph Roth
editora: Estação Liberdade
tradutor: Mário de Frungillo

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